Em um atrito diplomático inédito entre aliados, os Estados Unidos bloquearam a aprovação do novo embaixador francês, Aurélien Lechevallier. A medida é uma retaliação a duras críticas da diplomacia da França na ONU, que afirmou nas redes que os EUA deixaram de ser modelo em direitos humanos ao lado de nações como Rússia e Coreia do Norte. O aval, que costuma ser mera formalidade, agora depende de negociações de bastidores que estão em andamento para destravar a nomeação.
Não é comum que um embaixador francês tenha sua aprovação negada no exterior. Isso já aconteceu com o Vaticano e, mais recentemente, com Burkina Faso. Mas nunca com um aliado tão próximo quanto os Estados Unidos.
Na origem do atrito diplomático, está a insatisfação dos americanos com as críticas francesas após uma votação na ONU, em julho passado. A representante da França junto às Nações Unidas em Genebra publicou uma mensagem em sua conta no X reprovando duramente a posição dos Estados Unidos, que estiveram entre os dez países que votaram contra a renovação do mandato do Alto-Comissário para os Direitos Humanos, Volker Türk.
"Os Estados Unidos já foram um modelo em matéria de direitos humanos. Isso não acontece mais", escreveu a representação francesa em inglês, no X. "Hoje, eles se encontram ao lado da Coreia do Norte, da Nicarágua, do Mali e da Rússia. Isolados. E o mundo não os escuta mais", continuava a mensagem, que continua publicada na rede social.
Bloqueio do processo de aprovação
A reação não tardou. Durante uma reunião do Conselho de Segurança, a delegação americana deixou a sala no momento em que o embaixador francês Jérôme Bonnafont começava a falar. O vice-embaixador americano justificou a decisão: "Um membro deste Conselho finge indignação moral e pretende dar lições a todos sobre qualquer assunto, seja em relação ao conflito que ainda discutimos hoje ou a questões não ligadas à paz e à segurança, como os direitos humanos", declarou.
Poucos dias depois, Washington bloqueou o processo de concessão de "agrément" (aprovação oficial) ao novo embaixador francês, Aurélien Lechevallier, que exerce atualmente o cargo de chefe de gabinete do ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot.
Procedimento de nomeação de embaixadores
No caso de um embaixador da França nos Estados Unidos, essa aprovação costuma ser uma mera formalidade. Na França, cabe ao presidente nomear os embaixadores para países estrangeiros. No entanto, para exercer suas funções, o embaixador também precisa receber a aprovação do país anfitrião, um processo que envolve uma cerimônia formal.
No caso de um embaixador da França nos Estados Unidos, essa aprovação costuma ser uma mera formalidade, ao contrário do que ocorre com países como a Rússia ou o Irã, com os quais a França mantém relações diplomáticas mais difíceis.
As discussões nos bastidores para resolver essa divergência estão em curso, e Paris espera que a questão seja resolvida rapidamente.