Crise política na Espanha: Marrocos nega envolvimento na entrada em massa de migrantes em Ceuta

O Marrocos afirmou, na quinta-feira (10), que não há qualquer "fato" que comprove o envolvimento de suas autoridades na entrada massiva de migrantes no enclave espanhol de Ceuta, no fim de julho, e declarou que se recusa a servir de "bode expiatório" para "acertos de contas" na Espanha. O governo de Pedro Sánchez enfrenta uma crise política depois que documentos revelaram que o Executivo havia recebido alertas prévios dos serviços de inteligência.

10 set 2026 - 15h49
Resumo
O Marrocos negou envolvimento na entrada de mais de 70 mil migrantes no enclave espanhol de Ceuta, rejeitando acusações de omissão policial. O episódio gerou uma grave crise política na Espanha após o vazamento de relatórios de inteligência que já alertavam o governo dias antes sobre as invasões em massa. Embora a oposição acuse a gestão de Pedro Sánchez de inação para evitar atritos diplomáticos com Rabat, o premiê espanhol sustenta que não havia provas da real dimensão da crise.

Esta é a primeira reação oficial de Rabat desde os acontecimentos em Ceuta. "Nenhum dado, fato ou relatório comprova qualquer envolvimento das autoridades marroquinas", declarou o Ministério das Relações Exteriores do Marrocos em comunicado divulgado pela agência oficial MAP.

"O Reino do Marrocos recusa-se a servir de instrumento de campanha eleitoral e tampouco aceita ser o bode expiatório de acertos de contas políticos", acrescentou.

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Mais de 70 mil migrantes entraram à força, a pé ou a nado, em Ceuta nos dias 30 e 31 de julho. O território é uma das duas únicas fronteiras terrestres da Europa com a África, ao lado do enclave espanhol de Melilla. O fluxo provocou dezenas de mortes e desaparecimentos.

A maioria dos migrantes retornou pouco depois, mas vários milhares continuam em Ceuta, muitos deles dormindo em ruas e praias.

A manifestação do governo marroquino ocorre em meio ao aumento das suspeitas sobre uma eventual responsabilidade de Rabat na crise, após o vazamento de um relatório policial que apontava uma suposta "permissividade" das forças de segurança marroquinas durante a entrada em massa de migrantes.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou repetidamente não haver "nenhuma prova" do envolvimento marroquino, posição que vem sendo duramente criticada por integrantes da oposição.

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Relatórios 

A situação se agravou depois que o governo espanhol publicou em seu site, na quarta-feira (9), 40 relatórios e comunicados produzidos entre 1º e 31 de julho sobre a situação migratória em Ceuta e a chegada em massa de migrantes. Os documentos sigilosos mostram que diversos órgãos, entre eles o Centro Nacional de Inteligência (Cenif), alertaram o governo dias antes sobre o aumento das tentativas de travessia por via marítima.

Segundo os documentos, os alertas foram enviados em 29 de julho e mencionavam uma possível "investida pelo posto de fronteira e pelo mar", 24 horas antes da chegada em massa dos migrantes.

Migrantes que atravessaram do Marrocos para a Espanha retornam a uma praia após terem sido expulsos da área no dia anterior, enquanto a polícia espanhola os escolta no enclave espanhol de Ceuta, na sexta-feira, 21 de agosto de 2026.
Migrantes que atravessaram do Marrocos para a Espanha retornam a uma praia após terem sido expulsos da área no dia anterior, enquanto a polícia espanhola os escolta no enclave espanhol de Ceuta, na sexta-feira, 21 de agosto de 2026.
Foto: RFI

"Foram detectadas comunicações internas entre grupos de migrantes que tentavam organizar incursões em massa na noite de 29 de julho de 2026", destaca um documento do Centro Nacional de Inteligência.

O Cenif registrou quase mil travessias a nado da fronteira marroquina entre 1º e 28 de julho, número que "confirma um aumento nítido em relação ao ano passado" e representa "uma ameaça confirmada e prioritária".

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Uma "nota urgente" do órgão, datada da tarde de 29 de julho, alertava para "o planejamento de várias convocações para ações de incursão em Ceuta" em grupos do Facebook, um dos quais reunia mais de 160 mil membros.

Crise política

Além de provocar a pior crise migratória dos últimos anos, o episódio desencadeou uma grave crise política na Espanha.

Nenhum setor político contesta a existência dos alertas, nem mesmo o governo de Pedro Sánchez. Para rebater as acusações de que não reagiu adequadamente, o primeiro-ministro afirmou, diante dos deputados, ao anunciar a retirada do sigilo dos 40 documentos, que, embora houvesse "relatórios de situação" sobre as condições na fronteira, "nenhuma informação revelava a dimensão" da crise que o país enfrentaria.

Sánchez também destacou diversas vezes que nenhum dos relatórios continha "provas sólidas de que o Marrocos tivesse planejado ou provocado o incidente".

Grande parte da imprensa e toda a oposição, porém, discordam dessa avaliação. Para esses setores, o governo socialista recebeu informações suficientemente graves para mobilizar o Exército e impedir as chegadas em massa. Na visão dos críticos, se isso não ocorreu, foi para evitar desgastar ainda mais as relações com o Marrocos, um vizinho que Madri não estaria disposta a confrontar.

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