Aliados de Trump se somam a democratas em repúdio a novo incidente do ICE que matou americano

O presidente Donald Trump enfrenta forte tensão política depois que agentes federais de imigração dos Estados Unidos (ICE) atiraram e mataram um cidadão americano em Minneapolis. A vítima, Alex Jeffrey Pretti, 37, era enfermeiro de UTI no Centro Médico de Veteranos da cidade e cidadão americano. O governo classificou a ação como legítima defesa e disse que Pretti estaria armado, mas vídeos verificados mostram que ele segurava um celular, e não uma arma, quando foi imobilizado pelos agentes.

26 jan 2026 - 05h58

Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York

Pessoas reunidas em frente a um memorial improvisado no local onde Alex Pretti foi morto por agentes federais que tentavam prendê-lo, em Minneapolis, em 25 de janeiro de 2026.
Pessoas reunidas em frente a um memorial improvisado no local onde Alex Pretti foi morto por agentes federais que tentavam prendê-lo, em Minneapolis, em 25 de janeiro de 2026.
Foto: © Reuters/Tim Evans / RFI

O caso provocou protestos e gerou críticas inesperadas de aliados políticos e de grupos próximos ao governo, aumentando a pressão sobre Trump às vésperas de votações importantes no Congresso. O incidente poderia levar o país a um novo fechamento de instituições federais.

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Desde o começo de janeiro, uma série de confrontos entre agentes federais de imigração e civis em Minneapolis tem escalado a tensão em Washington. No sábado, um agente da Patrulha de Fronteira matou o americano Alex Pretty durante uma operação, o terceiro incidente envolvendo agentes federais na cidade em poucas semanas, e isso provocou uma onda de protestos e críticas públicas.

Membros democratas no Senado anunciaram que irão bloquear o projeto de lei de financiamento do Departamento de Segurança Interna, que destina US$ 64,4 bilhões ao departamento e US$ 10 bilhões (cerca de R$ 340 bilhões e R$ 53 bilhões, respectivamente) especificamente para o ICE, após a morte de Alex Pretti em Minneapolis. 

Isso ocorre porque muitos democratas consideram inaceitáveis as táticas de imigração federal e a falta de prestação de contas dos agentes. A legislação precisa de pelo menos 60 votos no Senado para avançar, mas a oposição crescente dentro do próprio Congresso ampliou a possibilidade de uma paralisação parcial do governo até o fim do mês, quando expira o prazo para a aprovação do orçamento. 

O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, disse que não fornecerá os votos necessários para que o projeto siga adiante se a parte que financia o Departamento de Segurança Interna estiver incluída, classificando os acontecimentos em Minnesota como "terríveis" e "inaceitáveis em qualquer cidade americana". 

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Trump pede o fim das cidades-santuário

Donald Trump usou as redes sociais na noite deste domingo para pedir que o Congresso aprove, com urgência, uma lei que acabe com as chamadas cidades-santuário nos Estados Unidos. Segundo o presidente, essas cidades estariam na raiz da crise atual envolvendo a polícia migratória e os confrontos registrados nos últimos dias.

Cidades santuário são municípios ou estados que limitam a cooperação entre a polícia local e agentes federais de imigração, como o ICE. Na prática, isso significa que a polícia local não prende nem entrega imigrantes apenas por estarem em situação irregular, priorizando crimes graves e a relação de confiança com a comunidade.

No comunicado, Trump afirmou que, durante o governo Biden, milhões de imigrantes ilegais, incluindo criminosos, teriam entrado no país. Ele disse que venceu a eleição com a promessa de fechar a fronteira e promover a maior operação de deportação da história americana, operação que, segundo ele, estaria funcionando melhor em estados governados por republicanos, onde a polícia local coopera com o ICE.

