Stéphane Geneste, da RFI
À primeira vista, pode parecer apenas mais uma ponte entre os Estados Unidos e o Canadá. No entanto, a Ponte Gordie Howe é uma das infraestruturas mais estratégicas da América do Norte. Com 2,5 quilômetros de extensão, ela ilustra a interdependência econômica entre Washington e Ottawa, mesmo em um contexto de tensões políticas com Donald Trump.
Outra ponte e um túnel já ligavam Detroit e Windsor há quase um século. Mas essas duas vias históricas acabaram ficando pequenas diante da alta demanda. O corredor entre as duas cidades é hoje a passagem terrestre mais importante e mais movimentada do continente.
Todos os anos, quase US$ 126 bilhões em mercadorias transitam por este caminho, o que equivale a 20% do comércio entre o Canadá e os Estados Unidos. Diariamente, milhares de caminhões utilizam a rota, representando aproximadamente 30% do tráfego de veículos pesados entre os dois países.
O menor incidente, seja um acidente, uma avaria ou um atraso na alfândega, pode paralisar parte da economia norte-americana por horas, ou até mesmo dias.
A Ponte Gordie Howe foi, portanto, projetada para aumentar a capacidade de tráfego, mas também para oferecer uma via alternativa em caso de congestionamento.
Fundamental para a indústria automotiva
A importância dessa nova infraestrutura também se explica pela posição da região na economia norte-americana. Detroit e Windsor formam um dos principais polos industriais do continente, sobretudo no setor automotivo.
Hoje, um veículo não é mais feito em uma única fábrica, ou mesmo em um único país. Um motor pode ser montado nos Estados Unidos, enviado para o Canadá, receber uma transmissão produzida no México e, em seguida, retornar aos EUA para mais processos de fabricação.
Os componentes, portanto, cruzam a fronteira diversas vezes antes que o veículo seja finalmente montado. Essa estrutura da cadeia produtiva norte-americana exige um fluxo contínuo de mercadorias. Nesse contexto, a Ponte Gordie Howe se torna um elo fundamental nessa organização industrial, garantindo fluxos logísticos seguros entre os dois países.
Questão política entre Trump e o Canadá
Além de seu papel econômico, a nova Ponte Gordie Howe se tornou uma questão política. Na Casa Branca, Donald Trump considerou que o acordo firmado entre Ottawa e Washington não era suficientemente favorável aos interesses de seu país. O presidente dos EUA ameaçou então adiar a inauguração da infraestrutura até que um novo tratado sobre pedágios e governança fosse alcançado.
Financiado quase inteiramente pelo Canadá, o projeto foi inicialmente concebido para permitir que Ottawa recuperasse seu investimento por meio da receita dos pedágios. Por fim, chegou-se a um acordo: durante 15 anos, uma parte dos lucros operacionais será destinada a um fundo regional de desenvolvimento econômico.
Essa negociação ilustra, principalmente, o grau de interdependência entre os dois vizinhos. Embora o Canadá precise desse corredor comercial, os Estados Unidos dependem dele igualmente. Os fabricantes dos EUA também se beneficiarão de um fluxo de tráfego mais fluido, custos logísticos reduzidos e maior segurança de abastecimento. As economias canadense e estadunidense estão agora tão intimamente ligadas que se torna difícil para uma penalizar a outra sem sofrer as consequências.
O próprio nome da ponte reflete essa estreita relação. Gordie Howe, uma lenda canadense do hóquei no gelo, construiu a maior parte de sua carreira no Detroit Red Wings. Ele é um símbolo que ilustra perfeitamente os vínculos entre o Canadá e os Estados Unidos: uma fronteira política muito real, mas constantemente atravessada por intercâmbios humanos, culturais e, principalmente, econômicos.