'Dama de ferro': premiê conservadora do Japão pode ampliar poder em eleições antecipadas

Os japoneses votam neste domingo (8) em eleições legislativas antecipadas que devem confirmar o Partido Liberal Democrata da primeira-ministra Sanae Takaichi, defensora de posições ultraconservadoras e de uma linha dura em relação à imigração.

7 fev 2026 - 16h50
(atualizado às 17h08)

Impulsionada por um início de governo marcado por alta popularidade, a líder nacionalista, primeira mulher a comandar o país, prometeu neste sábado (7), durante um comício em Tóquio diante de milhares de apoiadores, "tornar o Japão mais próspero e mais seguro".

Foto de Sanae Takaichi exibida em um veículo de seu partido.
Foto de Sanae Takaichi exibida em um veículo de seu partido.
Foto: AFP - YUICHI YAMAZAKI / RFI

Grande admiradora de Margaret Thatcher, ela se comprometeu a "acionar o botão do crescimento" no Japão. Sobre a imigração, afirmou que os critérios "já se tornaram um pouco mais rigorosos, para impedir que terroristas e também espiões industriais entrem facilmente no país".

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Em 19 de janeiro, a primeira-ministra anunciou a dissolução do Parlamento e lançou em seguida uma campanha eleitoral histórica de apenas 16 dias. Apoiada por índices de aprovação muito favoráveis, ela transformou a votação em um teste pessoal e interpelou diretamente os eleitores: "Takaichi está apta a ser primeira-ministra? Quis deixar o povo soberano decidir".

Para esta eleição, a dirigente de 64 anos aposta em seu bom desempenho nas pesquisas para aumentar o número de cadeiras do PLD, partido de direita nacionalista que ela lidera desde o outono, enquanto a coalizão governista mantém uma maioria apertada no Parlamento.

Embora tenha registrado leve queda nas últimas semanas, seu governo ainda conta com taxas de aprovação próximas de 70%, muito superiores às de administrações anteriores. No poder desde outubro, ela está perto de alcançar seu objetivo e devolver uma maioria confortável ao PLD, segundo analistas políticos.

Entre os japoneses, especialmente os mais jovens, Takaichi tem uma imagem bastante positiva, chegando a se tornar um ícone de moda e um fenômeno nas redes sociais. Pesquisas realizadas antes da votação indicam, com cautela devido ao grande número de indecisos, que o PLD deve superar com facilidade as 233 cadeiras necessárias para recuperar a maioria.

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A coalizão governista, formada pelo PLD e pelo Japan Innovation Party (JIP), pode até ultrapassar a marca de 300 assentos dos 465 em disputa. Já a nova Aliança Reformista de centro, que reúne o principal partido de oposição, o Partido Democrata Constitucional, e o antigo aliado do PLD, o Komeito, corre o risco de perder metade de suas atuais 167 cadeiras.

Um discurso fácil de entender

O tom firme adotado por Takaichi sobre a imigração parece, por enquanto, ter neutralizado o avanço do partido populista Sanseito, centrado no slogan "os japoneses em primeiro lugar". "As palavras que ela usa são fáceis de entender", explica Mikitaka Masuyama, professor de política japonesa no Instituto Nacional de Estudos Políticos. Seu antecessor, Shigeru Ishiba, "tinha muitas ideias, mas falava como um acadêmico".

Além da figura da premiê, o tema central desta campanha foi principalmente o bolso dos japoneses. "A atenção do público durante a campanha eleitoral parece concentrada quase exclusivamente nas questões de inflação", que permanece acima de 2% há quase três anos, afirmou à Hiroshi Shiratori, professor de ciências políticas da Universidade Hosei. "Uma vitória expressiva do PLD equivaleria a dar ao partido um mandato para continuar essas políticas", acrescentou.

As medidas econômicas de Takaichi, incluindo um plano de estímulo de 135 bilhões de dólares, despertaram preocupação entre investidores. A chefe de governo, a quinta a ocupar o cargo em cinco anos, prometeu isentar alimentos da taxa de consumo de 8% para reduzir o impacto da inflação sobre as famílias.

