Entre os autores, estão muitos nomes de peso da literatura francesa, romancistas e ensaístas, como Virginie Despentes, Sorj Chalandon, Bernard-Henri Lévy e Frédéric Beigbeder. Em uma carta aberta publicada na noite de quarta-feira (15), os 115 escritores criticam "um ataque inaceitável à independência editorial" da Grasset, após o anúncio da saída de Olivier Nora, que liderou a editora durante 26 anos.
"Somos autores da Grasset, publicamos com a Grasset ou temos um livro a ser lançado pela Grasset, mas não publicaremos nosso próximo livro com a Grasset. E somos 115", afirmam os escritores.
"Houve momentos de tensão porque há pessoas de extrema esquerda de um lado e, do outro, pessoas de extrema direita", disse a romancista Colombe Schneck à AFP. "Mas era impossível ficar de braços cruzados. A saída de Olivier Nora foi a faísca. Vimos o que Bolloré fez na iTélé, na rádio Europe 1, no jornal JDD, na editora Fayard. Não podemos deixar que todos os selos do grupo Hachette se tornem de extrema direita", completou ela.
A Grasset tem 38 funcionários em uma sede no emblemático Quartier Latin, em Paris. "Todos estão em choque. O que está acontecendo conosco é uma bomba", comentou um funcionário, na manhã desta quinta-feira.
Quem é Vincent Bolloré
A Hachette, a maior editora francesa, é controlada por Bolloré desde 2023. O magnata, que fez fortuna principalmente na área de logística na África, consolidou-se nos últimos 20 anos como uma figura-chave da mídia francesa. A emissora de TV CNews, um dos canais que ele dirige, é regularmente acusada de permitir comentários racistas.
Outro autor, o jornalista Claude Askolovitch, descreveu Vincent Bolloré "como Átila: chega e destrói como bem entende", declarou à rádio France Inter.
Contatado pela AFP, o grupo Hachette não respondeu à divulgação da carta aberta. O escândalo ocorre na véspera da abertura do Festival do Livro de Paris, que começa na noite desta quinta-feira (16), no Grand Palais. O evento espera atrair 100.000 visitantes até domingo (19).
Autores denunciam 'guerra ideológica'
Na terça-feira, foi anunciado que Jean-Christophe Thiery, CEO do Grupo Louis Hachette e um sócio de confiança de Vincent Bolloré, assumiria a presidência da Grasset. Os signatários da carta homenageiam a independência de Olivier Nora, que ainda não explicou os motivos de sua saída.
Na Grasset, há personalidades que "discordam profundamente", e Olivier Nora "era a ponte e o cimento que as mantinha unidas, com sua elegância moral, sua disponibilidade e seu comprometimento", afirma a carta. "Hoje, temos uma coisa em comum: nos recusamos a ser reféns de uma guerra ideológica que visa impor o autoritarismo em todos os lugares da cultura e da mídia", declararam os signatários.
Figuras políticas, especialmente da esquerda, também denunciaram "expurgos" no setor editorial e a "ofensiva da ideologia reacionária e do dinheiro" liderada por Bolloré, segundo o ex-primeiro-ministro socialista Bernard Cazeneuve.
Os autores estão agora considerando entrar com ações judiciais para reaver os direitos dos livros que publicaram com a Grasset, uma medida também desejada por dezenas de escritores, principalmente historiadores, que publicaram com a Fayard (também pertencente à Hachette), editora que publica livros de diversas figuras políticas de extrema direita, como Jordan Bardella, líder do partido Reunião Nacional.
Com AFP