As eleições de meio de mandato nos EUA colocam em jogo o controle do Congresso e funcionam como referendo sobre o segundo mandato de Donald Trump, em meio à baixa popularidade presidencial, inflação e tensões geopolíticas. Favoritos para retomar a Câmara, os democratas enfrentam disputas acirradas pelo Senado. Trump prometeu cheques de US$ 5 mil e mobilizou fiscais via Departamento de Justiça, gerando acusações de intimidação, enquanto analistas temem contestações dos resultados eleitorais.
Os norte-americanos foram às urnas nesta terça-feira em eleições de meio de mandato que servirão como um veredicto sobre o segundo mandato do presidente Donald Trump, com pesquisas e analistas independentes apontando os democratas como favoritos para tirar dos republicanos o controle da Câmara dos Representantes, enquanto o controle do Senado permanece incerto.
A disputa pelo Senado se desenrola em quase 10 disputas acirradas em todo o país, a maioria em redutos republicanos.
O histórico está contra os republicanos de Trump: o partido do presidente perdeu terreno no Congresso em todas as eleições de meio de mandato desde a Segunda Guerra Mundial, com exceção de duas. O índice de aprovação de Trump oscila perto de seus níveis mais baixos de todos os tempos, prejudicado pela profunda frustração dos eleitores com a guerra contra o Irã e o consequente aumento nos preços dos combustíveis.
Não há dúvida de que a eleição deste ano gira em torno de Trump, que está há quase dois anos em seu segundo mandato. O próprio Trump disse repetidamente a apoiadores para "fingirem que eu estou na cédula", mensagem ecoada pelos líderes democratas com prazer.
Trump destacou, em uma entrevista na televisão na manhã desta terça-feira, o que apresentou como suas conquistas e declarou otimismo em relação a seus correligionários.
Em declarações que pareciam ter como objetivo influenciar eleitores insatisfeitos com o apoio dos EUA a Israel, Trump anunciou a intenção de suspender o financiamento anual prometido de US$3,8 bilhões a Israel após o final deste ano, mas não ficou claro como ele faria isso, já que uma lei de 2020 determina os níveis de financiamento.
A estreita aliança entre os EUA e Israel tem sido um foco especial em Michigan, onde o democrata progressista Abdul El-Sayed conduz uma campanha para o Senado que é acompanhada de perto.
O presidente tem buscado mobilizar sua base com mais de duas dúzias de comícios de campanha desde o início de outubro, a maioria em Estados onde venceu com facilidade em 2024. Ele também ofereceu um incentivo inédito: a proposta de um cheque de US$5.000 para cada adulto norte-americano caso os republicanos mantenham o controle do Congresso, que teria de aprovar esse pagamento.
Liderados por Trump, os republicanos têm retratado os candidatos democratas como radicais, antiamericanos e até mesmo comunistas.
Mas as pesquisas de opinião mostram que os eleitores estão mais preocupados com o custo de vida e desaprovam a forma como Trump tem lidado com essa questão. Suas amplas tarifas sobre importações, muitas delas consideradas ilegais pela Justiça, e sua decisão de atacar o Irã em fevereiro elevaram os preços para os consumidores. Enquanto isso, candidatos republicanos têm tido dificuldades para se distanciar de um presidente que exige lealdade e raramente admite erros.
Em um centro de votação em um bairro predominantemente negro no noroeste de Detroit, Natalia Towns, de 34 anos, disse não considerar sinceros os esforços de Mike Rogers, candidato republicano ao Senado, para conquistar os eleitores negros, e sentia que El-Sayed deve fazer mais para reduzir os custos.
"Eu realmente sinto que a saúde é importante, os preços da gasolina estão altos, os alimentos estão muito caros", disse.
TRUMP ENVIA OBSERVADORES ELEITORAIS
Observadores jurídicos e democratas alertaram que Trump, que há muito tempo alega falsamente que as eleições nos EUA são fraudadas, pode tentar contestar os resultados desta terça-feira caso os republicanos percam.
