Afluência recorde às urnas na Hungria dá vitória à oposição com Péter Magyar encerrando a era Orbán

A Hungria nunca viu um comparecimento tão massivo nas urnas como nestas eleições legislativas: quase 80% dos 8 milhões de eleitores votaram. Nas ruas de Budapeste, milhares de pessoas acompanharam a contagem dos votos e celebraram a vitória de Péter Magyar, o líder de centro-direita do Tisza que colocou um ponto final no "reinado" de 16 anos do ultranacionalista Viktor Orbán, para alívio da União Europeia.

13 abr 2026 - 05h05
(atualizado às 09h02)

Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa

Diante de uma multidão na capital Budapeste, Péter Magyar, subiu ao palco montado ao lado do rio Danúbio com a bandeira da Hungria nas mãos e fez o seu discurso de vitória. "Nós conseguimos. Nós ganhamos porque o povo húngaro não perguntou o que o seu país poderia fazer por eles, mas o que eles poderiam fazer pelo seu país. Juntos, libertamos a Hungria e nos livramos do regime de Orbán".

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Aos 45 anos, este ex-pupilo de Viktor Orbán, teve um desempenho meteórico, quando deixou o partido Fidesz, criou o Tisza e se elegeu primeiro-ministro em apenas dois anos. "A Hungria não será mais um país sem consequências", ressaltou, enquanto a multidão cantava "Europa". "A minha vitória não é a de um partido triunfando sobre outro, mas húngaros triunfando sobre aqueles que os oprimem", continuou.

Nestas eleições legislativas, o Tisza, partido de Magyar, teve uma vitória esmagadora conquistando 138 das 199 cadeiras no parlamento húngaro, e o Fidesz de Orbán, apenas 55. Com isso, o novo primeiro-ministro da Hungria terá maioria necessária - dois terços na Assembleia Nacional - para promover mudanças constitucionais.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, felicitou Magyar e declarou que "o coração da Europa está batendo mais forte. A Hungria escolheu a Europa". Sem dúvida a queda do populista Orbán é um alívio para Bruxelas, mas ainda não é motivo para se abrir a garrafa de champagne, pois a futura relação do novo primeiro ministro Péter Magyar com a União Europeia é uma incógnita. No entanto, Magyar afirmou que pretende visitar Bruxelas em breve para tentar desbloquear os cerca de € 19 bilhões dos fundos que deveriam ter sido enviados para a Hungria mas que foram congelados por causa de Orbán. Ele também garantiu que Budapeste será mais uma vez uma forte aliada do bloco europeu e da Otan.

Boas vindas

Vários líderes saudaram a vitória de Péter Magyar que encerrou uma década e meia de autoritarismo do governo Orbán. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que "a França está feliz com esta vitória, que mostra a forte ligação do povo húngaro aos valores da União Europeia". Já o chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou estar ansioso para trabalhar com Magyar "em direção a uma Europa forte, segura e, acima de tudo, unida". O líder ucraniano, Volodymyr Zelensky deu os parabéns ao candidato vencedor "por sua vitória retumbante" e disse que "a Ucrânia está pronta para a cooperação e boas relações".

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Da Espanha, o premiê Pedro Sanchéz ressaltou a vitória da Europa e dos valores europeus e convidou Magyar a "trabalhar por um futuro melhor para todos os europeus". O premiê polonês, Donald Tusk, saudou a vitória do rival de Orbán e escreveu: "Estamos juntos de novo. Russos, voltem para casa". Do Reino Unido, o primeiro-ministro, Keir Stamer, descreveu a vitória do líder do Tisza como "um momento histórico não só para a Hungria, mas para a democracia europeia".

Derrota para Trump e Putin

A queda de Orbán é uma derrota clara para os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e dos EUA, Donald Trump. Ambos aliados de Viktor Orbán que sempre apostaram em dividir a Europa para reinar. Talvez Moscou tente agora chegar a algum acordo com Magyar já que Orbán não será mais o seu "Cavalo de Tróia" na Europa.

A saída de cena do ícone populista da ultradireita representa também um baque para os políticos nacionalistas e de extrema direita no mundo, de Marine Le Pen na França e Matteo Salvini na Itália a André Ventura em Portugal e Jair Bolsonaro no Brasil. "A responsabilidade de governar não nos foi dada. Serviremos ao país e à nação húngara na oposição. O resultado foi doloroso, mas claro", confessou Orbán ao reconhecer o seu fracasso.

Basta à corrupção

Durante anos, Bruxelas vem advertindo sobre a violação sistemática das regras democráticas na Hungria de Orbán: o controle do Judiciário e nos meios de comunicação, restrição da imprensa e da liberdade acadêmica, perseguição de adversários e ataques aos direitos das minorias, entre outros retrocessos.

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O resultado das urnas expressa com muita clareza o desejo por mudanças que a população da Hungria tanto deseja. Cada vez mais húngaros, até mesmo os apoiadores do Fidesz, o partido ultranacionalista de Orbán, estão fartos da corrupção, do custo de vida alto e inflação galopante no país. Durante os 16 anos em que Viktor Orbán esteve no poder, seus amigos e familiares se enriqueceram, tornaram-se bilionários e assumiram cargos influentes no governo.

Orbán recusa todas as acusações, mas sua cidade natal é uma prova. Felcsut - com apenas  dois mil habitantes - se tornou símbolo da corrupção na Hungria com rios de dinheiro público que recebeu. Foi lá que o premiê mandou construir o estádio de futebol Pancho Arena, que custou aos fundos públicos mais de € 12,5 milhões. A Hungria é o país mais corrupto da União Europeia, segundo a Ong Transparência Internacional. 

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