De acordo com informações obtidas pela agência AFP junto à advogada dos envolvidos, cinco parlamentares e líderes políticos franceses registraram uma denúncia em Paris por injúria pública de caráter racial. As queixas foram apresentadas pelo deputado Carlos Martens Bilongo, as deputadas e também vereadoras Danièle Obono e Nadège Abomangoli, o prefeito de La Courneuve e deputado Aly Diouara e o prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko.
O caso envolve uma correspondência enviada ao grupo parlamentar na Assembleia Nacional, em 26 de março, na qual os nomes dos eleitos aparecem associados a conteúdos considerados ofensivos.
Estereótipos coloniais
De acordo com a peça jurídica consultada pela AFP, a carta faz referência a uma versão adulterada dos quadrinhos "Tintim no Congo", acompanhada de frases de teor racista. Entre elas estariam expressões que, segundo a denúncia, reproduzem estereótipos coloniais e associam os parlamentares negros a animais, além de menções depreciativas aos seus nomes e origens.
"Tintim no Congo" é uma obra em quadrinhos criada pelo cartunista belga Hergé e publicada em 1931. A publicação acompanha o personagem Tintim em uma aventura na então colônia do Congo Belga, atual República Democrática do Congo. Produzido no contexto colonial europeu do início do século 20, o álbum é frequentemente citado por críticos como um exemplo de narrativa marcada por estereótipos raciais e pela visão hierarquizada entre europeus e africanos típica da época.
A advogada dos parlamentares, Chirinne Ardakani, afirmou em comunicado que há um "uso sistemático de mecanismos de animalização e desumanização", que, segundo ela, reforçam uma suposta hierarquia racial e negam aos políticos visados sua condição de integrantes da comunidade nacional francesa.
A defesa também afirma que o caso se insere em um "escalamento cotidiano de discursos de ódio racista" contra representantes públicos negros.
Pichações e ameaças de morte
Três dos parlamentares - Danièle Obono, Carlos Martens Bilongo, além de Bally Bagayoko - também registraram queixa após a descoberta de pichações na cidade de Bagnères-de-Bigorre, localizada no departamento de Hautes-Pyrénées, na região administrativa de Occitanie, no sudoeste da França.
Em um muro da cidade, foram encontradas inscrições que combinavam nomes dos políticos com a palavra "remigração", termo frequentemente associado a discursos de extrema direita na Europa e que, segundo a denúncia, sugere expulsão de imigrantes e seus descendentes.
A prefeitura de Bagnères-de-Bigorre (sudoeste) informou que também apresentou queixa assim que tomou conhecimento das pichações. As inscrições foram registradas no mesmo período em que manifestações contra o racismo ocorreram em diferentes cidades francesas, incluindo um ato em Saint-Denis, na região parisiense.
O deputado Carlos Martens Bilongo já havia registrado outra queixa em janeiro, após receber cartas anônimas com ameaças de morte e conteúdo racista.
Em comunicado citado pela advogada dos parlamentares, os episódios fazem parte de um padrão de hostilidade crescente, frequentemente amplificado por redes sociais e por figuras públicas. A defesa menciona ainda a atuação de influenciadores políticos e canais de televisão que, segundo a avaliação jurídica apresentada, contribuiriam para a disseminação e normalização desse tipo de discurso.
Diante do arquivamento de parte das denúncias anteriores e da percepção de falta de resposta institucional, os parlamentares decidiram também acionar mecanismos internacionais. Segundo a defesa, quatro dos envolvidos encaminharam o caso à Relatoria Especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância.
As investigações seguem em andamento na França, enquanto os casos são analisados pelas autoridades judiciais e administrativas competentes.
RFI com AFP