Após semanas de tensas negociações, Estados Unidos e Israel realizaram no último sábado, 28, uma série de ataques coordenados ao Irã. Além da morte de centenas de pessoas, a ação resultou na morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei. Mas, o que levou ao ataque se os países estavam em negociação? Para especialistas, além do programa nuclear, há a intenção de derrubar o regime teocrático iraniano.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Essa escalada de tensão entre Estados Unidos e Irã tem como pano de fundo uma questão antiga: o programa nuclear iraniano. A justificativa de Trump para os ataques é destruir o programa nuclear e proteger o povo americano de ameaças. O governo iraniano afirma não possuir bomba nuclear.
O presidente do Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que os bombardeios continuarão “ininterruptamente durante toda a semana ou pelo tempo que for necessário para atingirmos nosso objetivo de paz em todo o Oriente Médio e, de fato, no mundo todo!". Embora, no domingo, tenha aberto a possibilidade de negociação.
Por outro lado, o presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, declarou que vingar o Líder Supremo é um "direito e dever legítimo" da República Islâmica. Em discurso transmitido pela TV estatal, classificou a morte da "mais alta autoridade política do Irã e proeminente líder do xiismo" como uma "declaração de guerra contra os muçulmanos, e em particular contra os xiitas, em todo o mundo".
De acordo com a Mehr, os números foram informados por um porta-voz do Crescente Vermelho iraniano. "Vinte e quatro províncias do Irã foram atingidas" pelas ofensivas, afirmou o representante, acrescentando que o balanço preliminar indica "pelo menos 201 mortos e 747 feridos".
Veja os locais dos ataques de EUA e Israel e a retaliação do Irã
Pontos vermelhos indicam locais onde explosões foram confirmadas. Teerã responde com mísseis contra bases americanas.
Legenda
Cidades atacadas no Irã:
Retaliação iraniana:
Mísseis balísticos e drones foram lançados contra instalações militares americanas no Iraque, no Catar e nos Emirados Árabes Unidos, em resposta direta aos bombardeios em território iraniano.
Negociação frustrada
Os governo dos dois países estavam em negociação na Suíça para chegar a um acordo sobre o programa nuclear e um possível alívio das sanções impostas pelos Estados Unidos ao Irã. Na quinta-feira, 26, última rodada de negociações, o Irã concordou em 'nunca' estocar urânio enriquecido. O ministro das relações internacionais de Omã chegou a afirmar que houve "progrressos significativos" nas negociações de paz.
Mas, no sábado, data em que estava marcada a quarta reunião para discutir o encerramento do programa nuclear iraniano, foram realizados os ataques coordenados por Israel e Estados Unidos. O que foi considerado por especialistas em direito internacional como um ataque ilegal, uma vez que os países estavam em negociação e não foi informado que essas negociações estavam encerradas.
Mudança de governo e petróleo
Se Estados Unidos e Irã negociavam, o que motivou o ataque? Para o professor Relações Internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Mauricio Santoro, "as três principais razões que motivaram o ataque foram o programa nuclear iraniano, seu estoque de mísseis balísticos e o apoio do regime a uma série de grupos armados no Oriente Médio que são hostis aos EUA e a Israel, como Hamas e Hezbolá. Essas três características tornam o Irã uma ameaça para os interesses americanos na região."
Santoro explica que Trump tem como objetivo a derrubada do regime iraniano. "Ao menos sua substituição por dirigentes dóceis aos EUA, como ocorreu recentemente na Venezuela."
O professor de Relações Internacionais da SKEMA Business School, Wilson Mendonça, avalia que além da derrubada do regime dosa aiatolás, Trump está de olho na China. "Existe a questão de interesse geopolítico, de uma alteração na balança de poder na região. Haja vista que o principal comprador de petróleo iraniano é a China, que conta, inclusive, com condições especiais, desse fornecimento de petróleo por parte da do Irã."
Na interpretação de Mendonça, a geopolítica da energia, principalmente o petróleo, é um dos pontos estratégicos para a intervenção dos Estados Unidos na região.
"É preciso entender um aspecto muito mais amplo, né, no que diz respeito a balança de poder no Oriente Médio e no caso uma tentativa de deslocamento geopolítico de influência por parte tanto da Rússia quanto da China na região", explica. "Trump busca ampliar a capacidade de influência estratégica dos Estados Unidos também utilizando Israel como defensor dos seus interesses no Oriente Médio."
Rússia e China
Assim como ocorreu na Venezuela, um parceiro estratégico de China e Rússia, Trump movimenta as peças do xadrez da geopolítica em busca de um governo que atenda aos interesses norte-americanos e busca reduzir a área de influência da China e Rússia.
"O Irã é um parceiro importante para China e Rússia, mas nem Pequim nem Moscou querem pagar o preço de ajudar o regime iraniano. Irão se limitar a manifestações retóricas contra as ações dos EUA", avalia Maurício Santoro.
Mendonça aposta que "tanto Vladimir Putin quanto Xi Jinping, devem se manifestar, mas de uma maneira mais cirúrgica e estratégica em relações bilaterais com os Estados Unidos, no que diz respeito a essas movimentações de deslocamento de influência geopolítica globais, não apenas no Oriente Médio, mas também na América do Sul, assim como vimos na Venezuela."