Venezuelanos tentam retomar o cotidiano após terremotos que agravaram a crise econômica no país

Após o duplo terremoto de 24 de junho, que causou milhares de mortes e destruição na Venezuela, a população tenta retomar a rotina de trabalho. O desastre representa mais um golpe para a economia de uma nação já mergulhada em uma grave crise. Enquanto as equipes internacionais de resgate se preparam para deixar o país, moradores continuam procurando vítimas com os próprios recursos. Nesta terça-feira (7), o governo interino anunciou a volta "em breve" dos voos comerciais em Caracas.

7 jul 2026 - 12h01

Com informações de Mélissa Barra e Jad El Khoury, correspondentes da RFI em Caracas e AFP

Em Caracas, os danos aos imóveis obrigam os moradores a fazer escolhas difíceis. Embora o Estado assuma, em alguns casos, grandes obras de reparação, os custos dos consertos menores recaem sobre os proprietários, em um país sufocado pela hiperinflação.

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Gaetano Tancredi, garçom em um restaurante de Caracas, tenta retomar a normalidade. Após o duplo terremoto, ele enfrenta uma nova preocupação financeira: como custear os reparos em sua residência.

"Os azulejos se soltaram na cozinha e no banheiro", conta Gaetano à RFI. "Uma parede precisa de novo reboco. Engenheiros nos informaram que duas colunas do prédio precisam de reforço. Isso vai custar entre US$ 7 mil e US$ 8 mil (cerca de R$ 38 mil a R$ 43 mil)", detalha. Ele trabalha desde os 20 anos e, hoje, aos 80, não cogita se aposentar. O benefício que recebe não seria suficiente para garantir seu sustento.

Na Venezuela, o custo da cesta básica mensal é estimado em US$ 770 (cerca de R$ 4,2 mil), valor equivalente a três vezes o salário médio do país.

Especialistas da equipe de restauração da Universidade Central da Venezuela avaliam os danos aos murais da Cidade Universitária de Caracas em 2 de julho de 2026, em Caracas, Venezuela.
Especialistas da equipe de restauração da Universidade Central da Venezuela avaliam os danos aos murais da Cidade Universitária de Caracas em 2 de julho de 2026, em Caracas, Venezuela.
Foto: RFI

Equipes internacionais deixam a Venezuela

Na região de La Guaira, a mais atingida pelos terremotos, as equipes internacionais de resgate se preparam para encerrar as operações, enquanto máquinas pesadas continuam removendo montanhas de escombros. Para Raul Alvarado, porém, a busca está longe de terminar.

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A mãe, o pai e o irmão mais velho dele continuam presos sob os escombros de um edifício de 16 andares, no bairro de Caraballeda. A última vez que José Alvarado viu a família foi do cômodo ao lado. "Os três estavam juntos, abraçados", lembra, referindo-se aos momentos que sucederam o primeiro terremoto. O segundo tremor provocou o desabamento do edifício. O apartamento da família, localizado no terceiro andar, agora está na altura dos olhos, esmagado sob pilhas de lajes de concreto.

Doze dias após a tragédia, muitas famílias, como a de Alvarado, seguem realizando buscas por conta própria, na esperança de encontrar parentes.

"O prédio estava lotado. Meu vizinho tinha cinco netos. Todos estão presos lá dentro", relata o homem de 31 anos.

O número provisório de mortos nos terremotos já ultrapassa 3.500, enquanto dezenas de milhares de pessoas continuam desaparecidas. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que até 50 mil pessoas estejam desaparecidas e que quase 200 edifícios tenham sido destruídos pelos terremotos de magnitude 7,2 e 7,5, um dos piores desastres sísmicos da história recente da América Latina. O governo venezuelano se recusa a reconhecer o número de desaparecidos.

Um homem abraça um membro da equipe da Argentina que o ajudou a resgatar sua irmã após os terremotos de 24 de junho, em La Guaira, Venezuela, em 6 de julho de 2026.
Foto: RFI

Sites de desaparecidos 

Voluntários e bombeiros escavam pequenos túneis entre as lajes de concreto para alcançar os apartamentos soterrados. Alguns utilizam picaretas e furadeiras alimentadas por geradores, enquanto outros trabalham em estruturas improvisadas para retirar corpos presos sob os destroços.

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Após os terremotos, surgiram plataformas online para ajudar na localização dos desaparecidos. Uma delas, "Desaparecidos no Terremoto da Venezuela", reúne mais de 31,4 mil nomes. Outra, "A Venezuela está procurando por você", lista 18,2 mil pessoas ainda desaparecidas e 25 mil já localizadas.

"O número extremamente elevado de pessoas registradas como desaparecidas nas plataformas online continua sendo terrivelmente plausível", afirmou Jens Laerke, porta-voz adjunto do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), em entrevista à AFP.

"Isso não significa que todos estejam soterrados sob os escombros, mas ilustra a dimensão do sofrimento enfrentado pelas famílias", acrescentou.

O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, afirmou que imagens de drones, registros e depoimentos de familiares indicam que cerca de 30 mil pessoas estavam em La Guaira no momento da tragédia. Segundo ele, aproximadamente 19,8 mil conseguiram escapar ou foram resgatadas.

Retomada de voos comerciais

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou nesta terça-feira que os voos comerciais serão retomados "em breve" no aeroporto de Caracas, danificado pelo duplo terremoto de 24 de junho.

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"Ordenei a ativação imediata de um plano alternativo que permitirá a retomada dos voos comerciais em breve na pista paralela disponível", declarou Rodríguez em sua conta no Telegram, após visitar o local para avaliar a situação.

O Aeroporto Internacional Simón Bolívar está localizado em La Guaira, ao norte da capital venezuelana, epicentro dos dois terremotos. Atualmente, o maior aeroporto do país caribenho está parcialmente aberto apenas para voos humanitários.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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