A quadrinista e ilustradora franco-brasileira Clara Chotil vem se afirmando como uma das vozes singulares de uma nova geração de artistas que exploram, por meio da narrativa gráfica, as intersecções entre memória, história e política. Arquiteta de formação, artista plástica e pesquisadora, ela acaba de lançar na França Tekoha, uma história em quadrinhos inteiramente pintada em acrílico que mergulha na relação entre povos indígenas e território no Mato Grosso do Sul.
Ao falar sobre o ambiente em que começou a produzir, Chotil observa que o cenário mudou nos últimos anos para as mulheres que trabalham com quadrinhos. "A minha geração de criadoras e criadores de quadrinhos é uma geração em que muitas mulheres já estão presentes. Eu cheguei inspirada por mulheres autoras e já rodeada de mulheres criadoras".
Essa presença feminina se manifesta com clareza sobretudo nas escolas e nos espaços de formação artística, afirma a autora. "Nas escolas de ilustração e nos cursos mais dedicados aos quadrinhos, a maioria já é de mulheres", diz. Ainda assim, a transformação do campo não ocorre de maneira uniforme. Segundo ela, persistem desequilíbrios nas instâncias de decisão do setor editorial. "Onde ainda há maioria de homens é entre os editores, nos espaços de premiação e de poder, e nos espaços de decisão, onde a chegada das mulheres leva mais tempo."
Filha de mãe brasileira, Clara Chotil cresceu na França, uma condição que marca profundamente o ponto de vista a partir do qual constrói sua obra. "O meu olhar é um olhar bastante europeu. Eu sou brasileira por parte de mãe, mas cresci na França, fui criada aqui, nasci aqui", explica. No início do processo criativo, ela chegou a considerar que essa dimensão biográfica poderia permanecer implícita na narrativa. "No início eu não queria deixar tão explícito o fato de eu ser francesa, porque me parecia uma complexidade que não era necessária numa história já complexa".
Com o avanço da pesquisa, no entanto, a artista percebeu que sua posição também fazia parte da história que estava tentando contar. "Aos poucos eu me dei conta de que era importante dizer de onde eu estava olhando, porque isso também era uma consequência do meu interesse", afirma. Reconhecer essa perspectiva externa tornou-se, para ela, uma forma de dar transparência ao próprio processo narrativo. "Fazia parte da história o fato de eu estar olhando de fora".
A formação em arquitetura, por sua vez, influencia diretamente a maneira como ela organiza o espaço em suas páginas. Em seus quadrinhos, a paisagem frequentemente ocupa um papel central. "Eu acho que o meu olhar é muito o olhar de uma arquiteta", diz. Essa característica se repete em diferentes trabalhos da autora. "Seja nesse quadrinho ou no anterior, eu sempre desenho mais espaços do que personagens".
Em Tekoha, essa escolha ganha uma dimensão particular, já que o próprio título remete a um lugar e a um modo de habitar. "No caso desse quadrinho, o título é justamente o título de um espaço", explica. O leitor é conduzido por imagens que privilegiam panoramas amplos antes de se aproximar dos protagonistas da narrativa. "A maioria das imagens são com a 'câmera' mais distante, e aos poucos a gente vai chegando perto dos personagens que vão nos contando essa história".
O impulso inicial para o projeto nasceu de uma inquietação pessoal diante da situação política brasileira no início da década. Clara Chotil começou a trabalhar no livro durante o mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro. "Eu comecei esse quadrinho por volta de 2021 ou 2022 e estava me questionando sobre a minha relação com o Brasil e tentando entender aquele momento", conta. Diante de uma questão tão ampla, ela decidiu começar pela própria história familiar. "Eu decidi me interessar por isso através da minha própria história e da minha relação com o Brasil a partir da minha mãe".
As memórias da infância materna no Mato Grosso do Sul tornaram-se, então, um ponto de partida para a investigação. "A minha mãe sempre me contou histórias da sua infância no Mato Grosso do Sul, histórias muito coloridas, de floresta, de heróis", lembra. Nessas narrativas, os avós apareciam como pioneiros que haviam chegado à região vindos do Nordeste. "Os pais dela chegaram a territórios onde não havia nada e construíram suas casas, lugares que aos poucos viraram cidades".
Ao visitar o estado, porém, a artista encontrou uma paisagem bastante diferente daquela contada nas histórias familiares. "Quando eu ia para o Mato Grosso do Sul eu não via essas paisagens. Eu via campos de soja", relata. A discrepância entre memória e realidade despertou novas perguntas. "Havia uma dissonância entre o que eu via no cotidiano e essas histórias".
Foi nesse momento que Clara Chotil começou a revisitar o passado da região de forma mais crítica. "Eu conhecia esse território como CANDI, Colônia Agrícola Nacional de Dourados", explica. O próprio nome do lugar passou a suscitar questionamentos. "Eu me dei conta de que ali havia a palavra 'colônia', que era uma história de colonização".