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Uma "dama de ferro" no comando do país

Sanae Takaichi, que se tornou em outubro a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Japão antes de convocar eleições antecipadas, adota posições ultranacionalistas e um conservadorismo distante das pautas feministas.

Durante a campanha relâmpago, sua postura dura em relação à China, a fama de trabalhadora incansável, sua habilidade política e até sua inesperada imagem de ex-baterista de heavy metal contribuíram para altos níveis de popularidade, especialmente entre os jovens.

Com a dissolução do Parlamento, ela aposta novamente em boas pesquisas para fortalecer o PLD, já que a coalizão que governa o país possui maioria mínima. Uma vitória clara permitiria colocar em prática seu programa ambicioso de reforço da defesa nacional e de apoio à economia.

Takaichi assumiu o poder em um momento difícil para o partido, afetado por inflação persistente, um recente escândalo de financiamento irregular e o crescimento do partido anti-imigração Sanseito. Fiel à sua reputação, adotou desde o início um discurso rígido sobre imigração e não hesitou em confrontar a China.

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Em novembro, diante do Parlamento, sugeriu que o Japão poderia intervir militarmente caso Pequim atacasse Taiwan, ilha cuja soberania é reivindicada pelo governo chinês.

Do heavy metal à política internacional

Essas declarações provocaram forte reação de Pequim, que desaconselhou viagens de seus cidadãos ao Japão, endureceu controles comerciais e realizou manobras militares conjuntas com a Rússia. Antes de se tornar primeira-ministra, Takaichi já havia sido uma crítica contundente do aumento do poder militar chinês na região da Ásia-Pacífico.

Apesar do perfil combativo, ela também mostra um lado diferente: foi baterista em uma banda de heavy metal na universidade e recentemente apareceu tocando músicas de K-pop ao lado do presidente sul-coreano Lee Jae Myung, em vídeos que viralizaram nas redes.

Seguindo os passos de seu mentor, o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, assassinado em 2022, Takaichi buscou desde o início uma relação próxima com o presidente norte-americano Donald Trump, a quem recebeu com grande destaque em Tóquio e presenteou com um taco de golfe que pertenceu a Abe.

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Trabalhar "sem parar"

Embora veja Margaret Thatcher como modelo político, Takaichi demonstra pouco interesse em enfrentar normas patriarcais. Suas posições sobre questões de gênero a colocam ainda mais à direita dentro de um PLD já conservador. Ela se opõe, por exemplo, à revisão de uma lei do século XIX que exige que casais adotem o mesmo sobrenome após o casamento.

Prometeu formar um governo com participação feminina em nível "escandinavo", mas acabou nomeando apenas duas mulheres entre 19 ministros. Defende política monetária agressiva e elevados gastos públicos para combater a inflação, retomando as chamadas "Abenomics". Em outubro, afirmou: "Vou trabalhar, trabalhar e trabalhar". Em novembro, revelou dormir apenas de duas a quatro horas por noite e organizou uma reunião de equipe às três da manhã para preparar uma sessão parlamentar.

O apoio de Trump

Na semana passada, ela também gerou debate ao elogiar as vantagens de um iene fraco, enquanto seu ministro das Finanças reafirmava que o governo poderia intervir para sustentar a moeda. "Acionar o botão do crescimento é a missão do gabinete Takaichi. O Japão se tornará cada vez mais próspero e seguro", declarou no sábado em Tóquio.

As relações com a China continuam sendo um ponto sensível. Logo após assumir o cargo, suas declarações sobre Taiwan provocaram uma séria crise diplomática entre as duas potências asiáticas.

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Na sexta-feira, a premiê recebeu um apoio importante: o do presidente americano. "Os resultados são muito importantes para o futuro do país. A primeira-ministra Takaichi já provou ser uma líder sólida, poderosa e sábia", escreveu Donald Trump na rede Truth Social, acrescentando que espera recebê-la na Casa Branca em 19 de março. Um apoio que pode ajudar a convencer eleitores ainda indecisos.

Com AFP

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