Após ameaçar intervir no Irã, Trump baixa o tom; Conselho de Segurança se reúne nesta quinta

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou nesta quarta-feira (14) que "os assassinatos" no Irã "chegaram ao fim", após a violenta repressão às manifestações, e disse que Washington acompanharia de perto a situação. Segundo ele, citando fontes "importantes", não há planos de execução de manifestantes. Ao ser questionado sobre uma possível intervenção militar americana no país, Trump deixou a questão em aberto. "Vamos observar e ver o que acontece", afirmou durante um evento na Casa Branca.

15 jan 2026 - 08h10

Com Siavosh Ghazi, correspondente da RFI em Teerã, e Nicolas Falez, da redação da RFI em Paris

Pedestres diante de uma faixa com a imagem do guia supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, e do ex-líder Khomeini, na Praça da Revolução, em Teerã, nesta quarta.
Pedestres diante de uma faixa com a imagem do guia supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, e do ex-líder Khomeini, na Praça da Revolução, em Teerã, nesta quarta.
Foto: © AFP/Atta Kenare / RFI

O presidente americano ameaçou várias vezes intervir no país para pôr fim à repressão do movimento de contestação, um dos mais importantes desde a proclamação da República Islâmica em 1979. Em resposta, o Irã está pronto para reagir "de forma decisiva" a qualquer ataque, disse o chefe dos Guardiões da Revolução, Mohammad Pakpour.

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O Conselho de Segurança da ONU deve se reunir nesta quinta-feira (15), a pedido dos Estados Unidos, para discutir a situação no país. Em entrevista à emissora americana Fox News, o ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, afirmou que não haveria "nenhuma execução" na quarta ou quinta-feira.

"Todo indivíduo presente nas ruas desde 8 de janeiro é considerado um criminoso", declarou o ministro da Justiça, Amin Hossein Rahimi, à imprensa nesta quarta. Em Teerã, o Judiciário prometeu julgamentos "rápidos" e "públicos". "Toda a sociedade pode esperar manifestações, mas não toleraremos violência", insistiu na quarta-feira um representante do governo, afirmando que não houve novos "distúrbios" desde segunda-feira.

Segundo a ONG Hengaw, com sede na Noruega, a execução de Erfan Soltani, um iraniano de 26 anos preso durante as manifestações, prevista para quarta-feira, foi adiada, mas sua vida continua em perigo.

O Irã nega que Erfan, detido no sábado, possa ser executado. Ele está preso na penitenciária de Karaj, perto de Teerã, e é acusado de participar de reuniões contra a segurança nacional e de propaganda contra o sistema. "Se for considerado culpado, será condenado a uma pena de prisão, pois a lei não prevê pena de morte para essas acusações", acrescentou a agência do Judiciário, Mizan Online.

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Acusações de repressão brutal

Defensores dos direitos humanos acusam o Irã de repressão brutal aos protestos, que por esse motivo têm perdido força nos últimos dias. O país, que tem cerca de 86 milhões de habitantes, está desconectado da internet há quase uma semana por decisão das autoridades.

Segundo o último balanço da ONG Iran Human Rights (IHR), também sediada na Noruega, pelo menos 3.428 manifestantes foram mortos desde o início do movimento, em 28 de dezembro. "Esse número é um mínimo absoluto", alerta a organização, que estima 10 mil prisões.

"O Irã nunca viu um nível de destruição como este", declarou mais cedo o chefe do Estado-Maior do Exército, Abdolrahim Moussavi, em referência aos "atos de violência" durante as manifestações. As autoridades não forneceram um balanço oficial até agora e alegam que a identificação das vítimas ainda não acabou.

A Anistia Internacional pede uma ação internacional para pôr fim à repressão no Irã, que a ONG qualifica como "massacre".

"As forças iranianas estão emboscadas nas ruas, nos telhados, nos prédios, nas mesquitas, nas delegacias. E, de onde estão, atiram em todas as pessoas que passam na rua, sem que haja qualquer ameaça para ninguém. É realmente matar pessoas por matar", declarou Anne Savinel-Barras, presidente da Anistia Internacional França.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas se reunirá na quinta-feira para "uma reunião sobre a situação no Irã", anunciou um porta-voz da presidência somali. Segundo ele, a reunião será realizada a pedido dos Estados Unidos.

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'País está calmo'

Após um pico de manifestações no fim da semana passada, as autoridades tentaram retomar o controle das ruas organizando uma "marcha de resistência nacional" e os funerais de mais de 100 membros das forças de segurança e outros "mártires" mortos.

Segundo Abbas Araghchi, "o país está calmo" e as autoridades têm "controle total" da situação. Embora o chanceler tenha dito que Teerã está aberto à diplomacia, outros dirigente endureceream o tom contra os EUA e Israel.

Na manhã desta quinta-feira, as ruas permaneceram tranquilas e não houve novos protestos, mas a tensão é palpável e os iranianos estão muito revoltados com a repressão aos manifestantes.

Nesse contexto de tensão, o Catar anunciou a saída parcial da base americana de Al-Udeid, a maior do Oriente Médio. Paralelamente, o Reino Unido anunciou o fechamento temporário de sua embaixada em Teerã, e Espanha e Índia pediram que seus cidadãos deixem o Irã. A repressão pode ser "a mais violenta" da história contemporânea do país, lamentou na quarta-feira o ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot.

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Preço do petróleo despenca 3% após declarações de Trump sobre o Irã

Os preços do petróleo caíram mais de 3% nesta quinta-feira (15), após declarações do presidente americano Donald Trump assegurando que os "assassinatos" no Irã "chegaram ao fim" e sinalizando cautela quanto a uma intervenção militar dos EUA. Nesta manhã, o barril de WTI norte-americano chegou a recuar 3%, a US$60,16, e o Brent do Mar do Norte caiu 2,87%, a US$64,61.

Nos últimos dias, os preços do petróleo haviam disparado, atingindo na quarta-feira o maior nível de fechamento em três meses, devido à escalada das tensões no Irã, abalado por um levante popular violentamente reprimido, e às ameaças de Washington contra Teerã. Mas o mercado despencou logo no início das negociações asiáticas após as declarações de Trump.

*Com agências

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