Cuba enfrenta uma grave crise demográfica impulsionada pela baixa natalidade, aumento da mortalidade e forte emigração devido à crise socioeconômica. Entre 2021 e 2025, a população em idade ativa encolheu em mais de 1,2 milhão de pessoas, comprometendo a força de trabalho e o futuro da ilha. Especialistas apontam que sanções e a rigidez do modelo político agravam o quadro, que pode acelerar a queda da população para 6 milhões de habitantes até 2050.
Marianela Mayer, da RFI
Cuba encerrou 2025 com apenas 68.064 nascimentos e 136 mil mortes. Além disso, mais de 245 mil pessoas deixaram o país, números que aprofundam um processo de envelhecimento populacional de longa data e que afeta todas as províncias cubanas.
A aceleração do declínio demográfico decorre de múltiplos fatores, explica à RFI o demógrafo Juan Carlos Albizu, do Centro Cristão de Reflexão e Diálogo de Cuba.
"O que está acontecendo do ponto de vista demográfico é uma resposta adaptativa da população à situação do país, que vive um desastre humanitário. Há uma queda acelerada da fecundidade e um êxodo populacional em massa em resposta à incapacidade de garantir as próprias condições de vida", analisa.
"As tendências de mortalidade já existem há muito tempo, uma vez que a expectativa de vida em Cuba vem caindo desde 2013", afirma o demógrafo. No entanto, ele ressalta que o aumento da mortalidade e a redução da expectativa de vida se intensificaram nos últimos anos.
Para o economista e ex-professor da Universidade de Havana Omar Everleny, esse cenário pode estar relacionado à política dos Estados Unidos em relação a Cuba.
"Muitas pessoas que poderiam ser tratadas com medicamentos ou outros recursos atualmente não têm acesso a eles. E isso se deve, em grande medida, ao estrangulamento imposto pelo governo dos Estados Unidos, embora esse não seja o único fator."
Consequências econômicas
As consequências da crise demográfica são graves para a economia da ilha. Segundo Albizu, 80% dos emigrantes tinham entre 15 e 59 anos, faixa etária considerada fundamental para a atividade econômica.
"Isso comprometerá a disponibilidade de mão de obra qualificada no médio prazo. Além disso, acelera o fechamento da janela de oportunidade demográfica, um ativo que a economia poderia ter aproveitado se as condições adequadas tivessem sido garantidas", afirma.
O envelhecimento populacional e a emigração contribuíram para uma expressiva redução da população em idade ativa de Cuba. Nos últimos cinco anos, esse grupo encolheu em 1.259.894 pessoas, passando de 6.866.435 trabalhadores em 2021 para 5.606.541 em 2025.
Embora Albizu, que também é economista, afirme que o envelhecimento demográfico não seja, por si só, uma má notícia, ele destaca que se trata de um fenômeno irreversível. Em sua avaliação, a única política coerente seria impulsionar o desenvolvimento econômico por meio de investimentos significativos, capazes de assegurar um crescimento sustentado da produtividade do trabalho e atender às necessidades crescentes da população. Como exemplos, ele cita os países nórdicos, além dos modelos adotados pela China e pelo Vietnã.
"No entanto, muitos autores argumentam que essa oportunidade já foi perdida em Cuba, porque a alta cúpula dirigente se entrincheirou em um modelo socialista que não serviu para outro propósito além de se manter no poder, enquanto a população continua sofrendo todo tipo de privação. Assim, o atual modelo econômico cubano não apenas está falido, como também atua como um obstáculo ao próprio progresso", enfatiza Albizu.
Caso esse cenário persista, o especialista conclui que a pobreza continuará avançando e a emigração em massa seguirá em curso, enquanto as taxas de fecundidade e a expectativa de vida continuarão em declínio.
Albizu alerta ainda que a redução da população cubana dos atuais 9,4 milhões para 6 milhões de habitantes, projeção das Nações Unidas para 2100, poderá ocorrer muito antes do previsto, possivelmente já em 2050.