A reabertura ocorre após uma intervenção de aproximadamente € 5 milhões voltada à conservação do acervo ósseo e à modernização da experiência de visitação. O objetivo principal, segundo a administração do espaço, foi reduzir impactos ambientais causados pelo grande fluxo de público, especialmente o aumento de dióxido de carbono no interior dos túneis, que poderia afetar a preservação dos ossos. Também foram implementadas medidas de controle de umidade, iluminação renovada e ajustes estruturais para garantir maior estabilidade do ambiente subterrâneo.
No percurso, os visitantes caminham por corredores estreitos e irregulares, onde paredes formadas por ossos humanos empilhados chegam a alcançar metros de altura. Em alguns trechos, é necessário cuidado redobrado com o teto baixo e com o espaço reduzido. A experiência é guiada por novos recursos de mediação cultural, incluindo audioguias e intervenções museográficas atualizadas, que buscam contextualizar o local para além do impacto visual imediato.
A administradora das Catacumbas de Paris, Isabelle Knafou, afirmou à RFI que a proposta da reabertura é equilibrar a curiosidade dos visitantes com a dimensão histórica do espaço. Segundo ela, trata-se de um lugar que atrai pela "estranheza e pelo caráter insólito", mas cujo sentido profundo está ligado à história urbana de Paris e às condições sanitárias que levaram à transferência dos ossos para o subterrâneo.
"É um lugar de curiosidade, entre aspas, no mundo. Cabe a nós transformar essa curiosidade mais ou menos macabra em compreensão do interesse histórico do local", disse.
Os visitantes que voltam à superfície relatam impacto com a experiência. Uma turista estrangeira afirmou que a visita é "intensa" e que as escadarias são íngremes e exigentes, mas destacou o caráter educativo do percurso. Para ela, o espaço ajuda a compreender como Paris tornou-se habitável a partir da reorganização de seus cemitérios. Outra visitante descreveu a experiência como "emocionante e fascinante", ao observar a quantidade de ossos e associar o local às vidas humanas ali representadas.
Além da conservação, a nova fase do espaço inclui uma ampliação da mediação cultural. Obras e conteúdos audiovisuais passaram a integrar o percurso, reforçando a presença das Catacumbas na cultura contemporânea, onde o local já apareceu diversas vezes na literatura, no cinema e em produções de entretenimento que exploram seu caráter subterrâneo e simbólico.
A administração também indica que, no futuro, o espaço poderá receber eventos culturais controlados, como performances artísticas e concertos, dentro de limites rigorosos de preservação e segurança. A proposta reforça uma tendência observada em outros patrimônios históricos europeus: a busca por conciliar conservação, turismo e novas formas de uso cultural.
As Catacumbas de Paris: história, origem e curiosidades
As Catacumbas de Paris surgiram a partir de um problema urbano e sanitário que se agravou ao longo dos séculos XVIII e XIX: os cemitérios da capital francesa estavam superlotados. O mais conhecido deles, o Cemitério dos Inocentes, localizado no centro de Paris, tornou-se foco de insalubridade, com relatos de contaminação do solo e riscos à saúde pública. Diante da crise, autoridades da época decidiram transferir os restos mortais para antigas pedreiras subterrâneas desativadas sob a cidade.
Esse processo de transferência começou de forma sistemática em 1786 e se estendeu por décadas. Ossos de milhões de parisienses foram retirados de cemitérios urbanos e reorganizados nas galerias subterrâneas, que já haviam sido usadas para extração de pedra calcária responsável pela construção de grande parte dos edifícios históricos da cidade. O espaço acabou se transformando no maior ossuário subterrâneo do mundo.
Com o tempo, as galerias foram reorganizadas e estruturadas de forma mais ordenada, com paredes de ossos cuidadosamente empilhados e inscrições filosóficas e religiosas em alguns trechos. A abertura ao público ocorreu no início do século XIX, inicialmente restrita e posteriormente ampliada, transformando o local em uma curiosidade histórica e científica.
Ao longo dos séculos, as Catacumbas também adquiriram uma dimensão simbólica e cultural. Escritores, artistas e cineastas passaram a retratar o espaço como um ambiente de mistério, evocando temas como morte, memória e a relação entre cidade e subterrâneo. Essa representação ajudou a consolidar o local como uma das atrações mais singulares de Paris.
Outro aspecto curioso é que apenas uma pequena parte do complexo está aberta à visitação. A maior parte das galerias permanece inacessível ao público, formando um vasto labirinto subterrâneo que se estende sob grande parte da cidade. Estima-se que a rede de antigas pedreiras tenha centenas de quilômetros de extensão.
As Catacumbas também são alvo de estudos arqueológicos e históricos, já que reúnem não apenas restos humanos, mas também elementos importantes da história urbana de Paris. Além disso, há relatos de explorações clandestinas no subsolo, realizadas por grupos que se autodenominam "cataphiles", interessados em mapear e explorar áreas não autorizadas do complexo.
Hoje, o espaço é administrado como um museu subterrâneo e segue sendo um dos locais mais visitados da capital francesa, combinando memória histórica, turismo e preservação em um ambiente que permanece único no mundo.