Senado do Paraguai retoma sessão de impeachment de Santiago Peña, que promete se defender 'com argumentos e provas'

O Senado paraguaio adiou para esta sexta-feira (6), às 10h pelo horário local, o julgamento para analisar o processo de impeachment do presidente Santiago Peña. O processo havia sido iniciado na noite anterior, mas foi adiado por falta de quórum. Em uma mensagem publicada na rede social X, o líder conservador indicou que apresentará sua defesa às autoridades "com argumentos e provas".

6 nov 2026 - 06h31
Resumo
O Senado paraguaio retomou o julgamento de impeachment do presidente Santiago Peña, suspenso provisoriamente no cargo após apresentar sua renúncia em meio a protestos. A crise política eclodiu após a intervenção no Ueno Bank por falta de capital, congelando os recursos de quase metade da população. Peña, acusado de conflito de interesses por ter ligações acionárias prévias com a instituição, perdeu o apoio do Partido Colorado e promete se defender no processo, que deve ser concluído nesta sexta-feira.

O processo de destituição de Peña ocorre em meio a uma crise bancária que o levou a apresentar sua renúncia na quinta-feira (5), enquanto milhares de cidadãos exigem que ele deixe o cargo. Durante a noite, manifestantes ocuparam o entorno do Congresso paraguaio em Assunção, reclamando a responsabilização do presidente pela crise bancária que congelou os depósitos de três milhões de pessoas, quase metade da população do país. 

Reprodução de um vídeo publicado na conta do presidente paraguaio, Santiago Peña, na rede social X na quinta-feira (6).
Reprodução de um vídeo publicado na conta do presidente paraguaio, Santiago Peña, na rede social X na quinta-feira (6).
Foto: AFP - HANDOUT / RFI

Peña permanece provisoriamente na Presidência, já que o Congresso suspendeu a tramitação da sua renúncia enquanto o processo de destituição contra ele avança. Segundo o senador governista Derlis Maidana, a ideia do parlamento é concluir o julgamento ainda hoje, para "tranquilizar os cidadãos".

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Renúncia e julgamento 

Peña anunciou sua renúncia pouco depois do meio-dia de quinta-feira, após perder o apoio de seu próprio partido, o Colorado, e de seu mentor, o ex-presidente Horacio Cartes (2013-2018). Logo depois, deputados votaram por unanimidade a abertura de um julgamento político contra Peña e rejeitaram a abertura de outro contra o vice-presidente do país, Pedro Alliana, a quem cabe assumir a presidência.

"Tomei a decisão de apresentar minha renúncia (...) Quero pedir desculpas ao povo se, em algum momento, falhei", disse Peña em um vídeo publicado no X, onde ressaltou que sua prioridade é "a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias" ao sistema financeiro do país.

Durante a tarde, uma sessão de ambas as câmaras destinada a se pronunciar sobre a renúncia do presidente foi cancelada por falta de quórum. Minutos depois, senadores governistas anunciaram que se iniciaria o processo de impeachment.   

À noite, o Senado realizou outra sessão extraordinária, para apresentar a acusação, e marcou o início do julgamento para as 10h desta sexta-feira. "Aqui foi montado um esquema criminoso que se dedicou a esvaziar um banco com a proteção de instituições que ele controlava como presidente da República", destacou na acusação o deputado opositor Raúl Benítez.

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Insuficiência de capital

A crise eclodiu na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank devido a uma insuficiência grave de capital. Além dos depósitos dos correntistas, foram congelados fundos de órgãos estatais.

Peña, que foi ministro da Fazenda e assumiu a Presidência em 2023 para um mandato até 2028, tinha ações de um grupo que controlava o banco, das quais se desfez em 2025. Após a intervenção no Ueno Bank, ele exigiu a renúncia do presidente do Banco Central e promulgou uma lei que fixou um prazo de cinco dias úteis para a devolução da maior parte dos recursos aos clientes do banco.

Ainda assim, deputados da oposição reuniram ontem as assinaturas necessárias para apresentar uma acusação contra Peña por conflito de interesses. Ele é principalmente criticado por ter favorecido o banco por meio de decisões regulatórias e depósitos previdenciários.

Mais jovem presidente do Paraguai

Eleito com folga em 2023, aos 44 anos, Santiago Peña se tornou o mais jovem presidente da história do Paraguai. O candidato venceu a disputa com 42,7% dos votos, contra 27,5% do adversário de centro-esquerda, contrariando a maioria das pesquisas que apontavam uma eleição acirrada.

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Com passagem pelo Banco Central do Paraguai, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Ministério da Fazenda, ele afirmava representar a visão da sociedade conservadora paraguaia, defendendo valores tradicionais e cristãos.

Embora tenha sido ligado por muitos anos ao Partido Liberal, de centro-esquerda, Peña integrou o governo do ex-presidente Horacio Cartes, uma das figuras mais influentes e ricas do país, filiado ao tradicional Partido Colorado. Em 2016, Peña ingressou oficialmente na legenda, decisão que seus críticos atribuíam a oportunismo político.

No poder, se alinhou aos governos de direita da América do Sul e manteve relações estreitas com Washington. Assim como o presidente argentino, Javier Milei, Peña participou ao lado de Donald Trump da cúpula "Escudo das Américas", iniciativa voltada à formação de uma coalizão para combater cartéis criminosos na região.

Proximidade com o setor financeiro

No escândalo que resultou em sua queda, porém, o presidente acabou sendo penalizado sobre sua proximidade com o setor financeiro. Antes de assumir a presidência e até 2025, Peña possuía participações acionárias em uma holding controladora do banco Ueno.

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Segundo opositores, a instituição apresentava um crescimento considerado incompatível com os padrões do setor bancário. O deputado Mauricio Espínola, um dos articuladores do processo de destituição, afirmou que o banco expandia seus negócios em um ritmo sem precedentes para uma instituição financeira saudável.

As críticas acabaram vindo até integrantes da base governista. Entre eles, está o senador Oscar Salomón, do Partido Colorado, acusou Peña de ter colocado interesses financeiros acima dos interesses nacionais e retirou seu apoio ao presidente. 

Com AFP

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