Fim da proteção temporária nos EUA gera temor de deportação entre haitianos

O Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês) concedido aos haitianos nos Estados Unidos expira nesta segunda-feira (27). A medida foi decidida pelo presidente Donald Trump, anunciada ainda no ano passado e validada pela Suprema Corte americana em 25 de junho. A revogação do TPS também afeta cidadãos de países como Venezuela, Nicarágua, Ucrânia e Síria, entre outros.

27 jul 2026 - 11h40

O Status de Proteção Temporária permite que cidadãos de nações afetadas por catástrofes naturais ou conflitos armados residam e trabalhem legalmente nos Estados Unidos. O Haiti passou a ter acesso a esse mecanismo em 2010, após o devastador terremoto que atingiu o país.

Com o fim do programa, cerca de 330 mil haitianos passam a correr o risco de serem detidos a qualquer momento pelo ICE, o serviço de imigração dos Estados Unidos. Muitas dessas pessoas trabalham em setores essenciais, como saúde e assistência a idosos. Diante dessa perspectiva, algumas decidiram deixar o país por conta própria, explica Jadinah N. Gustave, advogada especializada em negócios e integrante de uma associação de advogados haitianos.

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"Algumas pessoas optaram pela autoexpulsão. Elas estão partindo porque não querem passar pela humilhação de serem presas e deportadas pelo ICE e deixadas em qualquer lugar. O ICE não é obrigado a levá-las de volta ao Haiti. Pode literalmente deixá-las em qualquer país que aceite recebê-las", afirmou à RFI.

Deportação é risco de vida para haitianos

No fim de junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos autorizou o governo Trump a revogar essa proteção. Para Paul Christian Nanphy, da organização Family Action Network (Rede de Ação Familiar), a medida ignora as razões que levam milhares de pessoas a deixar seus países de origem.

"Estamos vivendo um momento muito crítico, porque acreditamos que é preciso refletir sobre as causas da migração e entender por que as pessoas deixam países como Haiti, Venezuela, El Salvador, Honduras, Nicarágua e muitos outros. Hoje, deportar qualquer pessoa para o Haiti, El Salvador ou Venezuela é obrigá-la a arriscar a própria vida", afirma Christian Nanphy.

O representante da Rede de Ação Familiar afirma que as imagens do cotidiano no Haiti são prova suficiente dos riscos enfrentados pela população.

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"Qualquer deportação coloca a vida dessas pessoas em perigo, porque os grupos armados sabem quem está chegando e de onde vem. Isso faz delas potenciais vítimas de sequestro", exemplifica, ao descrever um dos riscos enfrentados pelos migrantes expulsos dos Estados Unidos.

Christian Nanphy considera "necessário e urgente encontrar uma solução para que as pessoas que já estão nos Estados Unidos, trabalhando e pagando impostos legalmente, possam continuar vivendo e contribuindo para a economia americana".

Pessoas seguram bandeiras haitianas e cartazes durante uma manifestação em apoio aos imigrantes que vivem nos Estados Unidos com o status de proteção temporária (TPS), na quinta-feira, 9 de julho de 2026, em San Diego.
Pessoas seguram bandeiras haitianas e cartazes durante uma manifestação em apoio aos imigrantes que vivem nos Estados Unidos com o status de proteção temporária (TPS), na quinta-feira, 9 de julho de 2026, em San Diego.
Foto: RFI

O dilema das famílias com filhos nascidos nos EUA

Outra questão central envolve os filhos nascidos nos Estados Unidos, que possuem cidadania americana. Nathalye Cotrino, pesquisadora da ONG Human Rights Watch, afirma que muitas famílias tentam se organizar diante da possibilidade de separação.

"A principal preocupação é saber o que fazer com os filhos em caso de separação familiar. Por exemplo, se podem colocá-los sob a tutela de alguém com uma situação migratória mais estável nos Estados Unidos. Outra questão é decidir, em caso de detenção, se desejam que as crianças sejam enviadas com eles para o Haiti ou com quem irão deixá-las", explica.

Além dessas incertezas, os haitianos enfrentam o temor de serem enviados de volta a um país que atravessa uma profunda crise humanitária, política e de segurança. Grupos armados controlam cerca de 90% da capital Porto Príncipe e avançam sobre outras regiões do território haitiano. Segundo o mais recente relatório do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), 5,7 milhões de pessoas, quase metade da população haitiana, sofrem de fome aguda.

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