Julien Chavanne e Aurore Lartigue, enviados especiais da RFI à Hungria
Desde cedo, a seção eleitoral de Mikebuda, um dos vilarejos rurais onde Orbán é reeleito com folga há 16 anos, não parou de receber eleitores. No entanto, mesmo nesses redutos tradicionais do primeiro-ministro, a sede de mudança é palpável. Joseph, um dos muitos decepcionados com o governo, não esconde sua insatisfação: "Eles não cumpriram nenhuma promessa aqui na Hungria. Só prometeram, mas não melhoraram o poder aquisitivo. Por isso confiamos no Tisza [partido de Peter Magyar]. Não é segredo que votamos neles para que nossa vida mude um pouco e a do nosso filho melhore".
Os eleitores do Fidesz, partido de Orbán, evitam dar entrevistas. Após muita insistência, Zoltán, um trabalhador da construção civil, aceitou falar. "Magyar é muito inexperiente. Ele não conseguiria lidar com tudo o que já está nas mãos do Fidesz e não teria voz ativa. Não quero uma guerra civil, mas é para isso que parece que estamos indo", afirmou à RFI. Apesar das críticas, Zoltán reconhece que, em sua família e em seu círculo próximo, as opiniões estão divididas. "Metade apoia o Fidesz, metade apoia o Tisza", diz.
Sistema eleitoral favorece Orbán
O sistema eleitoral húngaro beneficia amplamente o Fidesz. Na prática, os eleitores votam duas vezes: em um candidato local e em uma lista nacional. Dos 199 assentos do Parlamento, 106 são definidos em circunscrições individuais, por maioria simples, enquanto 93 são distribuídos por proporcionalidade, a partir de listas nacionais. Mais da metade dos assentos, portanto, são decididos localmente, circunscrição por circunscrição.
"É claro que o sistema político não é justo. Por exemplo, ganhar uma circunscrição por um voto ou por 10 mil não faz diferença", criticou Steve, um eleitor presente em um dos comícios. Richard Szentpéteri Nagy, analista político, alerta: "Se o Tisza tiver apenas dois, três ou quatro pontos de vantagem, o Fidesz ainda pode vencer".
Esse mecanismo permite que um partido perca nas grandes cidades e ainda assim vença a eleição ao conquistar um grande número de circunscrições no interior. Foi o que aconteceu em 2022, quando o Fidesz obteve cerca de 54% dos votos, mas garantiu 135 dos 199 assentos. O partido domina a Hungria rural, onde se concentra a maioria das circunscrições. Um cenário possível é a oposição vencer no total de votos, mas perder a eleição.
O partido de extrema direita Mi Hazank ("Nossa Pátria") também pode ter papel decisivo, sendo o único além do Fidesz com chances de ultrapassar a cláusula de 5% para entrar no Parlamento. Orbán não descarta a possibilidade de uma coalizão com a legenda.
Além dessas vantagens, o Fidesz não compete em condições iguais com os demais partidos. O governo controla grande parte da mídia e, segundo a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), mistura recursos públicos com os do partido, o que interfere na campanha eleitoral.
Participação histórica
A participação já é histórica, segundo a comissão eleitoral. Até as 13h, 54,14% dos eleitores haviam votado.
Enquanto essas eleições podem marcar o fim de 16 anos de governo Orbán, a oposição teme que o primeiro-ministro não aceite o resultado. Acusações de interferência russa e compra de votos pelo Fidesz também surgiram. Em caso de resultados apertados, o vencedor pode não ser definido antes do término da apuração, segundo o Escritório Nacional Eleitoral.
Os 7,5 milhões de eleitores no país, assim como os 500 mil eleitores registrados no exterior, que têm a opção de escolher entre cinco partidos, ainda podem votar até às 19h deste domingo pelo horário local. As primeiras estimativas e resultados parciais serão divulgados a partir das 20h.