Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas
A guerra envolvendo o Irã provocou nas últimas horas uma forte pressão política sobre a Europa. Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exige maior apoio dos aliados ocidentais para garantir a segurança no transporte de petróleo no Estreito de Ormuz, cresce entre os europeus o temor de uma escalada militar e de impactos diretos na economia global.
Em Bruxelas, ministros das Relações Exteriores dos 27 países da União Europeia se reuniram para discutir o tema. Apesar da pressão norte-americana, a maioria dos governos europeus tenta evitar qualquer envolvimento direto no conflito, justamente para não ampliar a crise.
Nos bastidores diplomáticos, a percepção é de que uma intervenção mais ativa poderia dragar a Europa para o conflito e alimentar ainda mais a escalada militar no Oriente Médio.
A liderança europeia também mantém uma posição dura em relação a Teerã. O bloco considera a Guarda Revolucionária Iraniana uma organização terrorista e defende uma mudança de regime no país. Ainda assim, há preocupação com os efeitos econômicos de uma guerra prolongada, especialmente por causa do risco de interrupção no transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do planeta.
Operação naval não será ampliada
Uma das principais discussões da reunião ocorrida na quinta-feira (16) em Bruxelas foi a possibilidade de ampliar a operação naval europeia na região. A missão, chamada Operação Aspides, foi criada em 2024 para proteger embarcações comerciais no Mar Vermelho após ataques realizados pelos Houthis, do Iêmen.
Com sede na Grécia e atualmente equipada com três navios, a operação tem mandato focado na proteção da navegação comercial nessa região. A ideia discutida entre os países europeus era ampliar o escopo para proteger diretamente o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz.
A proposta, porém, não reuniu apoio suficiente entre os Estados-membros. Segundo a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, faltou "apetite político" entre os governos para expandir a operação.
Diversos países, incluindo Alemanha, Espanha e Itália, já afirmaram que não têm planos imediatos para enviar novas embarcações à região. O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, ressaltou que o mandato da missão Aspides está "claramente definido" para o Mar Vermelho e não inclui o Golfo Pérsico.
Sanções e cooperação militar
Entre as poucas medidas concretas anunciadas pela União Europeia está a adoção de novas sanções contra o Irã. O Conselho Europeu decidiu punir 16 cidadãos e três entidades iranianas acusados de violações de direitos humanos, incluindo a repressão a protestos ocorridos no início do ano.
Outra iniciativa anunciada por Kaja Kallas envolve uma parceria com a Ucrânia. Segundo a diplomata, os mesmos drones usados por forças russas contra cidades ucranianas também têm sido empregados em ataques no Golfo.
O Irã é considerado um dos principais fornecedores de drones para a Rússia na guerra contra a Ucrânia. A ideia da União Europeia é aproveitar o conhecimento militar desenvolvido por Kiev na defesa contra esses equipamentos para ajudar países do Golfo a enfrentar a ameaça.
A chefe da diplomacia europeia também discutiu com o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, a possibilidade de tentar negociar um acordo semelhante ao firmado no Mar Negro durante a guerra na Ucrânia, que permitiu o escoamento de grãos ucranianos apesar do conflito.
Mas a própria Kallas reconhece que a situação é mais complexa. Segundo ela, o Irã está "em guerra com a economia global", o que torna uma negociação desse tipo extremamente difícil.
Nova tensão entre Trump e a Otan
A crise também reacendeu tensões dentro da Otan, que tem sua sede em Bruxelas. O presidente Donald Trump voltou a pressionar os aliados europeus para que contribuam com a proteção da navegação no Estreito de Ormuz.
Trump chegou a afirmar que a aliança militar poderia enfrentar "um futuro muito ruim" caso os parceiros não ajudem a reabrir a rota marítima.
O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, declarou apoio aos Estados Unidos e alertou que o Irã pode se tornar uma ameaça também para a Europa. Ao mesmo tempo, ressaltou que ninguém discute neste momento a aplicação do Artigo 5º da aliança, que prevê defesa coletiva em caso de ataque a um país-membro.
Apesar da resistência de vários aliados, Trump afirmou ter conversado por telefone com o presidente francês, Emmanuel Macron, e disse acreditar que a França poderá enviar ajuda para garantir a segurança na região.
Entretanto, o almirante Thibault Possesse, comandante do grupo aéreonaval francês que opera atualmente no Mediterrâneo Oriental, declarou nesta terça-feira (17) à RFI não estar em contato com os americanos.
"Hoje, não tenho qualquer contato com o porta-aviões americano Lincoln nem com o porta-aviões Ford. Nossas operações são completamente separadas, independentes e, no momento, sem nenhuma interação", disse o almirante. "Não temos os mesmos objetivos, os mesmos métodos e nem a mesma área de operação", acrescentou o comandante francês.