Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa
António José Seguro ganhou as eleições com uma grande legitimidade política, venceu com uma vantagem de mais 30 pontos percentuais sobre o seu adversário. Com quase 3.5 milhões de votos Seguro se tornou o político mais votado da democracia portuguesa. Ao bater este recorde ele ultrapassa a marca histórica do ex-presidente Mário Soares, até então o maior detentor de votos na sua reeleição, em 1991.
Em seu discurso de vitória, em Caldas da Rainha, cidade onde mora, Seguro foi ovacionado ao reafirmar seu lema: "Sou livre, vivo sem amarras. A minha liberdade é a garantia da minha independência".
"Essa vitória não é minha. É nossa. É de cada pessoa que acreditou e tem esperança num país melhor, num Portugal moderno e justo, onde todos somos iguais nas nossas necessidades, e diferentes nas nossas liberdades. Um país que avança sem deixar ninguém para trás", afirmou Seguro.
Apesar das chuvas intensas terem dado uma trégua em Portugal, o nível de abstenção, que era a maior incógnita e o inimigo mais temido de ambos os candidatos, surpreendeu. A afluência às urnas foi maior do que esperado, indicando assim, que os portugueses entenderam o que estava em jogo e foram votar para afastar a possibilidade de fortalecer a extrema-direita.
O recém-eleito presidente da República assume a presidência no dia 9 de março.
Dois candidatos opostos
O cientista político João Carvalho, pesquisador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa (CIES-ISCTE), em entrevista à RFI afirmou que "António José Seguro vai ser conciliador, vai procurar arranjar pactos, em termos técnicos ele é muito rigoroso, consegue estudar os assuntos, estudar os dossiers e vai fazer muito trabalho de bastidores".
"Seguro vai procurar ser uma fonte de escrutínio da ação do Executivo. Ele não é uma pessoa de criar instabilidade, nem de rasgar acordos ou de tomar ações extremas e radicais. Seguro é low profile, um político de bastidores, mas foi o candidato mais bem preparado para as eleições este ano", concluiu.
Segundo Carvalho, "André Ventura teve um crash político. O líder do Chega conseguiu captar apenas 10% dos votos dos candidatos de direita que disputaram o primeiro turno das eleições. É uma derrota moral para Ventura, mas ele nunca vai admitir uma derrota própria. André Ventura ganhou apenas 250 mil votos a mais, e esta taxa de crescimento não é nada em comparação com 2022 ou 2024, quando conseguiu passar de 400 mil para 1.300 mil votos. Agora, André Ventura fica como um Bolsonaro Jr", comparou.
Quem é António José Seguro
António José Seguro se apresentou como um candidato da esquerda "moderna e moderada" durante toda a sua campanha. Em 2014, o ex-líder dos socialistas, se afastou dos holofotes políticos após perder a liderança do Partido Socialista para António Costa, o atual presidente do Conselho Europeu, e voltou a dar aulas na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).
Aos 63 anos, o novo presidente de Portugal tem uma imagem a zelar: de político confiável, ponderado e disciplinado. António José Seguro nasceu em Penamacor, perto da Serra da Estrela, mas fez seus estudos em Lisboa: Relações Internacionais e mestrado em Ciências Políticas.
Dos 28 aos 32 anos foi líder da Juventude Socialista e logo depois, entrou para o governo de António Guterres, atual secretário-geral da ONU. Entre 1999 e 2001, Seguro foi deputado do Parlamento Europeu, mas deixou o mandato para assumir a função de ministro de Guterres, em Portugal, até abril de 2022, quando entrou para o Parlamento português e liderou a bancada do Partido Socialista. António Seguro é casado com Margarida Maldonado Freitas e tem dois filhos.
Inundações & votos
O saldo das tempestades dos últimos dias impediu quase 37 mil eleitores de saírem de suas casas para votar, o que representa apenas 0,4% do universo eleitoral no país. Nas áreas muito afetadas - Alcácer do Sal, Arruda dos Vinhos e Golegã - as eleições foram transferidas para o próximo domingo, 15.
Alguns municípios que sofreram com inundações, como Leiria e Santarém, conseguiram alterar os locais de votação e as pessoas se mobilizaram para chegar até as urnas, mesmo em condições muito adversas. Ereira, próximo à Coimbra, foi transformada em uma ilha com a subida dos níveis da água, os acessos pelas estradas foram interrompidos e os moradores tiveram que ir votar de barco.