Estudantes estrangeiros enfrentam crise de moradia em Paris

Encontrar um apartamento em Paris virou uma corrida de obstáculos para estudantes estrangeiros, que enfrentam exigência de fiadores franceses, aluguéis em alta e uma oferta de imóveis cada vez mais reduzida.

12 set 2026 - 08h24
Resumo
Estudantes estrangeiros em Paris enfrentam uma severa crise imobiliária marcada pela escassez de ofertas, alta demanda e custos elevados. A busca por moradia envolve entraves burocráticos rígidos, como a exigência de fiadores locais, levando muitos a recorrerem a seguros pagos ou garantias estatais. O cenário se agrava com o avanço de golpes virtuais e o recente fim do auxílio-moradia para alunos sem bolsa francesa, forçando universitários a custear sozinhos acomodações minúsculas e periféricas.

Vitória Barreto para RFI Brasil  

Prédios residenciais em Paris.15/07/2026 (Imagem ilustrativa).
Prédios residenciais em Paris.15/07/2026 (Imagem ilustrativa).
Foto: AFP - MARTIN LELIEVRE / RFI

Entre golpes on-line, seguros pagos para servir de garantia e o fim do auxílio-moradia para quem não tem bolsa do governo francês, universitários relatam a saga de enfrentar a burocracia para conseguir um teto na capital francesa. A RFI ouviu três estudantes estrangeiros que encontraram formas diferentes de vencer essa maratona. 

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Procurar um apartamento em Paris é um drama para muitos estudantes. Depois de provas e longos processos de aplicação para as universidades do país, o mais temido dos desafios é encontrar um teto. 

A demanda por um pequeno estúdio charmoso na capital francesa já aumentou 4,3% em um ano. Segundo um estudo de 110 mil ofertas e demandas de moradias pelo serviço de aluguel LocService, registradas no último ano, um terço dos estudantes na França procura um imóvel na região parisiense. 

Já é uma guerra conseguir um apartamento como francês, mas para estudantes estrangeiros pode ser uma odisseia longa e cara encontrar onde morar.  

Exigências

Proprietários exigem uma série de documentos, como comprovantes de renda e, muitas vezes, um fiador francês, e, em alguns casos, aceitam os pais estrangeiros.  

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Amanda é um exemplo dessa longa trajetória para encontrar um lar fixo. A estudante brasileira se mudou para Paris para fazer um mestrado e, em dois anos e meio, trocou de apartamento quatro vezes, quase sempre em sublocações, incluindo um ano num apartamento em que a proprietária se recusou a fornecer documentos formais, o que complicou a renovação do visto da aluna.  

Agora, sem um emprego fixo, ela finalmente fechou um contrato de aluguel de longo prazo: um estúdio de 18 m² no centro da cidade, por 700 euros (cerca de 4 mil reais). Para isso, comprovou renda de trabalhos temporários e pediu ao pai que assinasse como fiador. 

"Como estudante, eu sempre fui mostrar que eu era bolsista, que eu recebia um salário. Só que, nesse caso, o que me fez conseguir foi eu ter tido uma conversa franca com meu pai, que não me sustenta há muitos anos. [...] vou precisar da sua assinatura para um termo dizendo que você se responsabiliza financeiramente por mim", explicou Amanda.  

Existem alternativas ao fiador tradicional. O Visale, por exemplo, é uma garantia gratuita oferecida pelo governo francês: se o estudante não conseguir pagar o aluguel, o programa cobre a dívida junto ao proprietário e depois cobra o valor do locatário. Já o GarantMe funciona de forma semelhante, mas é um serviço privado e pago, que pode sair bem caro.  

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Nos dois casos, o estudante ainda precisa comprovar sua capacidade financeira, geralmente apresentando informações sobre a renda dos pais e o apoio financeiro que recebe deles. Isso ajuda a demonstrar ao proprietário que haverá recursos suficientes para cobrir o aluguel todos os meses, reduzindo o risco de inadimplência. 

Corrida contra o tempo entre o Visale e o GarantMe 

O estudante suíço Dominik viveu esse dilema na prática; sabe bem o custo da crise imobiliária e quão importantes são esses documentos para muitos proprietários. Enquanto esperava pelo Visale, o fiador gratuito do governo, que pode demorar para avaliar o dossiê do locatário, ele acabou pagando pelo GarantMe para não perder o apartamento que estava fechando contrato.  

"Mandei mensagem para mais de 80 pessoas. A maioria nem respondeu. Recebi talvez umas dez respostas e consegui visitar apenas três apartamentos," afirmou Dominik.  

Os 200 anúncios mais populares em Paris recebem, em média, mais de 700 mensagens por imóvel em poucos dias, segundo o site francês de aluguel direto com o proprietário, Particulier à Particulier.  

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Então, para ir contra essa estatística e conseguir um estúdio de 12 m², por 800 euros (cerca de 5 mil reais), o mestrando pagou pelo seguro do GarantMe por 500 euros (cerca de 3 mil reais).  

E a hospedagem no Airbnb, durante o mês de procura, custou 1.200 euros, equivalente a mais de 7 mil reais.  

Mas Dominik explica que valeu a pena passar pela burocracia e conseguiu o apartamento que desejava.  

"Morar em Paris e ter o seu próprio apartamento acaba sendo uma conquista. Acaba sendo uma experiência que aproxima as pessoas na cidade." 

Do golpe online ao fim do auxílio-moradia  

Como muitos estudantes, Lyubov, cazaque, que fez a graduação no norte da França, começou a procurar moradia para o mestrado em Paris ainda à distância. Durante a busca, quase caiu no golpe de um anúncio falso. 

"Eu cheguei a enviar meus documentos para o que parecia ser um anúncio de aluguel. Só depois percebi que era um golpe. Felizmente, não perdi dinheiro, mas fiquei muito preocupada, porque eram dados pessoais. Minha identidade, informações sobre mim e meus pais." 

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Em 2026, esse tipo de fraude registrou um aumento entre 20% e 30%, segundo o portal oficial do governo francês dedicado à prevenção e ao combate a crimes cibernéticos. 

Hoje, Lyubov paga 650 euros, quase 4 mil reais, por um quarto de 8 m² dentro de uma residência num subúrbio de Paris. 

Desde uma lei aprovada em maio, alunos estrangeiros sem bolsa do governo francês perderam o acesso ao auxílio-moradia. 

"Como estudante de um país fora da União Europeia, os aluguéis já pesam no orçamento. E, quando vi que ia mudar para uma cidade maior, descobri que perdi também a ajuda do Estado. Não tinha muito o que fazer, porque a lei já foi aprovada e já está em vigor. Mas fiquei decepcionada, porque contava com essa ajuda. Vou ter que conciliar os estudos com um trabalho de meio período. Acho que vai ser difícil, principalmente porque acabei de começar o mestrado." 

O fim de incentivos fiscais para investidores e a dificuldade crescente dos franceses para comprar a casa própria ajudaram a reduzir a oferta de imóveis para aluguel em Paris. 

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O número de imóveis disponíveis para aluguel caiu 37% nos últimos sete anos na capital francesa, segundo dados da plataforma Bien'ici, publicados no jornal francês France-inf 

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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