A surpresa não se limitou ao revólver personalizado. Ao abrir a caixa vermelha com revestimento preto entregue pelo presidente turco, os líderes encontraram também seis balas reais e um documento informando que a arma estava isenta dos controles de exportação, um detalhe que contrastou com as dificuldades enfrentadas posteriormente para transportar o presente para fora da Turquia.
A revelação foi feita pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, durante o voo de retorno de Ancara, onde os chefes de Estado e de governo da Otan estiveram reunidos durante dois dias. Segundo ele, o revólver, identificado pela imprensa como um Magnum 357, trazia o nome de cada destinatário gravado na arma.
Em alguns casos, o presente desencadeou imediatamente procedimentos de segurança. O gabinete do primeiro-ministro belga, Bart De Wever, informou que ele entregou sua arma à polícia aeroportuária para que fosse guardada em um cofre e tratada de acordo com a legislação vigente. As equipes de segurança belgas também assumiram a custódia dos revólveres recebidos pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa.
Por meio de um porta-voz, Von der Leyen declarou ter agradecido o gesto de Erdogan, mas pretende doar a arma a um museu militar após sua inutilização. Outros exemplares, como os destinados a Starmer e ao chanceler alemão Friedrich Merz, permaneciam na capital turca devido às restrições que regulam o transporte internacional de armas de fogo operacionais.
O Magnum oferecido ao presidente polonês, Karol Nawrocki, chegou ao destino sem incidentes, mas cercado de precauções. A prudência tinha uma explicação: em dezembro de 2022, o então chefe da polícia polonesa trouxe da Ucrânia um lançador de granadas recebido como presente. A arma explodiu posteriormente em seu gabinete, ferindo-o levemente e causando danos consideráveis à sede da corporação em Varsóvia.
Desta vez, não há risco de um incidente semelhante. "É certo que ninguém vai dispará-lo", afirmou à imprensa local um integrante da equipe de Nawrocki.
O Palácio do Eliseu não comentou o presente recebido pelo presidente Emmanuel Macron.
Procurada pela AFP, a presidência turca não respondeu aos pedidos de esclarecimento sobre a escolha do presente.
O Boeing do Catar
O episódio ocorreu apenas um dia após outro presente recebido por um líder da Otan dominar as conversas nos corredores da cúpula.
Na quarta-feira (8), o presidente americano Donald Trump anunciou que não utilizaria para retornar a Washington o Boeing 747 oferecido pelo Catar e adaptado para servir como novo Air Force One. Embora tenha chegado a Ancara a bordo da aeronave, ele decidiu voltar aos Estados Unidos em outro avião presidencial.
"Ele voará pela Europa, passando por duas ou três grandes bases militares, onde poderemos mostrá-lo ao povo. É realmente magnífico", declarou Trump, sem detalhar os motivos da mudança de planos.
Segundo o jornal The New York Times, a decisão foi tomada após recomendações do Serviço Secreto americano, responsável pela proteção do presidente. A aeronave, originalmente pertencente ao governo do Catar, não contaria com todos os sistemas de segurança e comunicação presentes no Air Force One tradicional.
Avaliado em centenas de milhões de dólares, o Boeing também levantou questionamentos sobre os limites dos presentes recebidos por chefes de Estado de governos estrangeiros. Além das implicações diplomáticas, especialistas e autoridades americanas manifestaram preocupações relacionadas à segurança de uma aeronave destinada a transportar o presidente dos Estados Unidos em missões oficiais.
Já os revólveres distribuídos por Erdogan continuavam gerando dificuldades práticas.
Com AFP