Nas eleições legislativas, o Partido Democrata conquistou vitórias expressivas em redutos rurais republicanos como Iowa, Kansas e Wisconsin. O avanço resultou de uma estratégia de longo prazo focada no trabalho de base, com visitas porta a porta e investimentos fora dos estados decisivos tradicionais. O resultado também refletiu a insatisfação popular com Donald Trump, penalizado pelo impacto de tarifas econômicas globais e pela alta dos combustíveis decorrente da guerra contra o Irã.
Um evento de arrecadação de fundos do Partido Democrata no condado de Warren, em Iowa, em outubro de 2025, estava tão lotado que o presidente local do partido, Jim Culbert, acabou tendo que pedir pizza depois que a comida acabou.
"Se não tivermos comida suficiente, esse é um problema bom", lembrou de ter dito aos voluntários.
A grande participação deu um primeiro indício do crescente entusiasmo democrata nas áreas rurais dos Estados Unidos -- tradicionalmente um reduto do Partido Republicano, do presidente Donald Trump. Um ano depois, isso ajudaria a impulsionar os democratas a vitórias esmagadoras nas eleições de meio de mandato de terça-feira.
Os democratas conquistaram cadeiras na Câmara, no Senado e nos governos estaduais em redutos republicanos rurais, incluindo Iowa, Kansas, Texas e Wisconsin, onde agricultores e outros setores foram duramente atingidos pela campanha de tarifas globais de Trump e pelos altos preços dos combustíveis causados pela guerra com o Irã.
As vitórias vieram após um esforço democrata de anos para competir de forma mais agressiva nas comunidades rurais, onde o partido vinha cedendo terreno de forma constante aos republicanos, de acordo com entrevistas com 16 candidatos democratas, equipes de campanha e especialistas e estrategistas políticos.
Estrategistas democratas afirmaram que essa iniciativa fazia parte de um esforço mais amplo do Comitê Nacional Democrata (DNC) para disputar eleições em locais que o partido há muito negligenciava. Em vez de concentrar recursos em um punhado de estados decisivos, o DNC investiu em todos os partidos estaduais e se empenhou em apresentar candidatos em todas as disputas, disseram eles.
"Muitas pessoas nas áreas rurais dos Estados Unidos se sentem deixadas para trás porque (os democratas) não têm aparecido para conversar com a população", disse a democrata Rebecca Cooke, que derrotou o candidato republicano em exercício e conquistou o terceiro distrito congressional de Wisconsin na terça-feira. Agora, disse à Reuters, "não há comunidade pequena demais" para ser visitada.
A questão agora é se os democratas conseguirão manter seus ganhos até o ciclo eleitoral presidencial de 2028. A eleição de terça-feira foi amplamente vista como uma repreensão a Trump, e não como um apoio ao Partido Democrata.
Os republicanos ainda venceram disputas na terça-feira em estados rurais, incluindo Arkansas, Oklahoma e Nebraska. E a história mostra que as chamadas "eleições de onda", dominadas por um único partido, não se traduzem necessariamente em uma vitória presidencial para o mesmo partido dois anos depois.
Para tornar seus ganhos duradouros, os democratas precisarão manter sua estratégia eleitoral abrangente, continuando a investir tempo e dinheiro em comunidades rurais e outras áreas onde conseguiram avançar, disseram três estrategistas democratas à Reuters.
"Essa foi, em essência, uma rejeição à forma como o partido vinha atuando nos últimos anos, que era esse foco em seis ou sete Estados", disse Simon Rosenberg, estrategista democrata. "Tínhamos atuado em um mapa muito restrito -- restrito demais."
Os norte-americanos das áreas rurais vinham se voltado cada vez mais para o Partido Republicano nos últimos 25 anos, de acordo com o Pew Research Center, impulsionados por divergências com os democratas sobre questões culturais e políticas econômicas.
Na Casa Branca, nesta quarta-feira, Trump reconheceu que a guerra no Irã contribuiu para as derrotas de seu partido nas eleições de meio de mandato, mas ainda assim avaliou que a guerra valeu a pena.
O Comitê Nacional Republicano não respondeu imediatamente aos pedidos de comentários sobre as derrotas do partido nos Estados rurais.
APARECENDO
Durante 11 meses, todas as semanas, no que ela chamou de "Terça-feira das Pequenas Cidades", a candidata democrata à Câmara dos Deputados por Iowa, Christina Bohannan, concentrou-se em fazer campanha em cidades rurais. Sua equipe ouvia regularmente dos moradores que nenhuma campanha política jamais havia entrado em contato com eles antes, disse o coordenador de campanha Dan Driscoll em um email. Bohannan conquistou o primeiro distrito congressional do Estado.
Para sua campanha em Wisconsin, Cooke disse que contratou quatro organizadores regionais de campo e bateu em 54 mil portas, muitas delas em áreas rurais, além das que foram visitadas pelo Partido Democrata em todo o estado.
Cooke, Bohannan e outros candidatos democratas em distritos rurais buscaram capitalizar sobre o declínio no apoio a Trump. A aprovação do presidente nas áreas rurais caiu para um novo mínimo em outubro, de 45%, ante 60% no início de seu mandato, de acordo com a pesquisa Reuters/Ipsos.
Em mais de 1.500 condados rurais onde quase todos os votos haviam sido contados nesta quarta-feira, os candidatos republicanos apresentavam, coletivamente, um desempenho 8 pontos percentuais abaixo da participação de Trump nas eleições de 2024, de acordo com os totais de votos compilados pela Reuters e pelo USA Today, que estão trabalhando em parceria neste ano para coletar resultados eleitorais em tempo real para as disputas pelo Senado e pela Câmara dos Deputados dos EUA.
O Comitê Democrata de Campanha para o Congresso (DCCC) afirmou que também implementou, pela primeira vez, um programa para mobilizar eleitores rurais.
"Esse trabalho de base e o compromisso de estar presente e ouvir são uma das muitas razões pelas quais os democratas ampliaram seu alcance para cadeiras que Trump venceu por dois dígitos", disse a porta-voz do DCCC, Katie Smith, em comunicado à Reuters.
MAIOR COORDENAÇÃO
Em Iowa, os candidatos democratas se uniram para a primeira campanha coordenada do Estado desde 2018, disse Frances Patano, que liderou a iniciativa pelo Partido Democrata local. Candidatos puderam contribuir para um esforço organizacional conjunto que economizou custos e impulsionou campanhas de menor visibilidade.
"Ao coordenar, é possível conduzir um programa de campo muito mais eficiente, pois não se está competindo" pelo mesmo grupo de organizadores, disse Patano.
Nos dois primeiros fins de semana de outubro, a campanha estadual quase dobrou o número de visitas porta a porta em comparação com as eleições intermediárias de 2018, disse Patano.
No condado rural de Warren, o programa coordenado financiou um funcionário que liderava seis turnos de campanha porta a porta todos os fins de semana a partir do escritório do partido no condado.
Essa capacidade adicional impulsionou a participação dos voluntários. Depois de anos organizando os mesmos democratas locais para o voluntariado, Culbert disse que olhava para uma lista de voluntários para visitas porta a porta e pensava: "Bem, não conheço metade desses nomes."
ANOS DE PREPARAÇÃO
No Kansas, os esforços para eleger Adam Hamilton, o primeiro senador democrata eleito pelo Estado em quase um século, começaram há quatro anos.
Quando Jeanna Repass assumiu a presidência do Partido Democrata do Kansas em 2022, ela sabia que o partido precisaria conquistar terreno em um Estado predominantemente rural, onde Trump venceu por uma margem de dois dígitos em 2016 e 2020. Ela contratou um organizador em tempo integral e aumentou o número de seções municipais do partido de 57 para 68.
Esse esforço "nos ajudou a despertar o entusiasmo das pessoas e a organizá-las", disse Repass.
Neste ano, o partido bateu em cerca de 50% mais portas do que nas eleições intermediárias de 2022, disse Repass. Notavelmente, alguns voluntários eram independentes ou republicanos que haviam votado em Trump anteriormente, acrescentou ela.
Essa estratégia rendeu frutos para Hamilton na terça-feira, especialmente no condado de Seward, onde cerca de metade dos eleitores qualificados são hispânicos. Hamilton venceu por 13 pontos em Seward, uma mudança dramática em relação a 2024, quando Trump venceu no condado por 39 pontos.
"Não somos uma região ignorada", disse Hamilton em seu discurso de vitória na madrugada de terça-feira, sob aplausos. "Somos o coração dos Estados Unidos."