O Departamento de Justiça (DOJ) dos EUA informou nesta terça-feira que estava mobilizando 1.000 monitores e observadores eleitorais para todos os 50 Estados, no que chamou de a maior iniciativa de monitoramento do dia da eleição da história.
Os democratas criticaram o plano, considerando-o uma potencial forma de intimidação aos eleitores. Em cerca de dois terços das jurisdições listadas pelo departamento, os eleitores apoiaram a democrata Kamala Harris em vez de Trump na eleição presidencial de 2024, segundo uma análise da Reuters.
Todas as 435 cadeiras da Câmara dos Deputados dos EUA estão em jogo, juntamente com 35 das 100 cadeiras do Senado, embora a maioria das disputas não seja considerada acirrada.
Os democratas têm pouca margem para erros. O partido precisa defender todas as suas cadeiras atuais e, ao mesmo tempo, conquistar pelo menos dois Estados que votaram em Trump por uma margem de dois dígitos há dois anos: Alasca, Iowa, Kansas, Nebraska, Ohio, Carolina do Sul e Texas.
As pesquisas de opinião mostram que os democratas estão com uma vantagem estreita ou a uma distância mínima nesses estados.
A disputa pelo Senado em Michigan entre El-Sayed, de 42 anos, e Rogers, de 63, representa um teste de grande visibilidade para verificar se os ataques dos republicanos com base na identidade -- El-Sayed seria o primeiro senador muçulmano do país -- se mostram eficazes em um Estado decisivo.
Uma vitória de El-Sayed, que enfrentou gastos de milhões de dólares por parte de grupos ligados a Israel e defende políticas como o sistema universal de saúde, também seria vista como um impulso para a ala esquerda do Partido Democrata antes da eleição presidencial de 2028.
Sandra Riley, uma moradora de Detroit de 60 anos que usava uma camiseta com a imagem de John Lewis, ícone dos direitos civis, disse que apoiar El-Sayed era um voto no "menor dos dois males", embora tivesse prestado atenção às preocupações de alguns líderes judeus sobre as críticas contundentes de El-Sayed à ocupação militar de Israel nos territórios palestinos e à guerra em Gaza.
"De jeito nenhum o Mike Rogers fala em nome da população negra da cidade de Detroit, que é onde eu moro", disse Riley. "Ele tem outros interesses, então votei no Abdul El-Sayed."
A disputa pelo Senado no Alasca entrou em turbulência após o New York Times noticiar que a campanha da candidata democrata Mary Peltola, de 53 anos, ajudou a recrutar um terceiro candidato que tem o mesmo nome e sobrenome de seu adversário republicano, Dan Sullivan, de 61 anos.
Peltola negou qualquer envolvimento. O Departamento de Justiça de Trump iniciou uma investigação criminal sobre as alegações e entrou com uma ação judicial para impedir a certificação dos resultados eleitorais, embora a Justiça tenha indeferido essa última medida.
Além de ações no Alasca, o Departamento de Justiça de Trump entrou com uma ação na Califórnia para bloquear cédulas que, segundo ele, podem ser inválidas -- um rompimento com décadas de prática destinada a proteger as eleições de interferência política. A Suprema Corte dos EUA rejeitou rapidamente o pedido do governo por uma liminar no caso.
No Texas, o candidato democrata ao Senado James Talarico, de 37 anos, fez com que seu partido voltasse a sonhar em vencer no maior Estado de tradição republicana após décadas de decepções. Seu adversário, o procurador-geral republicano Ken Paxton, de 63 anos, envolvido em escândalos, beneficiou-se de centenas de milhões doados em seu nome pelo homem mais rico do mundo, Elon Musk, que gastou pesadamente para impulsionar os republicanos.
Há 47 disputas pela Câmara dos Deputados dos EUA amplamente consideradas acirradas, de acordo com uma análise da Reuters com base nas principais previsões eleitorais. Se todas as outras disputas ocorrerem conforme previsto, os democratas precisariam vencer apenas 13 dessas disputas para garantir a maioria.