De Cuiabá aos festivais internacionais: o cineasta Bruno Bini revela o Brasil além do eixo Rio-São Paulo

Fora do eixo tradicional Rio-São Paulo, o cinema brasileiro contemporâneo vem encontrando novas vozes, territórios e narrativas. Um dos nomes que simbolizam esse movimento é o cineasta Bruno Bini, diretor, roteirista e produtor nascido em Cuiabá, com mais de 20 anos de trajetória no audiovisual. Seu mais recente longa-metragem, "Cinco Tipos de Medo", vem consolidando essa projeção ao conquistar o Festival de Cinema de Gramado, onde recebeu os principais prêmios da edição de 2025, e ao circular por importantes festivais internacionais, incluindo o 28º Festival do Cinema Brasileiro de Paris.

16 abr 2026 - 11h35

Maria Paula Carvalho, da RFI

O cineasta Bruno Bini. Em Paris, em 14 de abril de 2026.
O cineasta Bruno Bini. Em Paris, em 14 de abril de 2026.
Foto: © RFI / RFI

Lançado comercialmente no Brasil após a consagração em Gramado, o filme marca um momento decisivo na carreira de Bini e também no reconhecimento do cinema produzido no Centro-Oeste. "Cinco Tipos de Medo" foi o primeiro longa-metragem de ficção de Mato Grosso selecionado para a competição oficial do festival gaúcho, feito que, para o diretor, já representava uma vitória antes mesmo da premiação.

Publicidade

"A gente já estava muito feliz de estar lá e de fazer parte desse festival, que é uma das maiores vitrines do cinema brasileiro", afirma Bini. A sessão, segundo ele, foi marcada por uma reação rara do público: aplausos de pé por vários minutos. "Depois, com a premiação, a gente se sentiu muito honrado por finalmente estar consolidando a qualidade do cinema feito em Mato Grosso", comemora.

Bruno Bini construiu sua carreira fora dos grandes polos de produção audiovisual. Longe de representar um obstáculo, essa origem se converteu em matéria-prima criativa. Desde seus primeiros filmes, o diretor percebeu o interesse do público por narrativas ambientadas em contextos pouco explorados pelo cinema brasileiro.

"Havia um interesse grande em histórias que se passavam em contextos pouco conhecidos do grande público", explica. Para ele, contar histórias enraizadas no universo cuiabano e mato-grossense sempre foi um gesto natural. "Eu sou tão inserido nesse contexto que era o único jeito de contar essas histórias", afirma. O diretor se diz surpreso de ver que a trama passada na periferia de Cuiabá, no bairro Jardim Novo Colorado, tem dialogado com espectadores de culturas e países distintos.

Um quebra-cabeça narrativo

A estrutura do filme é um dos aspectos que mais chamam atenção da crítica e do público. A narrativa se constrói a partir de cinco personagens, cujas histórias se entrelaçam de maneira fragmentada, exigindo atenção ativa do espectador. Para Bini, esse formato não é apenas uma escolha formal, mas parte essencial da proposta do filme.

Publicidade

"Eu considero uma forma inteligente de engajar o público", diz. "O filme carrega essa característica de quebra-cabeça, em que pouco a pouco as informações vão sendo apresentadas." Segundo o diretor, esse tipo de construção faz com que o espectador deixe de ser passivo. "Ele se sente parte da construção do filme."

A fragmentação também dialoga com o perfil dos personagens, marcados dramas, contradições e intenções nem sempre explícitas. O longa acompanha cinco pessoas que têm suas vidas entrelaçadas: Murilo, jovem músico em luto; Marlene, enfermeira presa a um relacionamento abusivo; Luciana, policial movida pela vingança; e Ivan, advogado de intenções ambíguas. "São personagens que escondem uma coisa ou outra. Achei que essa não explicitação combinava com a estrutura narrativa", explica.

O filme levou quatro Kikitos: Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Montagem, todos para Bini, além de Melhor Ator Coadjuvante para o rapper e ator Xamã, que atua ao lado de Bella Campos.

Com personagens tomados por culpa, ambivalência e escolhas difíceis, "Cinco Tipos de Medo" não evita a violência nem a tensão. Ainda assim, o diretor rejeita a ideia de um cinema puramente sombrio ou desesperançoso. Para ele, a dureza é inseparável da realidade brasileira, mas não elimina a possibilidade de afeto e redenção.

"O Brasil é um país de desigualdades, onde a população enfrenta enormes dificuldades, então a dureza vem", afirma. "Mas vem também a leveza, vem a esperança." No filme, os personagens enfrentam perdas profundas, mas encontram no outro a possibilidade de reconstrução. "Isso conversa muito com as características do nosso país."

Do periferia de Cuiabá para o mundo

Após Gramado, "Cinco Tipos de Medo" iniciou uma trajetória internacional que já passou por Havana, Barcelona, Manchester e Paris, com exibição prevista em Chicago ainda este mês. Para Bruno Bini, mais do que reconhecimento artístico, essa circulação abre caminhos concretos para a comercialização do filme e para novas parcerias.

Publicidade

"Está sendo uma experiência incrível perceber como uma história da periferia de Cuiabá encontra ressonância no coração de pessoas com origens tão diversas", reflete. "A gente percebe que tem muito mais pontos em comum do que diferenças", acrescenta.

Na França, parte da crítica classificou o filme como um exemplo de cinema de ação latino-americano, associado ao thriller social - definição que o cineasta acolhe sem reservas. "É assumidamente um filme de ação, um filme de gênero. E aceito a definição de thriller social porque ele insiste em lidar com temas socialmente relevantes", pontua.

Um novo momento do cinema brasileiro

O sucesso de "Cinco Tipos de Medo" se insere em um contexto mais amplo de visibilidade internacional do cinema brasileiro, com produções recentes ganhando destaque em festivais como Cannes e no Oscar. Para Bini, esse movimento é resultado de mudanças estruturais no setor.

"Hoje existe um ajuste de olhar do poder público federal em relação à distribuição e à democratização do acesso aos recursos", afirma. Segundo ele, essas políticas têm impacto direto nas regiões fora do eixo Rio-São Paulo. "O Brasil está se redescobrindo através das telas de cinema", continua.

Publicidade

O resultado é um panorama mais diverso, com histórias vindas do Amazonas, do Centro-Oeste, do Nordeste e do Sul ganhando espaço ao lado das produções dos grandes polos tradicionais. "O cinema brasileiro está voando, indo cada vez mais longe, e isso puxa toda uma cadeia produtiva junto", avalia.

Próximos projetos

Em meio ao reconhecimento internacional, Bruno Bini já se prepara para os próximos passos. Entre eles, está o longa de ficção científica "Três Tempos", atualmente em fase de captação de recursos, com filmagens previstas para o próximo ano. O cineasta também atua como produtor em um novo filme do diretor Fábio Baldo e desenvolve o projeto "Antes que a Música Pare", um drama investigativo.

Com uma filmografia firmemente ancorada em seu território de origem, Bruno Bini segue ampliando o alcance do cinema brasileiro - mostrando que, longe dos centros tradicionais, também se produzem histórias capazes de atravessar fronteiras.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações