Bally Bagayoko, prefeito francês do partido de esquerda A França Insubmissa, tornou-se símbolo das manifestações estudantis ao mediar conflitos com a polícia e exigir retratação do presidente Emmanuel Macron por jovens feridos. Contudo, ele enfrenta forte oposição e ações judiciais da direita por declarar que a violência pode ser legítima em certos momentos. Ele rejeita as acusações, nega incitar delitos e defende a revisão da atuação policial contra os estudantes.
Os manifestantes reunidos na Praça da Bastilha, em Paris, na quinta-feira (8), aclamaram o político de 53 anos em sua chegada ao local. Figura em ascensão no partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI), o prefeito foi recebido com gritos de "Bally, Bally", enquanto tirava selfies com os jovens.
Diante das câmeras de televisão e celulares, ele pediu ao presidente francês, Emmanuel Macron, que "pedisse desculpas às famílias cujos filhos foram feridos" pelas forças de segurança desde o início da mobilização estudantil na França, em setembro.
Dois dias antes, o prefeito, de terno e gravata, havia repreendido jovens que lançavam objetos diante de uma escola de sua cidade. Poucas horas depois, em Paris, ele se interpôs entre manifestantes e as forças de segurança, gritando: "Parem! Recuem! Parem de empurrar!". As imagens se tornaram virais.
Kirill Dmitriev, um influente conselheiro do Kremlin, cujo país tem histórico de interferência na política francesa, repostou a cena, descrevendo Bally Bagayoko como o "Robespierre da Revolução Francesa 2.0".
"Você é fera", escreveu o astro francês do basquete Victor Wembanyama no X sobre Bagayoko. A mensagem foi uma resposta ao prefeito, que havia parabenizado o atleta por seu apoio ao movimento estudantil.
"Ele nos defende"
Bally Bagayoko "vem de bairros como o nosso, ele nos entende, ele nos defende", explica Jules, aluno do colégio onde o prefeito estudou na adolescência. "Ele sabe como a polícia age, ele vivenciou esse tipo de coisa", continua. "Ele sabe que ela só quer nos provocar para que a gente reaja", diz o jovem.
Embora esteja sob os holofotes, o prefeito insiste que "é a juventude que deve permanecer como o ícone e o símbolo importante desta revolução cidadã".
Em entrevista à AFP, na sexta-feira (9), ele disse estar satisfeito, no entanto, por ser "reconhecido" por esses jovens revoltados "como um aliado".
Uma conexão natural para o ex-treinador de basquete e educador que cresceu em conjuntos habitacionais da periferia.
"As reivindicações dos estudantes do ensino médio dão continuidade àquilo que, no passado, talvez não tenhamos defendido com força suficiente", confessa o político.
Em 1991, um de seus amigos, Stéphan Villaret, aluno do mesmo colégio, morreu após a queda de uma tabela de basquete enferrujada no pátio da escola.
Bravo à la jeunesse mobilisée. Vous êtes notre fierté 🇫🇷 https://t.co/qlVjfFJgHr
— Bally Bagayoko (@BallyBagayoko) October 8, 2026
Violência legitimada
Na semana passada, porém, Bally Bagayoko provocou uma tempestade política ao declarar, em meio aos estudantes em greve, que "a violência, em certo momento, pode ser legítima". Posteriormente, afirmou que "sempre que for possível evitá-la, é melhor".
Essas declarações levaram o secretário de Segurança Pública de Paris, Patrice Faure, a acionar a Justiça por "suposta incitação à prática de delito".
Tal procedimento foi "totalmente desmentido pelas imagens e pelos fatos", afirma Bally Bagayoko, insistindo que sua atuação visa, na verdade, "acalmar os ânimos".
Eric Ciotti, prefeito de Nice, no sudeste da França, e aliado do partido de extrema direita Reunião Nacional (RN), chegou a pedir sua "destituição".
No passado, Bagayoko foi alvo de racismo por parte de um canal de TV francês. Ele também é alvo de uma investigação preliminar por suspeita de desvio de recursos públicos e nega as acusações.
Menores feridos
O prefeito reitera sua vontade de "reavaliar a doutrina de intervenção" das forças de segurança, uma vez que vários menores ficaram gravemente feridos desde o início do movimento estudantil do ensino médio. "Quando se tem crianças à sua frente, não se pode tratá-las como adultos, não se atira nelas à queima-roupa e não se quebra a mandíbula delas", insiste o político, referindo-se à repressão durante as manifestações.
Eleito já no primeiro turno, em março, o prefeito iniciou um processo de desarmamento de sua polícia municipal.
Às acusações de instrumentalização da mobilização estudantil, o membro do LFI responde criticando "a covardia com que certos partidos políticos preferiram optar pelo silêncio". "Com seu silêncio, o presidente confirma mais uma vez esse sentimento de desprezo e de desvalorização que esses estudantes enfrentam", critica Bagayoko.
Seu engajamento junto aos jovens é motivo de orgulho e referência para os estudantes de sua cidade. "Para mim, ele é muito corajoso", avalia Diane. "Isso me inspira muito."
Com AFP