França e Reino Unido articulam missão multinacional pacífica para proteger navegação em Ormuz

A França vai organizar uma conferência conjunta com o Reino Unido e com países "dispostos a contribuir" para "uma missão multinacional pacífica com o objetivo de restaurar a liberdade de navegação" no Estreito de Ormuz, anunciou o presidente Emmanuel Macron nesta segunda-feira (13). O bloqueio americano do canal aumenta a possibilidade de um confronto direto entre os Estados Unidos e o Irã, segundo especialista.

13 abr 2026 - 12h09

"Esta missão estritamente defensiva, separada dos países envolvidos na guerra, será implantada assim que a situação permitir", acrescentou o presidente francês no X, indicando implicitamente que a missão não se destina a ser diretamente integrada aos esforços dos Estados Unidos no estreito.

Um navio no Estreito de Ormuz, ao largo da costa da província de Al-Musandam, em Omã, em 12 de abril de 2026.
Um navio no Estreito de Ormuz, ao largo da costa da província de Al-Musandam, em Omã, em 12 de abril de 2026.
Foto: REUTERS - Stringer / RFI

Emmanuel Macron, que conversou com o primeiro-ministro britânico Keir Starmer no domingo, não comentou a decisão americana de impor um bloqueio naval nesta via navegável do Golfo, anunciada por Donald Trump após o fracasso das negociações entre os Estados Unidos e o Irã e com entrada em vigor nesta segunda-feira. Em sua mensagem na rede social, o presidente francês pediu que "nenhum esforço" seja poupado para "alcançar rapidamente uma solução sólida e duradoura para o conflito no Oriente Médio por meio da diplomacia", "uma solução que proporcione à região uma estrutura robusta que permita a todos viver em paz e segurança".

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"Para alcançar esse objetivo, todas as questões substantivas devem ser abordadas com soluções duradouras, tanto em relação às atividades nucleares e de mísseis balísticos do Irã quanto às suas ações desestabilizadoras na região, mas também para permitir a retomada, o mais rápido possível, da navegação livre e desimpedida no Estreito de Ormuz e garantir que o Líbano retorne ao caminho da paz, respeitando plenamente sua soberania e integridade territorial", insistiu ele. Keir Starmer, por sua vez, afirmou na segunda-feira que não apoiava o bloqueio naval americano.

"O fechamento prolongado do Estreito de Ormuz é extremamente prejudicial. A retomada do tráfego marítimo global é essencial para aliviar as pressões sobre o custo de vida", declarou o premiê britânico no X, confirmando que uma cúpula seria realizada para desenvolver um "plano coordenado, independente e multinacional para proteger a navegação internacional após o fim do conflito".

Em 2 de abril, representantes de cerca de 40 países pediram a "reabertura imediata e incondicional" do estreito e ameaçaram o Irã com novas sanções durante uma reunião virtual presidida pela ministra das Relações Exteriores britânica, Yvette Cooper.

Confronto direto

Para Jean Christophe Charles, ex-oficial da Marinha francesa e pesquisador associado da Fundação Mediterrânea para Estudos Estratégicos, o risco de um confronto direto entre os Estados Unidos e o Irã no estreito de Ormuz existe.

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"Houve um vídeo dos dois destróieres (americanos) passando pelo estreito de Ormuz, mostrando embarcações (iranianas) passando em alta velocidade pelos navios americanos. Isso ocorreu durante o período de cessar-fogo, então obviamente não houve confronto direto", disse o especialista à RFI. O Exército dos EUA afirma ter posicionado dois destróieres no estreito de Ormuz. 

"Existe sim o risco de um confronto direto. Agora, acho que qualquer iraniano que queira correr esse risco estará cometendo um ato suicida. As capacidades militares americanas são tão poderosas que isso não duraria muito tempo", afirmou.

A ideia é usar essas capacidades para permitir a passagem de navios, sabendo que o Irã já permite a passagem de cargueiros chineses. "O bloqueio é um ato de guerra. Portanto, dessa perspectiva, não podemos dizer que houve uma escalada; é apenas mais uma tática", disse.

"Em última análise, é uma ameaça, mas Trump sempre opera dessa maneira: ele usa ameaças, levanta questões, atrasa os navios. O que ele quer é atrasar os iranianos, não deixá-los operar livremente", analisa Charles. "Então, se ele conseguir atrasar um certo número de navios, particularmente os navios iranianos, que, neste caso, podem ser neutralizados com relativa facilidade, se ele quiser neutralizar esses navios e deixar os outros passarem, então, no geral, ele terá vencido. Porque o importante é permitir o tráfego que não seja controlado pelo Irã. Isso é o mais importante, eu acho, nesta situação".

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ONU se manifesta

O chefe da agência marítima da ONU declarou nesta segunda-feira que nenhum país tem o direito legal de bloquear a navegação no Estreito de Ormuz. "De acordo com o direito internacional, nenhum país tem o direito de proibir o direito de passagem pacífico ou a liberdade de navegação em estreitos usados para trânsito internacional", disse o Secretário-Geral da Organização Marítima Internacional (OMI), Arsenio Dominguez, em uma coletiva de imprensa. 

O tráfego por essa via navegável estratégica, que normalmente transporta quase 20% da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito, foi reduzido em aproximadamente 90% desde o início da guerra, de acordo com a empresa de dados marítimos Lloyd's List Intelligence. 

RFI e AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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