François-Damien Bourgery, da RFI em Paris
"Não consigo acreditar que estou vivo e estou aqui, na França." A voz de Julien Février embarga ao contar sua história. No começo da semana, ele ainda estava detido pelos serviços de inteligência venezuelanos.
Último europeu detido arbitrariamente pelo regime de Nicolás Maduro, sucedido por Delcy Rodríguez, o ex-prisioneiro foi entregue à embaixada francesa em Caracas e desembarcou em Paris dois dias depois. Em um hotel no aeroporto de Orly, ele relatou as circunstâncias de sua prisão, as torturas que sofreu e o julgamento de fachada ao qual foi submetido.
Février foi preso em janeiro de 2025, no meio de uma rua em Caracas. Ele já vivia fora de seu país natal havia anos: primeiro morou na Ucrânia, depois no Equador e, na sequência, na Colômbia. Foi para a Venezuela pela primeira vez em 2023. Gostou tanto que retornou no ano seguinte.
Repressão aumentou após eleições
Entretanto, desde a contestada reeleição de Nicolás Maduro, em julho de 2024, a repressão se intensificou no país. As detenções arbitrárias, já frequentes, aumentaram e não poupavam estrangeiros, que passaram a ser usados como moeda de troca do regime. "Qualquer estrangeiro que esteja circulando pode ser levado por soldados encapuzados. Acontece na rua, em restaurantes, dia e noite. Não tem limites", lembra Julien Février.
Foi assim que o francês de 35 anos, natural de Toulouse, acabou preso. "Policiais me abordaram como se fosse para uma simples verificação de documentos, e aí já era tarde demais. Fui sequestrado", afirma.
Julien Février passou um mês na sede da inteligência militar. Algemado, com a cabeça coberta por um capuz, ele foi espancado diversas vezes. Um dia, foi levado junto com outros prisioneiros para um local desconhecido.
O comboio parou no meio do campo. "Depois de meia hora, eles me tiraram do veículo e me fizeram ficar de pé de frente para uma parede. Tinha dois metros entre mim e a parede, e então ouvi o som de armas sendo carregadas", conta. "Você pensa: 'acabou, eles vão nos executar'". Mas, na realidade, cinco minutos depois, entramos todos na prisão de alta segurança chamada Rodeo 1.
A pior das prisões, segundo ONG
A penitenciária, localizada no estado de Miranda, a leste de Caracas, é administrada pela Direção-Geral de Contraespionagem Militar desde 2024. A ONG especializada Foro Penal a considera a pior das 160 unidades prisionais do país. O local abriga cerca de 100 estrangeiros.
"Tudo é feito para garantir que não sejamos localizados", testemunha Julien Février. "Ao chegarmos, recebemos nomes e sobrenomes falsos. Toda semana somos transferidos para celas diferentes, de modo que ninguém sabe quem é quem, quem está ali por qual motivo."
Julien Février fica trancado em uma cela de dois metros e meio por dois metros. "Uma gaiola", corrige ele. "E ficamos dois por gaiola. Sem colchão e apenas com um buraco para se lavar e fazer as necessidades."
Certa noite, duas semanas após sua chegada, ele foi conduzido, junto com dezenas de outros detentos, a uma sala da prisão. "Um homem se apresentou como juiz, outro como promotor. Sentou-se, leu seus papéis e lá estávamos nós, acusados de terrorismo, financiamento do terrorismo, conspiração, associação criminosa e traição. Sessenta pessoas que não se conheciam, todas acusadas da mesma coisa. O juiz e o promotor se levantaram e saíram. Durou, no máximo, 10 minutos."
Espancamentos e música gospel
Em Rodeo 1, ele conta que os dias começavam às 5h da manhã com um toque de despertar em condições extremamente severas. Frequentemente, se estendiam com espancamentos e insultos.
"Você podia ser tirado da jaula para ser espancado, algemado por vários dias, completamente nu, no chão ou suspenso", relata o francês. "Tocava música gospel em volume máximo por horas a fio."
A comida servida nos primeiros meses era "horrível", acrescenta. Seu temperamento combativo lhe rendeu o apelido de "Napoleão" e o levou a ser conduzido ao "quarto andar", o de torturas, sete vezes. "Mas minha única maneira de lidar com isso era lutar", defende-se.
Julien Février pensou que seria libertado alguns dias depois de ser preso. A primeira vez foi em novembro, ao mesmo tempo que outro cidadão francês, Camilo Castro. A segunda, dois meses depois, foi quando foi libertado o último dos europeus, além dele próprio. Mas a sua vez chegou apenas em 6 de abril de 2026.
"Me deixaram ao meio-dia na embaixada francesa. Assim, sem mais nem menos, sem documentos, sem nada, como se nada tivesse acontecido", aponta.
Detido ao chegar na França
Ao chegar em Paris, enquanto seu irmão o esperava no aeroporto com agentes do Ministério das Relações Exteriores, foi detido pela polícia de fronteira e mantido sob custódia por várias horas, em conexão com uma condenação anterior por agressão sexual e exibicionismo. Um pedido de extradição havia sido emitido pelas autoridades francesas em 2021. "Isso foi demais", diz ele. "O tratamento que estou recebendo da França… Estou profundamente magoado." Février acabou liberado na mesma noite.
Hoje, o homem admite estar "completamente perdido". "Poder me olhar no espelho, estar seguro, poder comer normalmente, é uma sensação muito estranha."
Ele espera apoio médico do Estado francês e espera poder contar com ajuda financeira. "Agora, minha mãe poderá me acolher. Caso contrário, eu ficaria sem teto."