A Hungria de Orbán: anti-imigração mas dependente de trabalhadores estrangeiros

Hostil à imigração, a Hungria de Viktor Orbán recorre, no entanto, cada vez mais a trabalhadores estrangeiros para manter sua economia funcionando. Uma presença cada vez mais visível e um equilíbrio político delicado fizeram com que o tema fosse relegado a segundo plano na campanha para as eleições legislativas, que acontecem no dia 12 de abril.

8 abr 2026 - 13h47

Aurore Lartigue, enviada especial a Budapeste

Entregadores circulam de bicicleta pelas ruas de Budapeste durante a campanha eleitoral.
Entregadores circulam de bicicleta pelas ruas de Budapeste durante a campanha eleitoral.
Foto: © RFI/Aurore Lartigue, adaptée par le studio graphique de FMM / RFI

Com mochilas térmicas fluorescentes nas costas, os entregadores de bicicleta tomaram as ruas de Budapeste. Como em outras grandes cidades, muitos são estrangeiros, como esse jovem de Bangladesh que trabalha dois ou três dias por semana além de seus estudos de economia. "Sinceramente, estou muito contente", garante ele, mostrando a bateria da bicicleta para relativizar a imagem de um trabalho penoso. "Eu me sinto seguro", acrescenta, mencionando sua experiência na Itália, antes de seguir pedalando ao longo do Danúbio.

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Se essa presença surpreende mais aqui do que em outros lugares, é porque contrasta com a imagem de um país que fez de sua linha anti-imigração um dos pilares do poder de Viktor Orbán. Desde a crise migratória de 2015, o governo húngaro construiu uma das políticas mais restritivas da Europa: barreira na fronteira sul, recusa das cotas europeias e direito de asilo praticamente reduzido a nada, o que lhe vale, desde junho de 2024, uma condenação da justiça europeia ao pagamento de uma multa fixa de € 200 milhões e de uma penalidade de €1 milhão por dia de atraso por não aplicar a política comum da União em matéria de proteção internacional. Nesse meio-tempo, a Comissão Europeia ativou um procedimento que permite deduzir diretamente a multa dos fundos europeus destinados à Hungria, diante da falta de pagamento.

Essa firmeza, erigida como marca registrada pelo poder político e assumida publicamente, contribuiu para a popularidade de Viktor Orbán nas urnas. No entanto, essa questão hoje é muito menos visível no debate político. À medida que se aproximam as eleições legislativas de 12 de abril, a campanha do primeiro-ministro se concentrou na guerra na Ucrânia e nos ataques contra a oposição. A migração, durante muito tempo no centro de seu discurso, foi relegada a segundo plano, como se o tema tivesse se tornado mais delicado justamente no momento em que o país depende cada vez mais de trabalhadores estrangeiros.

Escassez estrutural de mão de obra

Desde 2022, o governo foi obrigado a abrir as portas do país para a imigração de trabalho. Com a abertura do mercado europeu, muitos profissionais húngaros emigraram em massa, principalmente para a Alemanha e Áustria, criando uma escassez de mão de obra duradoura. E, em um país próximo do pleno emprego, com taxa de desemprego em torno de 5%, as empresas têm dificuldade para recrutar.

Além disso, o governo decidiu transformar a indústria de baterias para veículos elétricos na locomotiva de seu desenvolvimento econômico. Sob pressão do setor empresarial, o recurso a trabalhadores estrangeiros tornou-se inevitável. Em poucos anos, o número desses trabalhadores, historicamente baixo, quase dobrou. Já os vistos concedidos a cidadãos de fora da União Europeia foram multiplicados por quase cinco.

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Hoje, seriam mais de 100 mil, segundo dados do Escritório Central de Estatísticas da Hungria. Mesmo que sua proporção permaneça limitada em comparação com países vizinhos, alguns criticam o que consideram um discurso contraditório por parte das autoridades. "Eles pregam água e bebem vinho", resume Tamas Székely, presidente do sindicato VDSZ, a Federação dos Trabalhadores da Química, Energia e Indústrias Diversas.

Para atender a essa demanda, o governo criou um status específico: o de "trabalhador convidado". A estadia desses trabalhadores, vindos em sua maioria da Ásia (Filipinas e Vietnã principalmente), é rigidamente controlada: acesso limitado a certas profissões, impossibilidade de trazer a família, vistos válidos por dois anos (prorrogáveis por mais um) e concedidos apenas a empresas consideradas estratégicas pelo governo ou a agências especialmente autorizadas. Um sistema que exclui qualquer possibilidade de instalação ou integração.

