Greenpeace bloqueia cargueiro em protesto contra comércio nuclear entre França e Rússia

Ativistas do Greenpeace, que protestavam contra o comércio de urânio entre a Rússia e a França, bloquearam um navio cargueiro no porto de Dunquerque (norte da França) por cinco horas na manhã de segunda-feira (2). A polícia foi chamada e quatro ativistas foram presos.

2 mar 2026 - 14h06
(atualizado às 14h09)

Doze ativistas foram inicialmente detidos, e quatro deles, três mulheres e um homem de nacionalidades alemã, austríaca e holandesa, permaneceram presos, informou a promotoria de Dunquerque à AFP.

Foto mostra o navio cargueiro Mikhail Dudin atracado no porto de Dunquerque enquanto ativistas do Greenpeace participam de uma operação para bloqueá-lo, em 2 de março de 2026.
Foto mostra o navio cargueiro Mikhail Dudin atracado no porto de Dunquerque enquanto ativistas do Greenpeace participam de uma operação para bloqueá-lo, em 2 de março de 2026.
Foto: AFP - SAMEER AL-DOUMY / RFI

Os outros oito, de nacionalidades francesa, alemã e belga, foram interrogados e liberados. Uma investigação por obstrução à liberdade de trabalho foi aberta, acrescentou a promotoria.

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O bloqueio, que começou às 4h10 (0h10 em Brasília), foi suspenso às 9h10 locais, segundo a polícia. Cerca de vinte membros do Greenpeace bloquearam o navio cargueiro Mikhail Dudin em uma eclusa portuária para impedi-lo de descarregar sua carga, que a ONG ambiental suspeita ser urânio da Rússia destinado ao setor nuclear francês, observou um fotógrafo da AFP ao amanhecer. Alguns deles se acorrentaram a uma eclusa para bloquear o acesso.

O Greenpeace disse à AFP que observou o descarregamento ao meio-dia de "40 contêineres de urânio natural", que foram enviados por trem, bem como outros contêineres de urânio enriquecido, que foram "descarregados por caminhão".

Contratos com a Rússia

Desde o início da invasão russa da Ucrânia em 2022, o Greenpeace tem denunciado regularmente a continuidade de contratos que ligam a indústria nuclear francesa à Rússia por meio de sua gigante estatal Rosatom, o que representaria uma brecha nas sanções europeias contra Moscou. "Esse comércio, que indiretamente alimenta a guerra de Putin, deve parar", reiterou Pauline Boyer, gerente da campanha nuclear do Greenpeace, em um comunicado na segunda-feira. Dados abertos da Global Fishing Watch mostram que, desde 24 de fevereiro de 2022, início da invasão russa da Ucrânia, este navio cargueiro fez mais de 20 viagens de ida e volta entre Dunquerque e os portos de Vistino, Ust-Luga e São Petersburgo, na Rússia.

Outro navio cargueiro, o Baltiyskiy-202, que já transportou urânio entre a França e a Rússia, segundo o Greenpeace, fez mais de 15 viagens de ida e volta. Tanto o Mikhail Dudin quanto o Baltiyskiy-202 navegam sob a bandeira panamenha e pertencem a empresas registradas em Hong Kong, de acordo com a Organização Marítima Internacional. Quando contatada pela AFP, a EDF, estatal francesa e maior produtora de eletricidade do país, se recusou a comentar. Já a empresa Orano, grupo francês especializado em mineração, conversão, enriquecimento, reprocessamento e logística nuclear, respondeu que "não está presente" na Rússia e "não possui contratos vigentes para a compra ou venda de urânio natural, reprocessado ou enriquecido com empresas russas".

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No entanto, o grupo esclareceu que os clientes estrangeiros do grupo compram urânio natural do Cazaquistão e "decidem a rota a seguir" para enviá-lo à França. A Framatome, multinacional francesa controlada pela EDF e uma das principais fornecedoras mundiais de tecnologia nuclear, não respondeu.

Em 2025, a França importou pelo menos 112 toneladas de urânio enriquecido e seus compostos da Rússia, representando um quarto do total de suas compras em volume, um nível que permaneceu estável em comparação com 2024, de acordo com dados alfandegários franceses analisados pela AFP. Essas importações, no entanto, diminuíram significativamente entre 2022 e 2024.

Com AFP

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