Sob um céu cinzento e temperaturas próximas a 0°C, manifestantes munidos de bandeiras groenlandesas e dinamarquesas se reuniram na praça da prefeitura de Copenhague. Os participantes do ato entoaram o nome da Groenlândia em groenlandês, "Kalaallit Nunaat", e também exibiram cartazes com mensagens em inglês, como "Make America Go Away" ("faça a América ir embora"), um trocadilho com o famoso slogan de Trump, "torne a América grande novamente".
"É importante para mim participar, porque trata-se fundamentalmente do direito do povo groenlandês à autodeterminação. Não podemos ser intimidados por um Estado, por um aliado. É uma questão de direito internacional", explicou a manifestante Kirsten Hjoernholm, 52 anos.
Os idealizadores da mobilização, a Organização Nacional dos Groelandeses na Dinamarca (Uagut), o movimento cidadão "Não toquem na Groenlândia" e o Inuit, um grupo de associações locais groenlandesas, aproveitam a presença de uma delegação bipartidária do Congresso americano na capital dinamarquesa para fazer ouvir suas vozes.
Segundo a senadora republicana Lisa Murkowski, "75% dos americanos" se opõem à ideia de Trump. "A Groenlândia deve ser considerada nossa aliada", defendeu após reunião com a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, e o chefe do governo groenlandês, Jens-Frederik Nielsen.
As principais manifestações ocorrem em Copenhague e na capital groenlandesa Nuuk, mas protestos também foram convocados em outras cidades da Dinamarca, como Aarhus (centro), Aalborg (norte) et Odense (sul). "O objetivo é enviar uma mensagem clara e unânime em favor do respeito à democracia e aos direitos humanos fundamentais na Groenlândia", explica Uagut em seu site.
Controle da Groenlândia
Desde seu retorno ao poder, há um ano, Donald Trump menciona regularmente a possibilidade de assumir o controle desta imensa ilha ártica ligada à Dinamarca — estratégica, porém pouco povoada. Segundo o líder republicano, a anexação da Groenlândia pelos Estados Unidos é uma questão de segurança nacional, com o objetivo de conter o avanço da Rússia e da China na região.
"Talvez eu imponha tarifas a alguns países se eles não cooperarem em relação à Groenlândia", declarou o presidente americano durante uma mesa‑redonda na Casa Branca na sexta-feira (16).
No mesmo dia, um dos conselheiros de Donald Trump, Stephen Miller, também defendeu as ambições territoriais americanas durante uma entrevista ao canal Fox News. "A Dinamarca, sem faltar com respeito, é um país pequeno, com uma economia pequena e um exército pequeno. Ela não pode defender a Groenlândia", disse.
Populações sob pressão
As declarações do presidente americano e de outros membros de seu governo deixam as populações da Groenlândia e da Dinamarca sob pressão. "Quando as tensões aumentam e as pessoas estão em estado de alerta, corremos o risco de criar mais problemas do que soluções para nós mesmos e para os outros", afirma a presidente do movimento Uagut, Julie Rademacher.
"Exigimos o respeito ao direito de nosso país à autodeterminação e ao nosso povo. Exigimos o respeito ao direito internacional e aos princípios jurídicos internacionais. Esta não é apenas a nossa luta, é uma luta que diz respeito ao mundo inteiro", afirmou Avijâja Rosing‑Olsen, organizadora das manifestações deste sábado.
De acordo com uma pesquisa publicada em janeiro de 2025 pelo instituto de pesquisas groenlandês HS Analyse, 85% da população do território é contrária à sua anexação pelos Estados Unidos. Apenas 6% seriam favoráveis, aponta o balanço.
França, Reino Unido e Alemanha, além da Holanda, Suécia, Noruega e Finlândia, anunciaram durante a semana o envio de militares para uma missão de reconhecimento dentro do exercício dinamarquês "Arctic Endurance", organizado com aliados da Otan. Paralelamente, os Estados Unidos foram convidados a participar de manobras militares na Groenlândia, segundo o chefe do Comando Ártico dinamarquês, Søren Andersen, que ressaltou que essas atividades também têm participação da Rússia.
Com informações da AFP