"Assim que os estrangeiros se tornam visíveis, vira um tema político"

"Na Samsung, mais da metade dos funcionários são trabalhadores convidados", afirma o sindicalista Tamas Székely. Essa estimativa não pode ser verificada de forma independente, já que as empresas não publicam dados detalhados. Em Debrecen, onde o grupo chinês CATL está construindo uma gigantesca fábrica, várias fontes já mencionam um uso significativo de mão de obra estrangeira. "Os trabalhadores estrangeiros aceitam tudo, inclusive trabalhar doze horas e fazer horas extras, o que também cria um ponto de comparação dentro das empresas", explica o sindicalista.

O afluxo desses trabalhadores em um país que até então só conhecia imigração europeia não ocorreu sem atritos. "Algumas empresas resolveram a questão separando trabalhadores húngaros e não húngaros, inclusive nas equipes e nos horários, de modo que quase não se encontravam", relata Tamas Székely, mencionando diferenças culturais.

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Em Budapeste, a chegada de muitos entregadores estrangeiros também gerou tensões. Para facilitar a convivência, a associação Menedék criou uma brochura em várias línguas, incluindo urdu e bengali, para explicar as regras de circulação de bicicleta.

Mão de obra é mantida à margem da população local

Na realidade, essa força de trabalho costuma ser mantida afastada dos habitantes locais, alojada em dormitórios ou residências próximas às fábricas e transportada de ônibus. "Há um aspecto muito prático: agrupar os trabalhadores reduz custos. Mas também existe a intenção de limitar contatos, conflitos e visibilidade. Porque, assim que os estrangeiros se tornam visíveis, isso vira imediatamente um tema político", explica Andras Kovacs, presidente da associação Menedék, que presta apoio a migrantes.

Sara Sos, assistente social da ONG, descreve trabalhadores "muito difíceis de alcançar, extremamente isolados", que só procuram ajuda em último caso.

Alguns trabalhadores também precisam pagar taxas elevadas às agências de recrutamento para conseguir esses empregos, valores que eles quitam depois de receber o salário. Eles também servem como variável de ajuste quando as encomendas diminuem. Nenhuma das agências especializadas consultadas aceitou responder às perguntas da reportagem.

"É um sistema muito tóxico, no qual todos dependem uns dos outros. O empregador depende das agências para ter trabalhadores. O trabalhador depende da agência para ter emprego. E a agência depende do trabalhador para ganhar dinheiro. Todos têm medo uns dos outros", lamenta Andras Kovacs.

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Uma contradição política assumida

O discurso político, por sua vez, não mudou. Embora a campanha agora se concentre sobretudo no presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e no risco de guerra, o slogan do Fidesz - o partido de Orbán - continua proclamando: "Pare a migração", em um país onde a presença de trabalhadores estrangeiros nunca foi tão visível.

"O inimigo migratório mira sobretudo aqueles que chegam à fronteira sem documentos, os requerentes de asilo. Aí, não houve mudança alguma: o sistema continua muito rígido", confirma o presidente da Menedék.

É uma contradição assumida, baseada em uma distinção claramente reivindicada pelo governo, como analisa o economista Zoltán Pogátsa: de um lado, os "bons migrantes", aqueles que trabalham e atendem às necessidades da economia; do outro, os "maus", percebidos como um peso para o Estado.

Diante das críticas, a linha é difícil de sustentar entre necessidade econômica e rejeição política. Desde 2025, as cotas foram reduzidas e as condições endurecidas. Apenas alguns países agora podem enviar trabalhadores. "Há dois anos, o governo criou esse status sob pressão econômica. Mas, em poucos meses, diante das críticas políticas, especialmente da extrema direita, recuou e endureceu as regras."

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Para esses trabalhadores, a Hungria muitas vezes se torna apenas uma primeira etapa rumo a outro país da União Europeia.

É um equilíbrio político arriscado, que às vezes beira o absurdo, observa o sindicalista da VDSZ. Ele lembra o caso de uma trabalhadora convidada filipina que se apaixonou, teve um filho com um húngaro, mas foi instruída pela administração a deixar o país, conforme a regulamentação vigente. "Enquanto isso, o governo repete sem parar que a Hungria seria o país mais favorável às famílias do mundo inteiro!", ironiza o sindicalista.

Além disso, embora critique a hipocrisia e a opacidade do sistema atual, o principal opositor evita qualquer mudança de rumo no tema. Em seu programa, Peter Magyar reafirma a manutenção de uma política migratória rígida. Ele afirma até querer prescindir de trabalhadores estrangeiros, trazendo de volta os húngaros que partiram em busca de melhores condições no exterior.

"Esse tipo de propaganda sempre permite vencer eleições e manter o poder", analisa Tamas Székely. "Em 2018, eles venceram com a migração. Nunca se sabe exatamente quem será o inimigo, mas sempre é preciso haver um."

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