As expectativas eram elevadas. Antes mesmo do início das negociações, Merz havia prometido um "grande salto à frente". Após sete horas de discussões, conservadores da CDU/CSU e sociais-democratas do SPD chegaram a um acordo que combina alívio fiscal para trabalhadores e empresas, reforma da previdência e medidas de flexibilização do mercado de trabalho.
"Estamos comprometidos em preservar nosso estado de bem-estar social e aliviar o fardo sobre trabalhadores e empresas, reduzindo impostos", afirmou o chanceler durante a apresentação do pacote.
"Queremos recolocar a Alemanha nos trilhos, e agora está claro que isso é possível", acrescentou Merz.
Reforma da previdência e corte de impostos
Uma das principais medidas do pacote anunciado nesta quinta-feira é a reforma da previdência, que ainda deverá ser debatida e aprovada pelo Parlamento. O projeto prevê o aumento gradual da idade legal de aposentadoria para além dos 67 anos, a ampliação da base contributiva e a introdução de um mecanismo de capitalização, no qual parte dos recursos seria investida para complementar o financiamento das futuras aposentadorias.
No campo tributário, trabalhadores de baixa e média renda devem ser beneficiados por um alívio de € 10 bilhões no imposto de renda a partir de 2027. Para compensar a perda de arrecadação, o governo pretende reduzir subsídios fiscais e aumentar a tributação sobre rendimentos superiores a € 250 mil por ano.
"Aqueles com os rendimentos mais altos contribuirão mais. É uma questão de justiça se quisermos que o país avance", declarou o ministro das Finanças, Lars Klingbeil, do SPD.
Flexibilização do mercado de trabalho
O pacote também atende a uma série de reivindicações do setor empresarial. Entre as medidas anunciadas está a ampliação para quatro anos da duração dos contratos temporários sem necessidade de justificativa específica.
O governo também pretende endurecer as regras para afastamentos por motivo de saúde. Os atestados médicos emitidos por telefone serão eliminados e será exigida comprovação médica desde o primeiro dia de ausência.
As organizações patronais receberam positivamente as medidas de flexibilização e as novas regras para licenças médicas. Já o sindicato IG Metall criticou o projeto, denunciando uma erosão dos direitos dos trabalhadores.
Além disso, o governo anunciou a criação de uma empresa pública voltada à construção de moradias populares, com o objetivo de ampliar a oferta habitacional em áreas urbanas onde os preços continuam elevados.
Impacto econômico e desafio político
O anúncio ocorre em um momento delicado para Friedrich Merz. Pouco mais de um ano após assumir o cargo, o chanceler enfrenta críticas pela falta de resultados econômicos concretos, enquanto a indústria alemã continua pressionada e a economia estagnada. Nos últimos três anos, a Alemanha acumulou dois anos de recessão (2023 e 2024) e registrou em 2025 um crescimento anêmico de apenas 0,2%.
Para o economista Holger Schmieding, as medidas anunciadas agora precisam ser analisadas em conjunto com outras mudanças econômicas aprovadas recentemente pelo governo. "Nenhuma das inúmeras reformas aprovadas ontem à noite pelo governo alemão é revolucionária por si só. Mas, somadas à significativa reforma da previdência aprovada há dez dias, elas podem ter um impacto real", avaliou.
Marcel Fratzscher, presidente do instituto econômico DIW, foi mais cauteloso. "Não se trata de um grande avanço, mas sim de um pacote simbólico", resumiu.
Demonstrar capacidade de governar tornou-se uma prioridade para a coalizão CDU/CSU-SPD diante das eleições regionais de setembro em dois estados do leste alemão, onde o partido de extrema direita AfD espera conquistar vitórias inéditas no período pós-guerra.
Ao encerrar a apresentação das reformas, Merz dirigiu-se diretamente aos eleitores. "Sabemos que vocês querem decisões e não discussões. E foi exatamente isso que fizemos", afirmou.
"Também temos um pedido para vocês. Juntem-se a nós. Apoiem-nos nas reformas", acrescentou, assegurando que seu governo fará tudo o que estiver ao alcance para retirar a Alemanha da atual fragilidade estrutural de crescimento.
Com AFP