Lia Rodrigues conduz jovens artistas em formação e amplia escuta pela diversidade em Avignon

A coreógrafa brasileira Lia Rodrigues assume durante a edição 2026 do Festival de Avignon a coordenação artística da Transmissão Impossível, programa de formação cocriado pelo Festival e pela Fundação Hermès. Com quase cinco décadas de trajetória entre criação, pedagogia e trabalho comunitário, Lia orienta 55 jovens artistas de diferentes nacionalidades, trazendo ao laboratório a experiência da Escola Livre de Dança da Maré e sua "pedagogia mutante".

13 jul 2026 - 11h34
(atualizado às 11h58)

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A coreógrafa brasileira Lia Rodrigues na Vila Criativa do Festival de Avignon de 2026.
A coreógrafa brasileira Lia Rodrigues na Vila Criativa do Festival de Avignon de 2026.
Foto: © Romain Ferré / RFI / RFI

A chegada de Lia Rodrigues à coordenação do Transmissão Impossível sinaliza uma inflexão importante na política de formação do Festival de Avignon. O programa, cocriado com a Fundação Hermès, consolidou-se como laboratório de verão dedicado a jovens artistas do mundo inteiro. Em 2026, o festival confia essa função a uma coreógrafa brasileira cuja trajetória combina rigor estético, engajamento comunitário e uma visão de mundo construída entre o palco e a favela da Maré.

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Logo no início da conversa, Lia desmonta a ideia de futuro homogêneo com uma fala que oferece pistas para esta terceira edição do projeto:.

"Eu acho que é impossível pensar no futuro sem pensar nos diferentes futuros que atingem diferentemente partes do planeta. Não é a mesma coisa o futuro de um jovem na França que o futuro de um jovem no Brasil, que são as realidades que eu conheço bastante aqui na Europa. Ou o futuro de um jovem que mora no continente africano, ou que mora na Austrália, um jovem negro, um jovem indígena, um jovem trans, um jovem hétero, cis. Então, não dá para falar de um futuro. São futuros."

A multiplicidade é o ponto de partida do laboratório, que reúne 55 jovens artistas de diferentes nacionalidades, entre eles 12 estudantes da Escola Livre de Dança da Maré. Para lidar com esse conjunto heterogêneo, Lia montou um time de confiança: Silvia Soter, Cristina Moura, Dani Lima e Calixto Neto. "Eu tenho uma equipe que eu confio muito, artisticamente, pedagogicamente, e juntos a gente consegue organizar essa diferença." 

A sucessão da francesa Mathilde Monnier, que coordenou as edições anteriores, não é apenas institucional. Lia e Monnier compartilham uma história de colaboração e afinidade pedagógica. "Eu conheço muito a Mathilde como artista, mas também nós trabalhamos juntas porque ela é uma grande pedagoga. Ela criou um programa de master em Montpellier, dirigiu o Centro Coreográfico de Montpellier, dirigiu o CND (Centro Nacional da Dança de Paris)... Ela foi para o Brasil conhecer a nossa escola, a gente fez vários projetos juntos", conta. Por isso, assumir o programa tem peso simbólico: "Para mim é uma honra ter sido convidada também por ela, de ela pensar que eu poderia trazer alguma novidade", considera.

É na pedagogia que Lia desloca o eixo da formação. Ela faz questão de situar sua trajetória antes da Maré, mas reconhece que o Brasil impõe condições específicas ao trabalho artístico. "Eu sinto que eu sou reconhecida no Brasil, mas é muito difícil ainda contar com recursos do governo brasileiro para o meu trabalho." A comparação com a França é inevitável: "Ser artista no Brasil tem zero a ver com ser artista na França. Sobreviver tantos anos como artista e ver tantos governos passarem… eu tenho mais ou menos 50 anos de carreira", lembra.

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Escola Livre de Dança da Maré

Lia chegou à Maré em 2004, em uma experiência inicialmente marcada pela escuta. "Eu cheguei para aprender primeiro, não para trazer alguma coisa." Com a Redes da Maré, ela ajudou a criar um centro de artes: "Nós encontramos um galpão sem teto, destruído… e muito pouco a pouco ele se transformou." Só em 2011, com apoio da Fundação Hermès, nasceu a Escola Livre de Dança da Maré.

"Nós temos 320 alunos, entre 8 e 80 anos, e um grupo de jovens que recebe uma bolsa mensal. A questão da nossa escola não é virar artista, é ser cidadão. A pedagogia mutante vem de uma coisa muito simples, sabe o quê? Dinheiro".

Quando o tema é corpo e política, Lia recusa qualquer separação entre vida e criação. "A política está na nossa vida. É impossível estar vivo sem ser político." Ela enumera escolhas cotidianas: "Qualquer escolha que a gente faz, em quem a gente vota, em quem a gente não vota, se a gente se abstém de votar… tudo é político." E amplia o conceito: "A política também é a política do sensível. O que é política? É muito vasto esse tema."

A consciência do próprio lugar aparece sem rodeios durante a entrevista. "Você vê uma mulher branca… no caso, eu sou velha, tenho 70 anos e sou muito privilegiada no Brasil. Eu tenho um compromisso, uma missão e uma responsabilidade para os jovens que não têm a mesma oportunidade que eu."

O Transmissão Impossível integra a iniciativa Artistes dans la Cité. Durante doze dias, jovens artistas têm acesso a masterclasses, debates, ensaios, encontros com criadores da programação e uma imersão completa no festival. 

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