Cisjordânia vive pior crise econômica em décadas, agravada por bloqueio fiscal de Israel e queda do turismo

A queda das receitas, as retenções de impostos por Israel e o colapso do turismo mergulharam a Cisjordânia em uma profunda recessão. Os salários dos funcionários públicos foram reduzidos, o consumo despencou e vários setores-chave estão paralisados. Segundo diversos relatórios, a situação ameaça agora o próprio funcionamento das instituições da Autoridade Palestina.

2 jan 2026 - 11h51

Alice Froussard, correspondente da RFI em Jerusalém 

Devido à falta de turistas, muitas lojas de souvenirs em frente à Basílica da Natividade, na Cisjordânia, fecharam as portas.
Devido à falta de turistas, muitas lojas de souvenirs em frente à Basílica da Natividade, na Cisjordânia, fecharam as portas.
Foto: © Pierre Olivier / RFI / RFI

Na Cisjordânia ocupada, a economia atinge seu nível mais baixo desde a criação da Autoridade Palestina, em 1994. É o que indica um estudo do Escritório Palestino de Estatísticas (PCBS) e da Autoridade Monetária Palestina (PMA).  

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Se o PIB de Gaza caiu 84% em 2025 em relação a 2023, na Cisjordânia ocupada houve retração de 14% no mesmo período.

De acordo com especialistas palestinos, a economia chegou a um ponto tão crítico que isso pode ameaçar a continuidade das instituições estatais e sua capacidade de cumprir funções básicas. 

Receitas fiscais bloqueadas, consumo em queda

Além disso, as dívidas se acumulam. Israel arrecada para a Autoridade Palestina os impostos sobre importações destinadas aos territórios palestinos, mas retém regularmente parte desses fundos, usando-os como instrumento político. Mohammed al-Amour, ministro palestino da Economia, fala em "punição coletiva".

Ele acusa Israel de reter US$ 4,5 bilhões em receitas fiscais palestinas. O problema é que, como essas receitas representam a maior parte da arrecadação, a Autoridade Palestina está em um impasse. 

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Os atrasos frequentes no pagamento dos salários dos funcionários reduziram o poder de compra das famílias e acentuaram a contração do consumo interno. A situação é tão grave que alguns já falam em "naufrágio programado".  

Todos esses dados coincidem com um relatório recente da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (CNUCED), que conclui que a economia palestina regrediu a níveis inéditos nos últimos 22 anos. 

Perspectivas incertas 

Os números revelam um colapso quase generalizado: o setor da construção recuou 41%, a indústria e a agricultura 29%, e o comércio atacadista e varejista 24%. Mas o turismo é o mais afetado.  

Em contato com a RFI, o Ministério do Turismo palestino informou que, desde outubro de 2023, as perdas diárias ultrapassam US$ 2 milhões.

A taxa de ocupação dos hotéis caiu mais de 84%, e lojas de souvenirs e restaurantes que recebiam grupos estão vazios. Crises sucessivas agravaram o quadro: a pandemia de coronavírus, prolongada pelo fechamento das fronteiras, e a guerra em Gaza. 

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Sem a restituição das receitas, o declínio tende a ser progressivo e contínuo. Para evitar o colapso, outro cenário possível seria uma intervenção internacional ou um apoio condicionado a reformas políticas e financeiras, incluindo medidas anticorrupção. A questão, por ora, é saber por quanto tempo esse sistema conseguirá resistir nessas condições.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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