Os bombardeios massivos e combinados da Rússia, incluindo o uso de um míssil com capacidade nuclear, são vistos pela imprensa francesa como uma demonstração de poder de Moscou. Os ataques refletem uma intensificação das capacidades militares e uma nova estratégia russa, na qual ofensivas combinadas se tornaram mais frequentes e buscam saturar a defesa antiaérea ucraniana por meio do uso simultâneo de grandes volumes de armamento.
Segundo o Le Monde, a Rússia ampliou significativamente sua produção, com cerca de 130 drones por dia, além de armas sofisticadas, o que permite a realização de ataques em "ondas massivas". As operações exigem planejamento complexo, envolvendo milhares de militares, e podem ser preparadas com dias de antecedência, sendo monitoradas pela inteligência ocidental e ucraniana. Especialistas ouvidos pelo jornal alertam que nenhum país europeu está preparado para enfrentar ataques de saturação dessa escala.
Rússia se reafirma como potência nuclear
Kiev e Moscou informaram que a Rússia utilizou, durante esses bombardeios, seu míssil balístico de capacidade nuclear Orechnik, descrito pelo Le Parisien como uma "demonstração de poder" de Moscou, que afirma que o ataque foi uma resposta a ações ucranianas. Para o jornal, a mensagem política por trás do uso do Orechnik é intimidar e reafirmar o status da Rússia como potência nuclear, em um contexto no qual o país enfrenta dificuldades no front, enquanto a Ucrânia reforça suas posições e amplia sua própria capacidade ofensiva.
A Ucrânia ataca regularmente o território russo em resposta aos bombardeios diários de que é alvo desde que Moscou lançou, em fevereiro de 2022, uma ofensiva em larga escala contra o país.
"Não sobrou nada do apartamento", diz vítima
Segundo o Le Figaro, moradores se refugiaram no metrô, em pânico, vivendo uma "noite de terror". A população, exausta após anos de guerra, embora já habituada aos drones, ficou abalada pela intensidade incomum do ataque, que provocou ampla destruição urbana, com incêndios, prédios danificados e pessoas presas sob escombros. Relatos descrevem explosões próximas e sensação de morte iminente, com cenas comparadas a "Star Wars" no céu devido à atuação da defesa aérea.
Diante das ruínas da rua onde vivia, Yevgueni, de 75 anos, observa com olhar perdido as escavadeiras removendo os escombros após um bombardeio. "Um baque me jogou contra um armário e abriu a minha testa. Naquele instante, tudo ficou escuro. Havia poeira e uma luz avermelhada. Na verdade, já havia um incêndio, e as chamas se misturavam com a poeira", relata ao correspondente Lucas Lazo da RFI.
Yevgueni conseguiu chegar a um abrigo subterrâneo. Lá, vizinhos trataram seu ferimento às pressas, enquanto, acima deles, as paredes continuavam tremendo. "Não sobrou nada do apartamento", murmura o idoso diante do imóvel que havia sido herdado de seus pais.