Lufthansa completa 100 anos com greves, proposta pela TAP e reconhecendo passado nazista

Na semana em que completa 100 anos, a tradicional companhia aérea alemã Lufthansa enfrenta greves que devem afetar centenas de voos entre quinta (16) e sexta-feira (17). Tanto comissários de bordo quanto pilotos devem aderir às paralisações em rotas saindo de várias cidades, mas principalmente Frankfurt e Munique. Os movimentos de trabalhadores também afetaram a festa de aniversário da empresa, realizada na quarta-feira (15), e que contou com a presença do chanceler Friedrich Merz.

16 abr 2026 - 07h26

Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf

Aeronaves da companhia alemã Lufthansa na pista do Aeroporto de Frankfurt, no oeste da Alemanha, em 15 de abril de 2026,
Aeronaves da companhia alemã Lufthansa na pista do Aeroporto de Frankfurt, no oeste da Alemanha, em 15 de abril de 2026,
Foto: AFP - KIRILL KUDRYAVTSEV / RFI

Cerca de 20.000 comissários de voo da Lufthansa jogaram água no chopp da festa da firma. Eles começaram a greve já na quarta-feira e devem continuar até à noite de hoje.

Publicidade

Para completar o "presente de grego" que a Lufthansa está ganhando, outra categoria, a dos pilotos, começou sua greve hoje e vai até amanhã. Voos das subsidiárias Cityline e Eurowings também devem ser afetados.

A cerimônia que marcou os 100 anos, ontem, ocorreu no novo "Hangar Um" do Aeroporto de Frankfurt, tendo o chanceler Merz como convidado de honra, enquanto grevistas faziam barulho do lado de fora.

O presidente do Conselho de Supervisão, Karl-Ludwig Kley, agradeceu aos funcionários que mantinham a empresa funcionando e pediu a Merz para iniciar um debate sobre a alteração das leis de greve.

Esta é apenas mais uma de uma série de greves que a Lufthansa enfrenta desde o ano passado e a empresa considera que há um abuso por parte de dois sindicatos.

Publicidade

Reivindicações

A briga é diferente para os pilotos e para a tripulação, mas a motivação geral é a mesma: a Lufthansa vem há anos tentando se tornar mais lucrativa para se igualar às outras companhias aéreas do próprio grupo, como a Cityline, a Eurowings e a Discovery, que são empresas de nicho, mais modernas, e que vem se saindo melhor que empresa principal, pelo menos em termos de lucratividade. Em faturamento, a Lufthansa segue sendo a maior empresa aérea de toda a Europa.

A greve dos comissários de bordo é justamente porque consideram que a empresa está tentando igualar as regras gerais de trabalho e escalas às das outras empresas do grupo, que são mais precárias.

Já os pilotos reivindicam basicamente uma melhoria no plano de pensão para as aposentadorias. Um piloto da Lufthansa hoje ganha cerca de € 20.000 por mês e se aposenta com cerca de € 9.000, o que é muito acima da média não só da Alemanha, mas do próprio mercado da aviação. Na concorrente Condor, por exemplo, um piloto ganha cerca de  € 14.000.

A Lufthansa argumenta que a atual reivindicação do sindicato é irrealista e que basicamente dobraria seu custo anual com pensões. O objetivo da companha aérea é reduzir o número de funcionários em até 4.000 até 2030.

Publicidade

Ao que tudo indica, a Lufthansa está tentando evitar um destino como o da Varig no Brasil, empresa que foi à falência justamente porque acumulou décadas de dívidas e, apesar de ser uma empresa histórica, nunca conseguiu se adaptar aos novos tempos.

Guerras e fornecimento de combustível

A Lufthansa e todas as companhias europeias já vinham sofrendo com a Guerra da Ucrânia, que inviabilizou as rotas para ao extremo oriente, já que as empresas precisam evitar passar pelo espaço aéreo russo. Vale lembrar que as companhias aéreas chinesas, indianas e árabes continuam a utilizar as rotas diretas sobre a Rússia e por isso levam vantagem.

Agora a guerra no Irã coloca em dúvida o fornecimento de petróleo para a produção de querosene de aviação. A Lufthansa sozinha queima nada menos que 1.000 toneladas de querosene por hora todos os dias.

Por enquanto não há um impacto maior porque os contratos de fornecimento de petróleo são planejados para o ano inteiro, mas começa a crescer a suspeita de que alguns fornecedores talvez não consigam cumprir esses contratos.

Publicidade

Proposta pela TAP

A Lufthansa segue com um alto faturamento, sendo o quarto maior grupo de companhias aéreas do mundo, e expandindo na Europa: comprou a Swiss Airlines, a Austrian Airlines e a Brussels Airlines, da Bélgica.

A Lufthansa também é dona de 41% da italiana ITA e agora se prepara para comprar a portuguesa TAP, de olho inclusive no mercado latino-americano. Mas há um entrave para uma aquisição completa: por enquanto a empresa portuguesa planeja vender apenas 45% de participação.

Lufthansa e as relações com o nazismo

A Lufthansa sempre preferiu dividir a história da empresa entre a "primeira" e "segunda" Lufthansa. A primeira começou em 1926 e durou até a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. A segunda é a empresa atual, que foi fundada só em 1953.

Mas se a ideia é celebrar os 100 anos, então não dá mais para tentar tratar as duas como empresas diferentes. A Lufthansa decidiu falar sobre o assunto, muito depois de outras empresas alemãs, como a Volkswagen, terem reconhecido suas relações próximas ao nazismo.

Publicidade

A companhia aérea inaugurou uma exposição sobre sua história incluindo a época do nacional-socialismo e também apoiou um livro investigativo em que o historiador Manfred Grieger examina os anos de 1926 a 1945. Ele é taxativo em dizer com todas as letras: "a Lufthansa era uma empresa nazista".

A empresa surgiu com o objetivo de substituir secretamente a Luftwaffe, a Força Aérea Alemã, que tinha sido proibida depois da Primeira Guerra Mundial. A Lufthansa esteve por trás dos voos de campanha eleitoral de Adolf Hitler em 1932, financiou o então deputado nazista Hermann Göring, e lucrou durante a guerra fazendo manutenção para a Luftwaffe e empregando milhares de trabalhadores forçados.

E isso tudo não ficou tanto no passado: depois da guerra, quando a atual Lufthansa foi recriada na década de 1950, muitos dos antigos funcionários e gestores foram recontratados.

A empresa também teve participação golpe de Estado que levou Francisco Franco ao poder na Espanha, facilitando a movimentação das tropas rebeldes e participando da Legião Condor, em que a Alemanha nazista apoiou Franco por via aérea.

Publicidade
A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações