COP17 abre na Mongólia sob alerta global: desertificação já ameaça até a França

Enquanto a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) é aberta nesta segunda-feira (17) na Mongólia, um tema que durante décadas pareceu distante da Europa ganha as manchetes francesas: a degradação dos solos. Após uma sequência de ondas de calor e uma seca histórica neste verão, a França vê avançar um fenômeno geralmente associado ao Sahel africano ou à Ásia Central, mas que agora também preocupa agricultores e cientistas europeus.

17 ago 2026 - 15h52

Menos conhecida do que as conferências da ONU sobre clima e biodiversidade, a COP sobre desertificação reúne governos, pesquisadores e organizações internacionais até 28 de agosto para discutir como restaurar terras degradadas e frear a perda da fertilidade do solo, considerada uma das maiores ameaças à segurança alimentar global. 

A COP17 começou nesta segunda-feira 17 de agosto de 2026 e vai até 28 de agosto, em Ulan Bator, na Mongólia. A principal conferência mundial sobre desertificação e degradação dos solos reúne governos, cientistas, organizações da sociedade civil e representantes do setor privado para discutir estratégias de restauração de terras e adaptação à seca.
A COP17 começou nesta segunda-feira 17 de agosto de 2026 e vai até 28 de agosto, em Ulan Bator, na Mongólia. A principal conferência mundial sobre desertificação e degradação dos solos reúne governos, cientistas, organizações da sociedade civil e representantes do setor privado para discutir estratégias de restauração de terras e adaptação à seca.
Foto: © divulgação / RFI

"A desertificação não é apenas um problema dos desertos", resume à RFI o pesquisador emérito Jean-Luc Chotte, do Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), presidente do Comitê Científico Francês sobre Desertificação (CSFD) e participante das negociações internacionais sobre o tema. 

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Segundo ele, o fenômeno está diretamente relacionado à forma como os seres humanos utilizam a terra. "A degradação dos solos deve-se principalmente ao uso inadequado da terra pelas atividades humanas", afirma. 

Calor extremo e colheitas em queda 

A discussão ganha força em um momento crítico para a agricultura francesa. Nesta segunda-feira, o jornal Le Monde destaca os impactos da seca sobre a produção agrícola do país. A publicação relata quedas significativas na colheita de hortaliças e cereais, escassez de pastagens para o gado e dificuldades inéditas enfrentadas pelos produtores. 

Entre as culturas mais afetadas estão cenouras, cuja produção caiu cerca de 30%, além de alfaces, alhos-porós e outros legumes que tiveram o crescimento interrompido pelas altas temperaturas. Os solos excessivamente secos e compactados também dificultam a retirada de batatas e outros tubérculos. 

O cenário é resultado de uma combinação explosiva entre temperaturas elevadas, escassez de chuvas e degradação do solo, fatores que se reforçam mutuamente. 

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Aridez não é seca 

Um dos pontos frequentemente mal compreendidos é a diferença entre aridez e seca. 

De acordo com Jean-Luc Chotte, a aridez é uma característica climática permanente. Ela define regiões onde a evapotranspiração potencial supera amplamente a precipitação média ao longo dos anos. 

Já a seca é um fenômeno temporário, caracterizado por um período excepcional de falta de água. Ela pode ocorrer mesmo em regiões tradicionalmente úmidas e está associada à redução das chuvas, temperaturas elevadas, ventos fortes e diminuição da água disponível nos solos, rios e reservatórios. 

Em outras palavras, uma região árida convive naturalmente com pouca água; uma região afetada por seca enfrenta uma situação anormal de escassez hídrica. 

Quando o solo perde a vida 

A desertificação se manifesta de diferentes formas. Em áreas áridas, os sinais físicos são facilmente observáveis: solos endurecidos que não conseguem absorver água, erosão causada pelo vento, vegetação amarelada, redução da cobertura vegetal e queda da produtividade agrícola. 

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Mas há um elemento menos visível e igualmente importante. 

"Quando se cava o solo, praticamente não se encontra vida. As raízes se tornam superficiais e os processos biológicos desaparecem", explica Chotte. 

Os cientistas consideram o solo um organismo vivo. Bilhões de microrganismos, fungos e pequenos invertebrados garantem a reciclagem de nutrientes, a infiltração da água e a armazenagem de carbono. Quando esse sistema entra em colapso, a fertilidade diminui progressivamente. 

A França entra na lista dos países afetados 

A gravidade da situação levou a França a solicitar oficialmente, durante a COP16 realizada em 2024, sua inclusão na lista de países afetados pela desertificação da Convenção das Nações Unidas. 

A decisão foi baseada em estudos conduzidos pelo Comitê Científico sobre Desertificação, pela infraestrutura de pesquisa DataTerra e pela ONG Nitidae. 

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Inicialmente, os pesquisadores analisaram apenas áreas da França metropolitana com clima árido, semiárido ou subúmido seco, concentradas principalmente no litoral mediterrâneo. Embora representem menos de 2% do território nacional, essas regiões já apresentavam sinais claros de degradação. 

Em seguida, foram aplicados ao conjunto do país três indicadores utilizados pela ONU: mudanças no uso da terra, evolução da produtividade e estoques de carbono nos solos. O resultado mostrou que 3% do território francês já pode ser considerado degradado de acordo com os critérios internacionais. 

No entanto, os especialistas consideram que esses indicadores não captam toda a complexidade do problema. Quando outros fatores são incluídos, como erosão hídrica e eólica, perda de biodiversidade, contaminação por metais pesados, salinização e deslizamentos de terra, o diagnóstico torna-se muito mais preocupante: cerca de 77% dos solos franceses apresentam algum grau de degradação. 

O jornal Le Figaro ressalta que entre dois terços e três quartos das terras do país já estariam degradadas, um quadro que até poucos anos atrás era associado sobretudo a regiões vulneráveis da África e da Ásia. 

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O papel da agricultura intensiva 

Para Chotte, a principal causa da desertificação continua sendo a pressão excessiva exercida sobre os ecossistemas. 

Entre as práticas que aceleram a degradação estão a aração intensiva, a monocultura, a utilização excessiva de fertilizantes químicos e a redução da matéria orgânica nos solos. 

O mesmo ocorre na pecuária quando a quantidade de animais ultrapassa a capacidade natural das pastagens. 

"As mudanças climáticas amplificam esse processo", explica o pesquisador. Com temperaturas mais elevadas, aumenta a evapotranspiração. Ao mesmo tempo, as chuvas tornam-se mais irregulares e mais violentas. Diante dessas dificuldades, muitos agricultores intensificam ainda mais a produção para garantir renda e abastecimento, alimentando um círculo vicioso de degradação. 

Outro aspecto crucial é o papel dos solos no combate ao aquecimento global. Eles constituem o maior reservatório terrestre de carbono do planeta. Quando degradados, perdem a capacidade de armazenar carbono e contribuem para o agravamento das mudanças climáticas. 

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Soluções baseadas na natureza 

Apesar do diagnóstico alarmante, especialistas defendem que a recuperação dos solos é possível. 

Entre as medidas consideradas mais eficazes estão a rotação de culturas, a redução da mobilização do solo, a integração de árvores nas áreas agrícolas por meio da agrofloresta e a preservação da mobilidade tradicional dos criadores de gado em regiões áridas. 

O jornal econômico Les Echos destaca um projeto-piloto desenvolvido no sudeste da França baseado na chamada "hidrologia regenerativa". O objetivo é desacelerar o escoamento da água da chuva para favorecer sua infiltração no solo. 

A estratégia ajuda a reduzir a erosão, aumenta a retenção de umidade e fortalece a resiliência das paisagens diante das secas cada vez mais frequentes. 

Para os participantes da COP17, essa adaptação tornou-se uma questão urgente. Segundo Jean-Luc Chotte, o desafio não é apenas proteger a produtividade agrícola, mas preservar um recurso fundamental para a vida no planeta. 

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"O solo é a base da nossa alimentação, da biodiversidade e do equilíbrio climático. Quando o degradamos, comprometemos simultaneamente esses três pilares", alerta. 

Na Mongólia, país marcado por vastas áreas semiáridas e pelo avanço da degradação das terras, os debates que começam nesta segunda-feira terão justamente essa missão: transformar a proteção dos solos em uma prioridade global, antes que a desertificação deixe de ser uma ameaça distante para se tornar uma realidade irreversível em cada vez mais regiões do planeta. 

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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