Os Estados Unidos voltaram a atacar o Irã durante a madrugada e afirmaram ter atingido alvos militares. Em resposta, Teerã revidou contra aliados de Washington no Golfo e acusou seus adversários de atingir infraestruturas civis para tentar atrapalhar o funeral do aiatolá Ali Khamenei, marcado para esta quinta-feira (9).
Apesar do protocolo de encerramento do conflito assinado em 17 de junho, as novas operações americanas deixaram 14 mortos e 78 feridos no Irã desde quarta‑feira (8), segundo o Ministério da Saúde iraniano. O Irã insiste, apesar da oposição de Washington, em impor taxas de passagem aos navios que cruzam o Estreito de Ormuz, rota essencial para o comércio mundial de petróleo e gás. De acordo com o Exército dos EUA, o país atacou na terça‑feira ao menos três navios comerciais que transitavam pela região.
Donald Trump declarou na plataforma Truth Social que as novas ações militares são "uma resposta aos bombardeios de navios realizados ontem pelo Irã. Se isso acontecer de novo, será muito pior!". O Exército americano informou, na rede X, ter atingido cerca de 90 alvos militares iranianos, incluindo sistemas de defesa antiaérea, instalações de vigilância costeira e depósitos de mísseis e drones no sul do país.
A ligação ferroviária entre Teerã e Mashhad, onde o funeral do ex-aiatolá Ali Khamenei está previsto para começar às 14h (7h30 no horário de Brasília) de quinta‑feira, foi interrompida após os ataques, segundo a TV estatal. A rota também é estratégica para o comércio entre Irã e China, um de seus principais parceiros.
Mais cedo, os Guardiões da Revolução, o Exército ideológico do Irã, acusaram os Estados Unidos de terem atingido "duas pontes nas províncias orientais que levam a Mashhad para ofuscar" as cerimônias fúnebres do líder supremo iraniano, morto em 28 de fevereiro, aos 86 anos, em um ataque aéreo no primeiro dia da guerra iniciada pelos EUA e Israel.
Após seis dias de homenagens em várias cidades do Irã e do Iraque, o corpo do aiatolá chegou a Mashhad em um avião, segundo a agência oficial Irna. Ele será enterrado no mausoléu de Reza, o mais importante local de culto do país.
As autoridades esperam milhões de pessoas para o funeral. O início da cerimônia foi adiado devido ao atraso no traslado do corpo vindo do Iraque. Durante toda a noite, multidões aguardaram nas ruas de Mashhad; alguns carregavam grandes retratos de Khamenei, enquanto outros entoavam cânticos religiosos. Uma faixa pendurada na fachada de um prédio dizia: "Vamos matar Trump". Outra oferecia uma recompensa de US$ 100 milhões por sua morte.
O principal negociador iraniano nas conversas com os Estados Unidos, Mohammad Bagher Ghalibaf, reiterou que o Estreito de Ormuz só permanecerá aberto "segundo as condições definidas pelo Irã, e não sob pressão das ameaças americanas".
'Escalada controlada'
Segundo Alex Vatanka, do Middle East Institute, os iranianos "acreditam que o tempo joga a seu favor. Eles acham que podem resistir mais do que os americanos e os países do Golfo, e apostam nisso". Para Negar Mortazavi, do Center for International Policy, "o Irã considera que uma escalada limitada e controlada pode restabelecer a dissuasão sem ultrapassar o limiar de uma guerra total".
Em resposta, os Guardiões da Revolução e o Exército iraniano voltaram a atacar países do Golfo. A força ideológica da República Islâmica afirmou ter lançado drones e mísseis contra bases americanas em Arifjan e Ali Al‑Salem, no Kuwait, e em Juffair e Sheikh Isa, no Bahrein.
O Exército iraniano também reivindicou ataques no Kuwait, no Bahrein e no Catar, este último, um dos mediadores das negociações de paz, ao lado do Paquistão.
No Kuwait, as forças armadas disseram ter repelido ataques "hostis" com mísseis e drones. No Bahrein, onde várias explosões foram ouvidas por um jornalista da AFP, as autoridades acionaram sirenes de alerta aéreo duas vezes. No Catar, moradores receberam um aviso breve devido a uma ameaça considerada elevada.
Petróleo em alta
Após terem chegado a um entendimento em meados de junho, Washington e Teerã retomaram negociações difíceis para um acordo duradouro. Aos ataques atribuídos ao Irã contra três navios comerciais, os EUA responderam com uma primeira série de bombardeios entre terça e quarta‑feira. Oito militares iranianos morreram, segundo a TV estatal. Teerã afirmou ter retaliado atingindo instalações em bases americanas no Kuwait e no Bahrein.
A troca de ataques fez o preço do petróleo disparar: o barril de Brent, referência internacional, subiu mais 1,1% nesta quinta‑feira, chegando a US$ 78,88.
Com AFP