Os pedidos de brasileiros para regressar ao Brasil via programa de Apoio ao Retorno Voluntário em Portugal cresceram mais de 50% este ano, somando 470 solicitações até julho. Embora representem 30% dos imigrantes, os brasileiros concentram 80% dos pedidos de repatriação, motivados pelo alto custo de vida e dificuldades de regularização. O auxílio custeia a passagem e € 70, mas impõe veto de três anos no Espaço Schengen, o que faz cerca de metade dos inscritos desistir do processo.
Luciana Alvarez, correspondente da RFI em Portugal
O programa chama-se Apoio ao Retorno Voluntário e à Reintegração. Ele é destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, independente da região onde vivam, ou de estarem com a situação migratória regularizada. Recentemente, o que chamou a atenção foi o crescimento no número de brasileiros recorrendo a essa ajuda.
Nos primeiros sete meses deste ano, a quantidade de pessoas pedindo o apoio subiu mais de 50% em comparação ao mesmo período do ano passado. É um indicativo de que o "sonho português" tem virado desilusão para muitos.
No formato atual, o programa começou em 2024, mas desde então a tendência é crescente. Em todo o ano de 2024, 432 brasileiros fizeram a inscrição, pedindo apoio para o retorno. Um volume que já foi ultrapassado apenas nos sete primeiros deste ano. Até julho de 2026, o número chegou a 470 pedidos de ajuda. Os relatórios da Organização Internacional para Migrações, entidade que organiza o programa, apresentaram em 2025 uma média de 44 pedidos de brasileiros por mês; este ano, a média mensal está em 67, o que significa um aumento de 52%.
Há inscritos de vários países, como Venezuela, Sri Lanka e Moçambique, mas o Brasil representa a maioria dos atendimentos. Os brasileiros são a maior comunidade estrangeira em Portugal, sendo 30% do total de imigrantes, mas representam 80% do total de pedidos de retorno. E são do Brasil quase todas as crianças que participam do programa. Ano passado, 85 crianças regressaram ao país com esse apoio oficial, o que mostra que são famílias inteiras que estão desistindo de viver em Portugal.
O apoio ao retorno inclui a compra da passagem aérea e uma ajuda de custo de € 70 para as despesas durante a viagem. A passagem e o dinheiro são entregues em mãos, no dia, por um funcionário do programa.
Muitas pessoas se inscrevem, mas acabam não completando o processo; a porcentagem de concretização do retorno costuma ser metade dos inscritos. A OIM não detalha os dados dos processos, mas há alguns obstáculos importantes: um deles é que é preciso comprovar a vulnerabilidade econômica e mostrar que não tem como voltar por meios próprios.
Outro ponto importante é que quem participa do programa fica por três anos impedido de entrar tanto em Portugal como em qualquer outro país do Espaço de Schengen, zona de livre circulação que abrange 29 países europeus. Como muitas vezes o sonho de viver em Portugal acaba sendo substituído pelo sonho de viver em outro país da Europa, algumas pessoas preferem esperar um pouco mais, fazer algum sacrifício e se reogarnizar sozinho para poder partir para outro destino.
As histórias de pessoas decepcionadas com a vida em terras portuguesas são cada vez mais frequentes. E há vários perfis, desde gente que veio de forma irregular e teve dificuldade para conseguir emprego e documentação, até quem chegou já com visto, com emprego certo, mas depois se deparou com um alto custo de vida e de moradia, e acabam preferindo voltar para o Brasil.