O papa Leão XIV afirmou nesta quarta‑feira que os cristãos não podem se considerar cristãos "se forem favoráveis à guerra", numa referência quase direta ao governo do presidente norte-americano Donald Trump.
"Não podemos crer em Jesus e promover a guerra. (…) Não podemos crer em Jesus e abandonar quem sofre, quem chora, quem foge da miséria", disse em sua homilia na Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, fazendo também alusão ao tema migratório.
O pontífice chegou à Catalunha na véspera, e foi recebido diante da fachada pelo rei Felipe VI e pela rainha Letizia. A visita ocorre exatamente um século após a morte de Antoni Gaudí, arquiteto catalão responsável pelo projeto da Sagrada Família e figura central do modernismo europeu. Gaudí, fervoroso católico, foi declarado "venerável" no ano passado, etapa formal do processo que pode levar à sua beatificação. A coincidência de datas reforçou o simbolismo da passagem do papa pela basílica, cuja construção segue em andamento mais de 140 anos após o início.
Leão XIV é o terceiro pontífice a visitar o templo, depois de João Paulo II em 1982 e Bento XVI em 2010. A chegada do papa à basílica foi acompanhada por jornalistas internacionais. Antes da missa, ele conversou com uma criança com deficiência visual que lhe apresentou uma maquete da torre recém‑concluída. Em seguida, desceu à cripta para um momento de oração diante do túmulo de Gaudí.
O trajeto em papamóvel até a Sagrada Família foi acompanhado por uma multidão que se espalhou pelas ruas do bairro do Eixample. A recepção calorosa repetiu o padrão observado desde sua chegada ao país, com fiéis reunidos ao longo das ruas para tentar vê‑lo de perto. A segurança foi reforçada pela polícia catalã, que montou bloqueios e controles de acesso ao redor da basílica.
A torre dedicada a Jesus Cristo, concluída em fevereiro, elevou o ponto mais alto da Sagrada Família a 172,5 metros. A altura não é aleatória: Gaudí defendia que sua obra jamais ultrapassasse os 177 metros do monte Montjuïc, que considerava uma criação divina. A nova torre consolidou a basílica como a igreja mais alta do mundo, ainda que o conjunto arquitetônico permaneça inacabado.
A previsão inicial era concluir toda a construção neste ano, mas a pandemia de Covid‑19 interrompeu o turismo internacional e reduziu drasticamente a principal fonte de receita da fundação responsável pelas obras. A nova estimativa aponta para uma conclusão em cerca de dez anos, embora persistam controvérsias sobre a fachada da Glória e seus quatro campanários, cuja execução exigiria demolir dois quarteirões - medida rejeitada por moradores da região.
Impacto cultural
A Sagrada Família, consagrada por Bento XVI em 2010, é o monumento pago mais visitado da Espanha e um dos símbolos mais reconhecidos da arquitetura europeia. A ampliação da fachada da Glória reacendeu discussões sobre o impacto urbano do projeto e a fidelidade aos planos originais de Gaudí, que deixou apenas modelos e desenhos parciais antes de morrer atropelado em 1926.
A polêmica envolve urbanistas, arquitetos, moradores e autoridades municipais, que divergem sobre a necessidade de adaptar o entorno para acomodar o fluxo de visitantes e a expansão prevista. A fundação responsável pela obra defende que a conclusão integral do projeto é essencial para preservar a integridade artística da basílica, enquanto críticos argumentam que a intervenção urbana seria desproporcional.
A visita de Leão XIV reacendeu o debate ao colocar a Sagrada Família no centro da atenção internacional. A bênção da nova torre foi interpretada como gesto de apoio do Vaticano ao avanço das obras, embora o papa não tenha feito declarações diretas sobre a controvérsia. A cerimônia reuniu autoridades catalãs, representantes da Igreja espanhola e convidados ligados à preservação do patrimônio cultural.
A presença do pontífice também mobilizou setores do turismo e da economia local, que veem na exposição global da basílica uma oportunidade de recuperação após anos de queda no número de visitantes. A prefeitura de Barcelona reforçou serviços de transporte e segurança para lidar com o aumento de circulação no entorno do templo.
A missa celebrada nesta quarta‑feira (10) incluiu leituras em catalão, língua que o papa já havia utilizado no dia anterior durante visita à abadia de Montserrat. O uso do idioma foi interpretado como gesto de aproximação com a cultura local, num momento em que a Catalunha segue marcada por tensões políticas internas e debates sobre identidade regional.
A etapa em Barcelona encerra a parte mais simbólica da viagem do papa à Espanha, que ainda inclui compromissos sociais e encontros com comunidades religiosas. A agenda do pontífice tem buscado enfatizar temas como solidariedade, convivência e atenção aos mais vulneráveis.
Migração e agenda social
Antes de chegar à Sagrada Família, Leão XIV iniciou o dia com uma visita à prisão de Brians, a cerca de 40 quilômetros de Barcelona. O encontro com detentos faz parte de uma série de gestos sociais que o papa tem realizado desde o início da viagem, reforçando sua ênfase em temas de inclusão e dignidade humana.
Em seguida, o pontífice sobrevoou de helicóptero a serra de Montserrat para visitar a abadia que abriga a imagem da Virgem de Montserrat, figura central da religiosidade catalã. No local, voltou a discursar em catalão e destacou a importância da cultura e da história da região.
No período da tarde, antes da cerimônia na Sagrada Família, Leão XIV participou de um encontro no bairro do Raval, área popular do centro de Barcelona marcada por diversidade cultural e desafios sociais. Diante de jovens e líderes comunitários, o papa fez referência ao início do Mundial de futebol e pediu que as pessoas "joguem em equipe" na vida cotidiana, repetindo metáfora que já havia utilizado em Madri.
A viagem de sete dias pela Espanha terminará nas Ilhas Canárias, onde o pontífice prestará homenagem aos milhares de migrantes que morreram tentando alcançar o arquipélago em embarcações precárias. A rota atlântica, uma das mais perigosas do mundo, tem registrado aumento no fluxo migratório nos últimos anos.
Na segunda‑feira (8), diante do Parlamento espanhol, Leão XIV já havia pedido uma resposta "coordenada, solidária e eficaz" dos países europeus para enfrentar o "drama trágico da migração". O discurso repercutiu entre autoridades e organizações humanitárias, que pressionam por políticas mais amplas de acolhimento e integração.
A etapa final da viagem deve reforçar a mensagem do papa sobre responsabilidade compartilhada diante das crises humanitárias. A homenagem nas Canárias encerra uma visita marcada por forte simbolismo religioso, debates culturais e apelos sociais.
Com AFP