As revistas Le Nouvel Obs e Le Point destacam, em suas edições desta semana, que a medida do governo francês é apresentada como resposta a uma "catástrofe sanitária e de segurança", que impacta a educação e a saúde física e mental dos jovens. Em alguns casos mais graves, influenciados pelos algoritmos de recomendação das plataformas e expostos a conteúdos violentos, eles podem ser induzidos ao suicídio.
A Le Nouvel Obs, que entrevistou diversos especialistas, questiona como seria possível verificar a idade dos usuários, já que, do ponto de vista tecnológico, sempre é possível driblar a regra. Por essa e outras razões, a questão da exposição precoce às redes envolve, além de nova legislação, o comprometimento das escolas e das famílias.
Em 2024, o governo francês criou uma comissão de especialistas para analisar a questão. Na opinião de muitos deles, é impossível opor proibição e educação. O psiquiatra Serge Tisseron, que participou do grupo e é referência no tema na França, costuma dizer que "dar um celular a uma criança de 10 anos" equivale a "abandoná-la na selva".
Entre as recomendações está a criação de uma consulta médica obrigatória durante a gravidez para sensibilizar os futuros pais aos riscos das telas. Outra sugestão foi a implementação de "uma equipe de adultos nas escolas para ajudar as crianças em suas dúvidas digitais".
O grupo também propôs instalar jogos sem telas em espaços públicos - como praças, pontos de ônibus e centros comerciais. No entanto, "de todas as nossas propostas, essas foram as menos adotadas e, ainda hoje, parecem ser as que menos interessam", lamenta o psicólogo Grégoire Borst, especialista em neurociências cognitivas, que também integrou a comissão.
"A política de apoio à parentalidade, infelizmente, é quase inexistente neste país", afirma, lembrando que os pais acabam carregando a maior parte do fardo da educação digital.
Há consenso entre muitos especialistas de que as grandes plataformas devem repensar seus algoritmos e que o tempo médio diário de tela - cerca de cinco horas entre jovens de 11 a 24 anos, apenas com vídeos - deve ser reduzido.
Mas também é inegável, escreve o Le Nouvel Obs, que as redes sociais se tornaram um dos poucos espaços de socialização para adolescentes. "Questionar os efeitos do virtual é ótimo, mas o que dizer dessas gerações que não têm mais como adquirir autonomia?", diz Grégoire Borst.
"Vivemos na ilusão do risco zero. O espaço público está se esvaziando de suas crianças e adolescentes… Isso também é uma catástrofe, e ninguém tem coragem de enfrentar o problema", alerta.
A educação digital na escola também é insuficiente. Embora existam iniciativas pontuais e sem coordenação, os temas são pouco explorados com alunos e pais. "Raramente uma escola explica como está desenvolvendo sua reflexão sobre a relação com as telas, o que alimenta a ansiedade das famílias", observa Marie-Caroline Missir, ex-diretora do Canopé, organismo de formação a distância para professores na França.
"Com a chegada das IAs generativas, as práticas vão ter de mudar. Os riscos de dependência que conhecemos serão multiplicados. Há apenas uma opção: a educação", diz.
Em um texto de análise que acompanha a reportagem, Le Nouvel Obs escreve que, jovens ou adultos, o scrolling preenche um vazio existencial. "Ele preenche o tempo que antes era de divagação ou usado para ler jornal, conversar com alguém ou ouvir música. Ou, simplesmente, nos deixar levar pelo tédio."
Saúde Mental
Le Point também aborda o assunto e foca na saúde mental dos adolescentes. Na reportagem intitulada "Isso deixa a gente louco: quando as redes sociais afetam a saúde mental de nossos adolescentes", a revista cita o relatório da Anses (Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, do Meio Ambiente e do Trabalho).
Após cinco anos analisando mais de mil estudos, a agência identificou uma associação entre uso de redes e transtornos do sono, ansiedade, depressão, distorção da imagem corporal, condutas de risco e cyberbullying.
As meninas são as mais afetadas, e 46% delas consideram que as redes prejudicam sua autoestima. De modo geral, quanto maior a vulnerabilidade, mais adolescentes e jovens tendem a se refugiar nas plataformas: os algoritmos detectam e amplificam essa fragilidade, e os conteúdos intensificam o mal-estar, com o único objetivo de manter o usuário conectado.
A revista ilustra a reportagem com o depoimento do pai de um estudante, Maxime, que relata ter "perdido" o filho aos 14 anos depois de presenteá-lo com um celular. Apesar do controle parental e do limite de horário, o menino se tornou dependente das redes e de outros aplicativos, perdendo aos poucos o interesse por outras atividades.
O pai, desamparado, conta que retirar o telefone do filho provocava nele acessos de raiva - o que ilustra como os pais estão, muitas vezes, solitários na guerra contra as plataformas.