Eleições na Hungria podem pôr um fim à era Orbán - para o alívio da União Europeia

As eleições deste domingo (12) na Hungria são consideradas uma das mais importantes da Europa nos últimos anos. O resultado das urnas pode redesenhar a guerra da Rússia na Ucrânia, afetar as relações conflituosas entre a União Europeia e os Estados Unidos e principalmente, afetar o processo de reforma interna do bloco europeu. O "reinado" do primeiro-ministro húngaro, o nacionalista Viktor Orbán, corre um risco real de desmoronar.

10 abr 2026 - 07h02

Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa

O jornal do partido de oposição TISZA, «TISZTA Hang», em um estande de campanha eleitoral em Budapeste, em 14 de fevereiro de 2026.
O jornal do partido de oposição TISZA, «TISZTA Hang», em um estande de campanha eleitoral em Budapeste, em 14 de fevereiro de 2026.
Foto: AFP - ATTILA KISBENEDEK / RFI

A Hungria vai às urnas para eleger 199 deputados da Assembleia Nacional, que depois irão escolher o primeiro-ministro do país. Se o atual  premiê húngaro, Viktor Orbán, for derrotado, a União Europeia não esconderá o alívio. As batalhas de Budapeste com Bruxelas fizeram a Comissão Europeia congelar o envio de € 17,4 bilhões para a Hungria.

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Especialistas ressaltam que o bloco europeu trata Orbán como um "incômodo administrativo" quando deveria enfrentá-lo como uma "ameaça existencial". A Hungria tem funcionado como "porta-voz" dos interesses americanos e russos a partir das próprias instituições da UE.

Nos 16 anos em que Viktor Orbán esteve no poder, a Hungria mudou muito, e para pior. Acusado de corrupção e de favorecer seus amigos oligarcas com contratos públicos bilionários, Orbán desmantelou as instituições democráticas do país, proibiu a imigração em massa e adotou medidas contra o movimento LGBTQIA+, entre outros retrocessos.

Em entrevista ao Financial Times, o economista e diretor do Centro de Pesquisa sobre Corrupção de Budapeste, István János Toth, afirma que "o sistema de Orbán é uma cleptocracia: a elite rouba o Estado de fundos públicos, abusando da falta de Estado de direito".

O favorito de Trump

Pesquisas de opinião recém-divulgadas mostram o Fidesz, o partido ultranacionalista de Orbán, em segundo lugar, com 35% das intenções de voto. Se Viktor Orbán perder as eleições no domingo, será uma derrota significativa não só para a extrema direita europeia, como para os EUA.

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O vice-presidente americano, JD Vance, esteve esta semana em Budapeste e discursou no comício de Orbán. "Não estou dizendo em quem vocês devem votar", afirmou Vance, "o que quero dizer é que os burocratas de Bruxelas não devem ser ouvidos". O vice de Trump criticou a União Europeia por "interferir" nas eleições da Hungria e "impôr censura".

A visita de Vance à Budapeste não deve ajudar Orbán a ganhar votos, pelo contrário. JD Vance e seu chefe, Donald Trump, são impopulares na Europa e, na Hungria, só conseguem apoio dos patriotas húngaros.

Porém, o regime autoritário de Viktor Orbán é importante para Trump porque serve de modelo para o seu movimento MAGA - Make America Great Again. Além disso, o premiê húngaro tem tentado enfraquecer a União Europeia com os seus frequentes vetos às sanções russas e a ajuda à Ucrânia, o que desestabiliza a Europa e agrada Trump. Orbán é o populista europeu que Trump escolheu para ser o seu melhor amigo no continente.

O adversário que pode derrubar Orbán

Pela primeira vez em 15 anos, Viktor Orbán vai ter um adversário capaz de derrubá-lo: Péter Magyar, um conservador de 45 anos, líder do Tisza, principal partido da oposição húngara. Há alguns anos, Magyar aplaudia os discursos de Viktor Orbán, mas rompeu com o Fidesz em 2024.

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Considerado um comunicador hábil, ele promete mudança, desmontando "tijolo por tijolo" todo o sistema político de Orbán e devolvendo a normalidade ao país.

Péter Magyar, cujo tio-avô foi o terceiro presidente da Hungria, Ferenc Madl (2000-2005), é um candidato de centro-direita, pró-Europa. Em apenas um ano, ele se tornou o político mais popular do país, principalmente nas zonas rurais e entre os eleitores de direita.

A popularidade de Magyar parece não ter sido abalada pelas acusações de violência doméstica feitas pela sua ex-mulher. O candidato também tem se beneficiado da situação econômica cada vez pior do país, inflação alta e do elevado custo de vida na Hungria.

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