Thiago de Aragão, analista político
De repente, a maior vitrine do planeta, cuidadosamente montada em casa, corre o risco de virar um grande palco de constrangimento ao vivo. Um boicote desse tipo não nasceria como raio em céu azul. Ele viria depois de meses de atrito, cobranças públicas e humilhações discretas, especialmente em torno da Groenlândia.
Cada declaração sobre "interesse estratégico", cada ameaça tarifária contra aliados europeus, cada aceno de que, se for preciso atropelar sensibilidades de Copenhague, Bruxelas e companhia, se atropela. Em algum momento, a sensação de que a Europa está sendo tratada mais como peça de tabuleiro do que como parceira começa a ferver. E quando essa temperatura sobe, a Copa, que parecia um assunto distante, logística, estádio, calendário, começa a aparecer como botão de emergência.
A ideia de boicote, no começo, surgiria em voz baixa. Um parlamentar aqui fala que "não dá para ir à festa de quem te humilha na porta de casa". Um colunista ali sugere que, se Washington quer testar limites na Groenlândia, a resposta não pode ser só nota de repúdio e discurso protocolar. Aos poucos, a conexão se consolida na cabeça do público: Copa em solo americano, naquele momento, não é apenas futebol. É um selo de normalidade, um "está tudo bem entre nós" estampado em HD para o mundo todo ver.
Se essa percepção cola, o cardápio de ações se abre. Alguns governos podem defender um boicote total, com seleções europeias simplesmente ficando em casa. Outros preferem um meio‑termo: seleções vão, mas sem delegações oficiais, sem encontros cerimoniais, sem foto sorridente em camarote ao lado do presidente americano. Há ainda a opção de transformar cada coletiva de imprensa em micropalco político, com jogadores e técnicos lembrando, sempre que possível, por que aquela Copa acontece sob protesto. Em todos os casos, o recado chega onde importa: na combinação de audiência, patrocínio e prestígio.
A razão pela qual isso toca num nervo específico em Trump é simples. A Copa em casa, em 2026, é mais do que um torneio; é uma peça de narrativa. É a chance de mostrar um país vibrante, organizado, capaz de montar o maior espetáculo esportivo do planeta, com estádios cheios, patrocinadores felizes e o resto do mundo vindo bater palma. Um boicote europeu não destrói a Copa, mas arranha essa imagem de perfeição: a festa acontece, mas com cadeiras vazias importantes. O anfitrião continua sorrindo, porém o mundo inteiro sabe que nem todo convidado aceitou o convite.
Do ponto de vista financeiro, o dano também é calibrado onde dói. Emissoras europeias pagaram caro esperando jogos com França, Alemanha, Espanha, Itália, Inglaterra. Patrocinadores globais apostaram na presença de estrelas que jogam em clubes europeus, com torcidas gigantescas. Se parte desse pacote evapora, começam as renegociações, os pedidos de compensação, os ajustes de contrato. Nada disso derruba a economia americana, claro, mas é barulhento o suficiente para virar manchete, relatório de banco, debate em mercado. O tipo de ruído que investidores e conselheiros detestam e que qualquer presidente que se vê como sinônimo de "sucesso" prefere evitar.
"Não vamos à sua festa enquanto você pisar no nosso calo"
Politicamente, a Europa teria a vantagem de usar uma arma que fala o idioma da opinião pública. Em vez de discutir cláusulas de tratado ou números de tarifa em documentos opacos, ela diria algo muito mais simples: "não vamos à sua festa enquanto você pisa no nosso calo". A opinião pública europeia entende. A opinião pública americana, mesmo dividida, entende também. E, talvez mais importante, outros países assistem. Da América Latina à África, passando pela Ásia, a imagem de uma Europa que finalmente decidiu peitar Washington numa arena tão simbólica quanto a Copa tem peso próprio.
Isso não quer dizer que o boicote seja fácil de construir. Dentro da própria Europa, o debate seria duro. Países mais expostos à Rússia teriam medo de qualquer movimento que parecesse enfraquecer o vínculo com os Estados Unidos. Governos mais atlanticistas argumentariam que é perigoso transformar a segurança de longo prazo em refém de um gesto de curto prazo, por mais sedutor que ele pareça. Outros, sobretudo onde a fadiga com a postura americana já é grande, veriam no boicote a primeira oportunidade real, em décadas, de dizer "não" de forma que seja ouvida.
E é justamente aí que entra o potencial de fazer Trump recuar. Diferente de sanções discretas, notas diplomáticas ou manobras em bastidores, uma ameaça crível de boicote à Copa mexe com algo que ele acompanha pessoalmente, que ele entende intuitivamente e que impacta, de forma direta, sua narrativa de sucesso interno. Diante da perspectiva concreta de ver o grande show de 2026 virar vitrine de resistência europeia, a tentação de calibrar o tom sobre a Groenlândia, suavizar ameaças, oferecer alguma concessão de fachada ganha força. Não por reconhecimento de erro, mas por cálculo de custo.
No fundo, a ideia de usar a Copa como instrumento de pressão é um pouco o espelho do que os próprios Estados Unidos fizeram tantas vezes com outros países: transformar um evento simbólico em teste de lealdade, premiar quem entra na linha, punir quem sai do script. A diferença é que, desta vez, o alvo seria o centro, não a periferia. Para a Europa, seria uma forma de dizer que também sabe jogar esse jogo. Para Trump, um lembrete incômodo de que, às vezes, o gol que dói mais não é o que entra no próprio time, mas o que estraga a festa no estádio inteiro.