No canal CNews, o assunto das mudanças climáticas é evocado, porém a responsabilidade humana pelo fenômeno é minimizada. "Esse discurso esconde uma retórica anticiência perigosa para o país, que não nos ajuda nos prepararmos melhor para os desafios que nos esperam", indica o editorial do diário nesta sexta-feira (29).
Libération salienta que os jornalistas de clima, inclusive apresentadores do tempo, são alvo de insultos e até ameaças de morte, principalmente nas redes sociais. Sébastien Thomas, apresentador há três anos de um dos principais canais do país, France 2, relata que passou a receber "uma tonelada" de xingamentos desde o início da onda de calor, no último fim de semana.
Christine Pena, há décadas "a voz do tempo" na rádio FranceInfo, conta que as críticas sempre existiram, mas "antes o tom era mais leve". Hoje, ela afirma que negacionistas das mudanças climáticas a abordam "na vida real, algo que antes jamais acontecia".
As críticas, explicam estes e outros profissionais entrevistados por Libération, vão desde a acusação de "dramatizar" os fenômenos climáticos extremos até o que seria "um exagero de vermelho" no mapa das temperaturas. "Para mim, isso nem é um assunto. Só faço o meu trabalho, embasada no que diz a ciência. Ponto", enfatiza Evelyne Dhéliat figura icônica do principal canal francês, TF1.
França 'não está preparada', indica pesquisa
Uma pesquisa encomendada pela emissora BFMTV ao instituto Elabe revelou que, para um um terço dos franceses (35%), o país "não está nada preparado" para enfrentar as altas temperaturas. Mais da metade dos entrevistados, 56%, considera que "seria possível melhorar" a adaptação da França para os episódios de forte calor, e apenas 8% avalia que as medidas de adaptação já adotadas são suficientes.
Nesta quinta-feira (28), um recorde de 37,8°C foi registrado no centro e sul do país, algo jamais visto em um mês de maio. O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, realizou uma reunião com diversos ministros para preparar o verão, que começa em menos de um mês no hemisfério norte.
Temas como riscos de inêndios florestais, a situação dos lençóis freáticos e a preparação de hospitais para receber pacientes afetados pelas altas temperaturas foram abordados.
A atual onda de calor é causada por um persistente "domo de ar quente" sobre a Europa Ocidental, que está aprisionando o calor vindo do norte da África. Além da França, a Itália, o Reino Unido e Portugal também sofrem com as temperaturas excepcionalmente altas para um mês de maio.
Sob a influência das mudanças climáticas causadas pela atividade humana, esses períodos de calor intenso, antes raros, estão tornando-se mais frequentes, mais severos e mais precoces ou tardios no ano. As previsões oficiais apontam para um aquecimento médio de 2,7 °C na França até 2050.
Com AFP