Thiago de Aragão, analista político
Nos primeiros 15 dias do bloqueio tudo é expectativa. Os preços explodem não porque hoje faltará petróleo, mas porque o mercado tenta precificar tudo que pode vir a faltar. É quando as grandes economias ainda podem montar a farsa da normalidade: liberando estoques estratégicos, realizando coletivas, falando em disrupção temporária. Mas esta normalidade tem um custo elevado. Com Ormuz fechado, cerca de 20% da produção de petróleo mundial e uma quantidade semelhante de gás natural liquefeito estão mais do que em risco. Dentro de poucos dias, o Brent se equilibra por volta de 110-115 dólares, e o WTI passa com facilidade o limiar de 100 dólares. O que representava nas crises anteriores o "pior dos momentos", constitui a nova base.
Esse primeiro estágio ainda poderia estar sob controle com os instrumentos clássicos: vendas coordenadas de reservas estratégicas, linhas de crédito de emergência aos países mais vulneráveis e pressão diplomática em volta do cessar-fogo. Mas, enquanto governos ainda declaravam que isso era um "choque gerenciável", as companhias aéreas, o transporte marítimo, a petroquímica e a eletricidade nos países importadores já terão começado a recalibrar a sua trajetória a toda velocidade. O perigo ainda é considerado um desvio, mas o desvio já começa a mudar os hábitos de investimento, de produção e de consumo.
Caos logístico
Depois de um mês, a crise caminha para outra. Não se trata mais de um problema em interpretação da flutuabilidade, mas de funcionamento. As cadeias globais começam a perceber os efeitos de corrente: os navios deslocados, as refinarias mudando sua programação de carga, os contratos de fornecimento conquistados em disputa. O caos logístico assume, assim como a contagem estatística de barris fora do mercado. Estudos mais recentes que simulam um corte de quase 20% na oferta global de petróleo provocada pelo fechamento de Ormuz, indicam que, mantendo-se o fechamento por um trimestre, o WTI tenderia a média perto de 100 dólares. E isso significa que o Brent consistente estaria acima de 110-115 durante o período. Só que é isso, em tempos de estresse, com a média exibida, as faixas de 120-130 no Brent não são mais teatro dramático, mas sim o cenário provável.
As casas de pesquisa, que realizaram cenários para a crise atual, reconhecem abertamente um intervalo de 120 a 150 para o Brent, caso o estreito seja mantido bloqueado por um tempo como 30 a 60 dias algo assim, mesmo com uso agressivo de reservas e redirecionamentos logísticos. Esta conta não é só a de energia: um choque desse tamanho, mantido por um trimestre, poderia levar a um número de alguns pontos percentuais a menos de crescimento global anualizado naquele trimestre, é nesse momento em que a crise entra com tudo na política doméstica. Os bancos centrais, já em anos de inflação alta, necessitam decidir se aceitam mais pressão inflacionária ou se eles elevam juros em choque de oferta. Os países emergentes começam a encarar a conta de transações com pânico discreto: energia importada mais cara, moeda sob pressão, reservas com perda.
Se o lockdown superasse 90 dias, o problema se torna de energia para sistêmico. A lógica da interdependência global não-linear colapsa: quanto mais tempo fechado, mais efeitos colaterais acumulados em cadeias que inicialmente aparentemente não possuem petróleo em seus núcleos. Neste instante, os estoques estratégicos já foram extensivamente utilizados. O ordenamento da entrega do mercado através de leilões pontuais não serviria mais. Modelos que projetam cenários prolongados sinalizam de um mundo onde o Brent poderia ser de 150 a 200 dólares, no caso de o lockdown durar um trimestre completo e haver dano relevante às infraestruturas de exportação. O valor em si não é relevante, mas a mensagem é clara: trata-se de um nível em que as várias economias não podem mais repassar para o cliente o preço ou entram em racionamento ou explodem em tensões sociais.
Risco geopolítico
De um lado, o aumento dramático da pressão por uma resposta militar coordenada, para a reabertura do estreito, não mais em nome da "livre navegação" abstrata, mas em função da defesa da inflação, do emprego e, em alguns países, da força política. De outro lado, as aparências vão levar os governos a medidas que já estavam fora de uso: controles de preços, racionamento de combustíveis, subsídios seletivos, acordos aceitos entre produtores e consumidores. Simultaneamente, o sistema começa a se reestruturar: projetos de gasodutos antes marginalizados tornam-se urgentes, a produção não convencional nos Estados Unidos transforma-se na nova moeda geopolítica e outras rotas estratégicas (Suez, Cabo da Boa Esperança) tornam-se gargalos e, nessa medida, vulneráveis.
Falar de Ormuz evoca a tentação de ver tudo como guerra de nervos de Teerã contra Washington. Mas, com o Brent a 3 dígitos, todos os governos que dependem de energia importada e já têm a sua reeleição ou sobrevivência indexada ao que ocorre em um corredor de 50 quilômetros entre Irã e Omã tornam-se os reais jogadores da mesa. A ironia é que, nesse ínterim, o sistema global apostou todas as suas fichas numa zona perigosa e acreditou que o risco geopolítico estaria sob controle. Agora, com o estreito fechado e no pico do preço para mais de 110 e 115 dólares, o mundo percebe que não apenas o petróleo ficou cercado ali, mas a própria ideia de uma globalização barata e previsível.
Pelo menos até o momento, os números dão a medida do drama: um choque capaz de arrancar uma fração importante do crescimento global em apenas um trimestre, cenários que apontam o petróleo Brent para mais de 150 a 200 dólares se o fechamento do canal se tornar definitivo, e um mercado já precificando esse risco hoje, não em um futuro hipotético. O Estreito de Ormuz sempre foi um gargalo geográfico, mas em 2026, ele se tornou o retrato mais explícito do quão estreito se tornou o espaço de manobra da economia mundial.