Bilionário francês vai a julgamento por caça ilegal e destruição de espécies protegidas

O bilionário francês Olivier Bouygues e cinco de seus funcionários estão sendo julgados na França por destruir aves protegidas em uma de suas propriedades. Segundo a investigação, além de caçar espécies cuja captura é proibida, eles utilizavam métodos considerados "bárbaros" e ilegais no país. Os investigadores também encontraram vídeos que mostram maus-tratos a animais.

10 set 2026 - 15h10
Resumo
O bilionário francês Olivier Bouygues foi a julgamento acusado de caça ilegal e destruição de espécies protegidas em sua propriedade na Sologne. Investigações revelaram valas com carcaças de aves raras, armadilhas proibidas, venenos e vídeos de crueldade contra animais abatidos para preservar presas de caça. A promotoria pediu cinco anos de prisão suspensa e multa de 750 mil euros para o empresário, que nega ter conhecimento das práticas e culpa funcionários. O veredito sairá em 23 de outubro.

Os fatos teriam ocorrido na propriedade de Fontenaille, uma área de 650 hectares localizada na região da Sologne, ao sudoeste de Paris. Transformada em um destino de caça para grandes fortunas, a região abriga a segunda maior área florestal da França e enfrenta críticas pela proliferação de cercas que aprisionam e fragilizam a fauna selvagem.

O empresário francês Olivier Bouygues aguarda o início de seu julgamento no tribunal correcional de Orléans, em 7 de setembro de 2026, pela destruição de espécies de aves protegidas em sua propriedade de caça na Floresta de Sologne, em Orléans, no centro da França.
O empresário francês Olivier Bouygues aguarda o início de seu julgamento no tribunal correcional de Orléans, em 7 de setembro de 2026, pela destruição de espécies de aves protegidas em sua propriedade de caça na Floresta de Sologne, em Orléans, no centro da França.
Foto: AFP - ALAIN JOCARD / RFI

Olivier Bouygues é um bilionário francês e herdeiro do grupo Bouygues, um dos maiores conglomerados da França, com atuação nos setores de construção civil, telecomunicações, energia e mídia. Aos 75 anos, ele passa cerca de 50 dias por ano na propriedade, onde cria cervos, javalis e aves destinadas à caça, como perdizes, faisões e patos. O local também recebe membros da elite parisiense aficionados pela atividade.

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Durante uma operação realizada em 4 de junho de 2025, após uma denúncia anônima, agentes do Escritório Francês da Biodiversidade (OFB) e policiais encontraram uma vala com carcaças de animais em avançado estado de decomposição, parcialmente cobertas por cal. Bicos, garras, penas e crânios analisados pertenciam a espécies protegidas há mais de 40 anos, entre elas peneireiros-comuns, corvos-marinhos-de-faces-brancas, búteos-comuns (popularmente conhecidos como águias-de-asa-redonda) e garças-brancas-grandes.

Também foram apreendidas 103 armadilhas de mandíbula, proibidas desde 1995, produtos fitossanitários altamente tóxicos e banidos na França desde 2008, armas de fogo irregulares e um esquilo congelado armazenado em um freezer.

Os investigadores encontraram ainda documentos que listavam animais considerados "nocivos" e que deveriam ser eliminados. Cada abate dava direito a uma recompensa cujo valor variava conforme a espécie. Segundo a acusação, os registros indicam a eliminação de espécies protegidas e cuja caça é proibida.

Crueldade

Nos celulares apreendidos, foram encontrados vídeos descritos pela promotora como cenas de extrema crueldade. Em um deles, uma garça é segurada pelo pescoço e espancada até a morte com um bastão. Em outro, um gato doméstico aparece eviscerado, sendo segurado pela cauda e lançado em uma vala.

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Segundo a promotora pública de Orléans, Emmanuelle Bochenek-Puren, as espécies protegidas eram eliminadas de forma recorrente por serem predadoras de pequenos animais utilizados nas caçadas organizadas na propriedade. Para ela, trata-se de uma prática que perdura há anos, sempre sob a responsabilidade do mesmo proprietário. O dano causado à biodiversidade, afirmou, foi "grave".

Na terça-feira (8), a promotora pediu a condenação de Bouygues a cinco anos de prisão com suspensão condicional da pena, multa de € 750 mil, valor máximo previsto em lei, e proibição de exercer qualquer atividade ligada à caça por cinco anos.

Para os outros cinco réus, entre eles o administrador da propriedade e guardas-caça, foram solicitadas penas de um a quatro anos de prisão com suspensão condicional, além de multas e suspensão temporária das licenças de caça.

"Fossa ecológica"

Olivier Bouygues afirma que desconhecia as práticas investigadas e atribui a responsabilidade aos funcionários da propriedade. "Tenho mais o que fazer do que gerir o dia a dia" da propriedade, declarou durante o depoimento. Ao comentar a vala onde foram encontrados os cadáveres de animais protegidos, ele a classificou como uma "fossa ecológica".

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Segundo o administrador da propriedade, réu no processo, Bouygues "não queria que isso se tornasse público". Ele afirmou que a eliminação de animais considerados prejudiciais à proliferação das espécies destinadas à caça era uma prática "enraizada" entre os caçadores da Sologne. O administrador também mencionou "práticas ancestrais" e rejeitou o termo "destruição", preferindo falar em "regulação de espécies que ameaçam nossa caça ou nossos peixes".

Todos os acusados negaram a participação direta do empresário nas matanças, assim como a acusação de formação de quadrilha. "Eles protegem uns aos outros", rebateu a promotora.

Patrice Grillon, advogado da associação de proteção animal Stéphane Lamart, criticou duramente um discurso que, segundo ele, "isenta o patrão" de responsabilidades.

Cerca de 15 entidades de defesa do meio ambiente ingressaram no processo como partes civis, assim como a Federação Departamental de Caçadores de Loiret, que alega ter sofrido "danos à imagem da caça".

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As organizações pleiteiam indenizações de dezenas de milhares de euros por danos ecológicos e morais. O veredicto é esperado para 23 de outubro.

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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