Após uma tragédia na Venezuela, o Cemitério da Esperança abriga mais de 800 vítimas não identificadas, incluindo 40 crianças. Para garantir dignidade e viabilizar a identificação futura por DNA, os corpos são sepultados individualmente sob códigos associados a registros forenses, sem valas comuns. Mais de dois meses após o desastre, o resgate de corpos nos escombros continua e novas covas são preparadas, enquanto o governo não divulga o total de pessoas desaparecidas.
Pedro Pannunzio, correspondente da RFI na Venezuela
Monteverde, por alguma razão, sente-se atraído por aquela sepultura. No cemitério onde repousam centenas de pessoas não identificadas, o simples fato de encontrar um nome já é significativo. As lápides, porém, não trazem outras informações além da data da morte. "Me disseram que ela tinha 36 anos", diz, sem ter certeza. Ele não tem qualquer pista sobre como eram seus traços físicos, sobre sua história, nem sobre o paradeiro de sua família.
"Meus companheiros dizem que estou louco. Que me apaixonei por uma morta. Mas não é isso. De noite, quando caminho por aqui, meus pés me trazem a esse lugar. Algo me chama. Chego aqui e converso com ela", contou o operador de máquinas que teve de deixar a construção civil para abrir covas para as vítimas do terremoto.
Ele diz que chegou ao cemitério em 26 de junho, dois dias após o início da tragédia. Desde então, os mortos levados ao enterro se tornaram sua principal companhia, ao lado dos outros três colegas com quem divide uma barraca transformada em casa temporária, montada em frente às covas. "Trabalhamos desde cedo até a hora em que os mortos chegam. Às vezes, eles chegam às 7h da noite, e é preciso enterrá-los às 7h, 8h da noite."
O operador de máquinas que virou coveiro da noite para o dia foi um dos responsáveis por abrir, na semana passada, o espaço onde agora repousam 40 crianças e adolescentes não identificadas, que, durante quase dois meses, permaneceram no necrotério improvisado no porto de La Guaira à espera de algum familiar que pudesse fazer o reconhecimento dos corpos.
"Talvez o pai e a mãe deles estejam ali, onde estão os outros enterrados. Os avós deles podem estar ali. Entende? É difícil, dói muito", disse, às lágrimas, enquanto apontava para um dos lotes onde estão sepultados centenas de vítimas sem identificação.
Ao menos 800 pessoas foram enterradas no Cemitério da Esperança sem terem sido reconhecidas, afirmou um rapaz que se apresentou como um dos coordenadores do local. Ele pediu para não ter o nome divulgado. O número equivale a mais de 10% do total de vítimas da tragédia. Segundo ele, não há valas comuns no cemitério, e cada pessoa é sepultada com o máximo de dignidade possível. "Colocamos cada cadáver com uma separação de 70 centímetros entre eles. Não há um cadáver sobre o outro. Isso não existe aqui."
Em cada lápide, há um número associado aos dados do falecido registrados no Serviço Nacional de Medicina e Ciências Forenses (Senamecf), órgão vinculado ao Ministério do Interior, Justiça e Paz. Posteriormente, familiares que procuram pessoas desaparecidas podem fazer exames de DNA para verificar se há compatibilidade com alguma das vítimas sem identificação.
"Cada cadáver enterrado tem um código:123, por exemplo. Esse código, que corresponde a um falecido ou a uma falecida, está registrado no Cemitério da Esperança, em determinada área, em determinado setor, sepultado em determinada posição", explicou um dos coordenadores do local.
No cemitério, há lotes distintos para as pessoas reconhecidas e para aquelas que foram enterradas sem identificação. Nas sepulturas das vítimas sem nome, foram colocados pedaços de grama, algumas pedras e um pequeno arranjo de flores. Entre as dezenas de cruzes marcadas apenas por números e códigos, raríssimas são as que receberam decorações que revelam sinais de uma história: um retrato e um nome. Trata-se de casos em que os familiares conseguiram fazer o reconhecimento das vítimas após o sepultamento.
40 crianças
As 40 crianças, por outro lado, estão enterradas, por ora, em uma extensa área de terra recém-remexida. As sepulturas ainda não têm grama, flores ou qualquer identificação. Segundo os funcionários, as lápides devem ser instaladas em breve.Por enquanto, cada sepultura é marcada apenas por uma fina haste metálica fincada no chão. Desde o final de semana, brinquedos infantis, levados por uma voluntária, foram colocados diante de cada uma delas. Uma semana depois do sepultamento coletivo, os funcionários dizem que nenhum familiar foi ao local para reconhecer ou reclamar os corpos.
Passados mais de dois meses da tragédia, vítimas ainda chegam ao cemitério. Ao redor das crianças sem nome, há dezenas de outras covas abertas, à espera de novos corpos. "Nós estamos nos preparando para qualquer quantidade de falecidos que possa surgir", disse o funcionário.
O governo venezuelano não divulga o número total de pessoas que ainda estão desaparecidas. Fora do cemitério, as operações para recuperação dos corpos acontecem sem data para serem encerradas.
"Vai levar tempo. Aqui está sendo retidada laje por laje. Se a gente entrar com máquina, não vai ser possível reconhecer os corpos", disse Hernán José Paredes, trabalhador vinculado ao Ministério do Poder Popular de Obras Públicas, que tentava, neste final de semana, quebrar um dos enormes blocos de concreto de um edifício que desabou na cidade de Caraballeda, também em La Guaira, distante há pouco mais de uma hora em carro do Cemitério da Esperança.