Essa descoberta revelou também um silêncio nas narrativas familiares. "Eu comecei a me perguntar por que nunca ouvimos falar das populações indígenas", diz. A ausência dessas presenças parecia contradizer o imaginário de floresta que permeava as lembranças transmitidas de geração em geração. "No meu imaginário de floresta havia populações, mas nas histórias que chegavam até mim essas pessoas não apareciam, não eram mencionadas".
Para compreender essa lacuna, a autora decidiu empreender uma série de viagens ao Brasil. "O quadrinho permite esse luxo de ter um tempo longo de reflexão sobre uma temática", observa. Durante essas estadias, ela retornou ao Mato Grosso do Sul, reencontrou parentes e ampliou o campo de sua pesquisa. "Eu fui conhecer pessoas da minha família e também populações indígenas Guarani-Kaiowá".
O contato com estudantes e pesquisadores da Universidade de Dourados revelou outra dimensão da história da região. "Alguns deles estavam pesquisando a própria história de suas famílias e como foi vivida a chegada dos colonos do ponto de vista deles", explica. A partir desses encontros, a artista decidiu colocar em diálogo narrativas que raramente se cruzavam. "Foi a partir dessas outras histórias que eu decidi cruzar essas duas narrativas".
Em muitos casos, essas histórias coexistiram lado a lado sem estabelecer contato direto. "Às vezes elas tiveram confrontos muito violentos ou simplesmente se desconheciam", afirma. A própria experiência familiar ilustra essa distância histórica. "A minha mãe não teve contato com as populações que estavam lá antes da chegada deles".
A escolha da técnica pictórica para o livro está diretamente ligada à tentativa de transmitir a dimensão sensível dessas paisagens e dessas memórias. Em vez de recorrer às técnicas tradicionais do quadrinho, Clara Chotil optou por pintar todas as páginas em acrílico. "Eu tinha esse desejo de pintar, porque gosto muito desse meio da pintura", explica.
O uso do acrílico permitiu trabalhar em formatos maiores do que os normalmente associados à narrativa gráfica. "Eu comecei a pintar com acrílico porque trabalhava em grandes formatos", conta. Embora pouco comum nos quadrinhos, esse procedimento abriu novas possibilidades de composição. "Não é uma técnica tão apropriada para pequenos formatos de quadrinhos, mas ela me permitia ter grandes telas".
Em seu processo criativo, as páginas frequentemente são concebidas em conjunto, como um único campo visual. "Eu trabalho em geral com duas páginas ao mesmo tempo", afirma. Essa abordagem reforça o papel central da paisagem na narrativa.
Durante a pesquisa, a artista percebeu que, apesar das diferenças entre as histórias que ouviu, havia um elemento compartilhado por muitos dos relatos. "Todo mundo fala daquele lugar com muito carinho, com muito amor", diz. A pintura tornou-se, então, um meio de transmitir essa dimensão afetiva ao leitor. "Eu queria que essa emoção chegasse ao leitor também".
Cores e tensões
As cores desempenham um papel fundamental nesse processo. "Eu queria que o leitor pudesse sentir esse apego ao território através das cores", explica. As paisagens pintadas em acrílico procuram, assim, traduzir tanto a beleza evocada nas memórias quanto as tensões que atravessam a história da região.
O próprio título da obra sintetiza essa reflexão. No universo guarani, a palavra "tekoha" possui um significado que ultrapassa a noção ocidental de território. "Tekoha é um termo guarani que pode ser traduzido como território ou espaço, mas ele define algo mais amplo do que o território como é entendido na civilização ocidental", explica a autora.
Para os povos guarani, o conceito inclui não apenas o espaço físico, mas também a forma de habitá-lo e de se relacionar com ele. "Ele é o território, mas também o jeito de morar nesse território", afirma. O termo envolve igualmente as pessoas e suas relações com as gerações passadas. "Ele é a pessoa que mora nesse território, mas também seus ancestrais e a maneira de se relacionar com a terra".
Essa concepção, acredita Clara Chotil, pode oferecer pistas para repensar a relação contemporânea com o ambiente. "É também uma proposta de outras possibilidades de viver na terra", diz. Em um contexto marcado por crises ecológicas, ela vê nessa perspectiva um convite à reflexão. "A gente está vendo que hoje a nossa maneira de ver a terra como um recurso está nos levando a um impasse".
Para a artista, escutar essas outras formas de pensar o território é também uma maneira de ampliar o horizonte de possibilidades. "A ideia também é escutar essas outras possibilidades de considerar o mundo", afirma. Enquanto Tekoha já chegou às livrarias francesas, a autora confirma que o livro também deverá alcançar o público brasileiro. "O livro vai sair em português, ainda não sei quando, mas está em processo de tradução".