O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, havia dito ao Parlamento que seu governo "não acredita em mudanças de regime vindas do céu", frase que irritou a Casa Branca e foi interpretada por Trump como um recuo britânico num momento de escalada no Oriente Médio. Diante das pressões, Londres acabou autorizando o uso de duas bases militares britânicas pelos Estados Unidos para um "propósito defensivo específico e limitado". A decisão, porém, não foi suficiente para aplacar a insatisfação do presidente americano.
Em entrevista ao tabloide The Sun, Trump lamentou o desgaste: "Era a relação mais sólida de todas. E agora temos relações muito fortes com outros países da Europa", disse, citando França e Alemanha. Ele afirmou ainda nunca ter imaginado que o Reino Unido se mostraria "pouco prestativo" num momento de crise.
Starmer, por sua vez, vinha se esforçando para manter uma interlocução cordial com Trump. O republicano esteve no Reino Unido no ano passado para uma segunda visita de Estado - gesto incomum que simbolizava a tentativa britânica de manter a chamada "relação especial" entre os dois países, construída ao longo de décadas de cooperação militar e de inteligência desde a Segunda Guerra Mundial.
Mas qualquer envolvimento direto em operações no Oriente Médio permanece politicamente arriscado para Londres. O fantasma da guerra do Iraque de 2003, que custou a vida de 179 militares britânicos e manchou a reputação de Tony Blair, continua a pairar sobre o debate de segurança nacional. Starmer retomou essa memória ao justificar cautela. "Todos nos lembramos dos erros do Iraque e aprendemos essas lições", disse no Parlamento.
A pressão não vem apenas de Washington. A mídia britânica noticiou que o governo avaliava enviar o destróier HMS Duncan ao Oriente Médio, após exercícios recentes da embarcação para interceptação de drones. A medida reforçaria a presença militar do Reino Unido na região, mas aumentaria ainda mais os riscos de escalada.
Interesse nacional britânico
Membros do governo britânico tentam agora equilibrar a necessidade de apoiar os aliados e, ao mesmo tempo, evitar posições que possam arrastar o país para uma nova guerra. Darren Jones, ministro do governo, afirmou que qualquer participação britânica deve ter "base legal" e um "plano claro" que sirva ao interesse nacional. Ele confirmou que duas bases - uma em Gloucestershire e outra em Diego Garcia, no Oceano Índico - foram disponibilizadas aos EUA, assim como jatos da RAF para proteger cidadãos britânicos no Oriente Médio.
A tensão aumentou depois que uma base aérea britânica no Chipre foi atingida na segunda-feira (2) por drones de fabricação iraniana, um dos quais danificou a pista. Starmer afirmou que a instalação "não estava sendo usada por bombardeiros americanos".
Pressão por mais gastos com armas americanas?
Especialistas em política externa avaliam que a relação entre Londres e Washington passa por um momento particularmente sensível. Evie Aspinall, diretora do British Foreign Policy Group, afirma que Starmer enfrenta uma "corda bamba diplomática muito delicada", sobretudo porque a cooperação com os Estados Unidos segue vital para temas estratégicos como Ucrânia e Groenlândia. Richard Whitman, da Universidade de Kent, advertiu que as declarações de Trump podem sinalizar "uma nova relação - não tão especial".
Segundo especialistas, o temor central em Londres é que um Trump irritado passe a reavaliar compromissos militares essenciais, o que poderia gerar consequências profundas para a segurança britânica. Para Sophia Gaston, pesquisadora de política externa do King's College London, a situação poderia ser revertida se o governo britânico fizer "um anúncio ousado sobre aumentos nos gastos com defesa".
Por enquanto, porém, resta uma impressão clara: a aliança que por décadas se apresentou como inabalável enfrenta um dos seus testes mais difíceis.
Com AFP