Racismo à francesa? Políticos negros denunciam insultos com conteúdo discriminatório

Cinco parlamentares, prefeitos e vereadores negros, todos do partido França Insubmissa (LFI, sigla da esquerda radical), apresentaram queixas à Justiça francesa após serem alvo de cartas e pichações com conteúdo racista, em episódios distintos registrados na região de Paris e no sudoeste do país.

10 abr 2026 - 15h08

De acordo com informações obtidas pela agência AFP junto à advogada dos envolvidos, cinco parlamentares e líderes políticos franceses registraram uma denúncia em Paris por injúria pública de caráter racial. As queixas foram apresentadas pelo deputado Carlos Martens Bilongo, as deputadas e também vereadoras Danièle Obono e Nadège Abomangoli, o prefeito de La Courneuve e deputado Aly Diouara e o prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko.

O novo prefeito de Saint-Denis, na região parisiense, Bally Bagayoko, durante protesto contra o racismo.
O novo prefeito de Saint-Denis, na região parisiense, Bally Bagayoko, durante protesto contra o racismo.
Foto: AFP - THOMAS SAMSON / RFI

O caso envolve uma correspondência enviada ao grupo parlamentar na Assembleia Nacional, em 26 de março, na qual os nomes dos eleitos aparecem associados a conteúdos considerados ofensivos.

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Estereótipos coloniais

De acordo com a peça jurídica consultada pela AFP, a carta faz referência a uma versão adulterada dos quadrinhos "Tintim no Congo", acompanhada de frases de teor racista. Entre elas estariam expressões que, segundo a denúncia, reproduzem estereótipos coloniais e associam os parlamentares negros a animais, além de menções depreciativas aos seus nomes e origens.

"Tintim no Congo" é uma obra em quadrinhos criada pelo cartunista belga Hergé e publicada em 1931. A publicação acompanha o personagem Tintim em uma aventura na então colônia do Congo Belga, atual República Democrática do Congo. Produzido no contexto colonial europeu do início do século 20, o álbum é frequentemente citado por críticos como um exemplo de narrativa marcada por estereótipos raciais e pela visão hierarquizada entre europeus e africanos típica da época.

A advogada dos parlamentares, Chirinne Ardakani, afirmou em comunicado que há um "uso sistemático de mecanismos de animalização e desumanização", que, segundo ela, reforçam uma suposta hierarquia racial e negam aos políticos visados sua condição de integrantes da comunidade nacional francesa.

A defesa também afirma que o caso se insere em um "escalamento cotidiano de discursos de ódio racista" contra representantes públicos negros.

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Pichações e ameaças de morte

Três dos parlamentares - Danièle Obono, Carlos Martens Bilongo, além de Bally Bagayoko - também registraram queixa após a descoberta de pichações na cidade de Bagnères-de-Bigorre, localizada no departamento de Hautes-Pyrénées, na região administrativa de Occitanie, no sudoeste da França.

Em um muro da cidade, foram encontradas inscrições que combinavam nomes dos políticos com a palavra "remigração", termo frequentemente associado a discursos de extrema direita na Europa e que, segundo a denúncia, sugere expulsão de imigrantes e seus descendentes.

A prefeitura de Bagnères-de-Bigorre (sudoeste) informou que também apresentou queixa assim que tomou conhecimento das pichações. As inscrições foram registradas no mesmo período em que manifestações contra o racismo ocorreram em diferentes cidades francesas, incluindo um ato em Saint-Denis, na região parisiense.

O deputado Carlos Martens Bilongo já havia registrado outra queixa em janeiro, após receber cartas anônimas com ameaças de morte e conteúdo racista.

Em comunicado citado pela advogada dos parlamentares, os episódios fazem parte de um padrão de hostilidade crescente, frequentemente amplificado por redes sociais e por figuras públicas. A defesa menciona ainda a atuação de influenciadores políticos e canais de televisão que, segundo a avaliação jurídica apresentada, contribuiriam para a disseminação e normalização desse tipo de discurso.

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Diante do arquivamento de parte das denúncias anteriores e da percepção de falta de resposta institucional, os parlamentares decidiram também acionar mecanismos internacionais. Segundo a defesa, quatro dos envolvidos encaminharam o caso à Relatoria Especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância.

As investigações seguem em andamento na França, enquanto os casos são analisados pelas autoridades judiciais e administrativas competentes.

RFI com AFP

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