Trump acusou os governos democratas de se recusarem a colaborar com agentes federais e de criarem um ambiente de confronto e insegurança. O presidente citou diretamente o governador de Minnesota e o prefeito de Minneapolis, cobrando que entreguem imigrantes presos às autoridades federais e que as polícias locais passem a ajudar nas detenções.

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Governo de Minnesota tenta frear operação do ICE nos tribunais

O tiroteio em Minneapolis levou a disputa agora para o Judiciário. O governo do estado de Minnesota e as prefeituras de Minneapolis e St. Paul pediram à Justiça que interrompa a operação da polícia migratória, argumentando que a forma como os agentes estão atuando coloca moradores em risco e pode provocar novas mortes.

Na noite deste domingo (25), os advogados entraram com um pedido urgente dizendo que a Justiça precisa agir antes que outro morador seja morto durante essa operação. Além disso, o estado também solicitou uma medida para garantir que nenhuma prova do local do tiroteio seja destruída ou alterada por agentes federais.

Esse pedido foi aceito rapidamente por um juiz federal indicado por Donald Trump, que determinou que todas as evidências sejam preservadas. Agora, o próximo passo será uma audiência marcada para esta segunda-feira (26), às duas da tarde, quando a Justiça vai decidir se a operação de imigração pode continuar da forma atual ou se terá limites impostos pelo tribunal.

Cresce pressão por uma investigação profunda do caso

A pressão sobre o governo Trump está aumentando e agora vem também de setores que tradicionalmente apoiam o presidente. Ex-presidentes democratas, como Barack Obama e Bill Clinton, divulgaram notas duras sobre o caso. Obama e Michelle Obama classificaram a morte como uma tragédia e disseram que o episódio é um alerta de que valores fundamentais dos Estados Unidos estão sob ataque, afirmando que agentes federais não estariam atuando de forma legal ou responsável em Minnesota. Bill Clinton afirmou que cenas vistas em Minneapolis são algo que ele jamais imaginou ver no país e pediu que os americanos se manifestem em defesa da democracia.

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Mas o dado mais sensível politicamente para a Casa Branca é que as críticas não estão restritas aos democratas. Um número crescente de parlamentares republicanos passou a pedir uma investigação mais profunda sobre as táticas usadas por agentes federais de imigração. O presidente da Comissão de Segurança Interna da Câmara, o republicano Andrew Garbarino, solicitou depoimentos de dirigentes do ICE, da Patrulha de Fronteira e do serviço de imigração, afirmando que a prioridade deve ser manter os americanos seguros. 

Entre os republicanos que passaram a cobrar explicações estão Michael McCaul, deputado do Texas e ex-presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Thom Tillis, senador da Carolina do Norte, Bill Cassidy, senador da Louisiana, além de Susan Collins, do Maine, e Lisa Murkowski, do Alasca, duas senadoras conhecidas por posições mais independentes dentro do Partido Republicano.

Até grupos de defesa de armas pedem investigação

A reação mais inesperada veio da Associação Nacional do Rifle, a NRA, uma das organizações mais próximas de Trump. A entidade se uniu a outros grupos de defesa das armas e pediu uma investigação completa sobre a morte de Alex Pretti. 

A NRA criticou declarações do procurador da Califórnia Bill Essayli, indicado por Trump, que sugeriu que agentes estariam quase sempre justificados ao atirar em pessoas armadas. Segundo a associação, esse tipo de discurso é perigoso e criminaliza cidadãos que possuem armas legalmente. Para a NRA, é preciso aguardar a investigação antes de qualquer julgamento.

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O Gun Owners of America, uma organização sem fins lucrativos que faz lobby em defesa do direito às armas, também criticou o comentário do procurador. O grupo afirmou que agentes federais não estão "altamente propensos" a estar "legalmente justificados" a atirar em pessoas com licença para portar arma oculta que se aproximem enquanto estão legalmente armadas. A organização acrescentou que a Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos protege o direito dos americanos de portar armas durante protestos, um direito que o governo federal não deve violar.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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