Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela após a prisão de Nicolás Maduro, iniciou reformas econômicas e políticas, incluindo a libertação de presos políticos, reaproximação com os EUA e mudanças na Lei de Hidrocarbonetos, mas analistas avaliam que tratam-se de ajustes estratégicos, sem avanços efetivos na democratização.
Há um mês, Nicolás Maduro e a esposa, Cilia Flores, foram capturados pelos EUA. Desde então, a Venezuela vive mudanças sob o comando de Delcy Rodríguez. A presidente interina tem tomado decisões que flexibilizam setores do país, como a liberação de presos políticos, medidas para reativar a economia e, de forma mais surpreendente, o estreitamento de laços com Washington, evidenciado pela recepção, na segunda-feira, 1°, da encarregada de negócios dos EUA no Palácio Presidencial de Miraflores.
Enquanto Nicolás Maduro e Cilia Flores aguardam julgamento no Centro de Detenção Metropolitano, no Brooklyn, em Nova York, Delcy Rodríguez vem mexendo em leis, gabinetes e dando ordens, o que vem atualizando a face do chavismo em pleno 2026.
Para a analista política Luz Melly Reyes, os acontecimentos recentes na Venezuela seriam impensáveis poucas semanas atrás, quando Maduro ainda governava com mão de ferro. "Um mês após a saída de Nicolás Maduro do governo e sua extradição para os Estados Unidos, na Venezuela vêm acontecendo coisas impensáveis há trinta dias. Algumas delas são a aprovação da reforma da Lei de Hidrocarbonetos, a liberação de pelo menos 300 presos políticos e a reabertura da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas", afirmou a especialista.
Apesar de muitos interpretarem essas ações como sinais de liberalização, Reyes observa que se trata de "uma etapa de reforço tático que o governo sabia que lhe convinha e sobre a qual estava trabalhando para poder ter novas entradas de dinheiro que evitassem que o país caísse em uma crise ainda mais profunda em termos econômicos". Segundo ela, o cenário atual reflete mais "ajustes estratégicos e econômicos do governo interino do que avanços efetivos na democratização do país".
Na tarde da segunda-feira, Delcy Rodríguez se reuniu com a encarregada de negócios de Washington na Venezuela. A reativação das relações entre ambos os países segue a passos rápidos. Laura Dogu é a responsável por reabrir a embaixada dos Estados Unidos em Caracas. Desde 2019, a sede da diplomacia norte-americana na capital venezuelana estava fechada após a ruptura das relações entre os outrora inimigos.
De acordo com Dogu, a reunião com Rodríguez e Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e irmão da presidente interina, serviu para reiterar as três etapas propostas por Marco Rubio, secretário de Estado de Washington, para a Venezuela: a estabilização, a recuperação econômica, a reconciliação e a transição.
Já o ministro venezuelano da Comunicação, Miguel Pérez Pirela, informou pelas redes sociais que o encontro faz parte da agenda de trabalho entre a Venezuela e os Estados Unidos. Cotado para assumir como embaixador da Venezuela, Félix Plasencia já está em Washington conduzindo reuniões para reabrir a embaixada venezuelana nos Estados Unidos.
Redemocratizar
Para a analista política Luz Melly Reyes, os acontecimentos recentes na Venezuela seriam impensáveis poucas semanas atrás, quando Maduro ainda governava com mão de ferro. "Um mês após a saída de Nicolás Maduro do governo e sua extradição para os Estados Unidos, na Venezuela vêm acontecendo coisas impensáveis há trinta dias. Algumas delas são a aprovação da reforma da Lei de Hidrocarbonetos, a libertação de pelo menos 300 presos políticos e a reabertura da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas", afirmou.
Apesar de muitos interpretarem essas ações como sinais de liberalização, Reyes avalia que se trata de "uma etapa de reforço tático que o governo sabia que lhe convinha e sobre a qual estava trabalhando para poder ter novas entradas de dinheiro que evitassem que o país caísse em uma crise ainda mais profunda em termos econômicos". Segundo ela, o cenário atual reflete mais ajustes estratégicos e econômicos do que avanços efetivos na democratização do país.
O advogado Ali Daniels, diretor da ONG Acesso à Justiça, observa que, embora algumas medidas possam ser vistas como positivas, a execução ainda é limitada. "Com a reforma da Lei Orgânica de Hidrocarbonetos, foram feitas mudanças radicais e essenciais à indústria petrolífera do país, que contradizem todo o discurso oficial dos últimos 25 anos e modificam a forma como o recurso será manejado", afirmou. No entanto, Daniels ressalta que a liberação de presos políticos foi lenta e pouco transparente: "Não são libertações plenas, mas ex-prisões submetidas a muitas restrições. Muitas pessoas liberadas são proibidas de falar em público e obrigadas a se apresentar diariamente aos tribunais."
Segundo Daniels, embora a anistia anunciada por Delcy Rodríguez seja um sinal positivo, ainda não é possível confirmar seu alcance: "Recebemos isso como uma boa notícia, mas não podemos dar um sinal completo enquanto não tivermos o texto da lei e vermos qual será seu alcance."
Transição?
Com a mudança no cenário político interno da Venezuela, alguns analistas e setores afirmam que o país estaria em transição rumo à democracia. No entanto, Ali Daniels, advogado e diretor da ONG Acesso à Justiça, ressalta que ainda faltam medidas concretas que apontem para uma redemocratização "efetiva".
"Nesse sentido, fazemos o mesmo chamado que fizemos no princípio: que saiam todos os prisioneiros políticos para, a partir desse fato, poder dizer que a Venezuela começou um longo processo — porque sabemos que vai ser longo — em direção à democracia. Foi anunciado que haverá uma anistia, mas não foram divulgados os termos dela. Recebemos isso como uma boa notícia, mas não podemos dar um sinal completo enquanto não tivermos o texto da lei e não soubermos qual será seu alcance. Também vemos como positivo, como um sinal de esperança, o fechamento do [complexo prisional localizado em Caracas, conhecido internacionalmente por denúncias de tortura] Helicoide", afirmou Daniels.
Na última sexta-feira, Rodríguez anunciou que "decidimos promover uma lei de anistia geral que cubra todo o período de violência política de 1999 até a data atual". Essa iniciativa, que inclui a transformação do infame centro de detenção El Helicoide em um espaço social e esportivo, tem sido vista como uma tentativa de "curar feridas" e avançar na convivência social, embora a ausência de detalhes sobre os critérios da anistia gere dúvidas sobre seu impacto real.
Segundo a ONG Fórum Penal, até esta segunda-feira havia 687 presos políticos no país, entre os quais seis jornalistas ainda mantidos sob custódia, apesar de excarcelamentos parciais no último mês.
Nas redes sociais circula um vídeo que compara o antes e o depois de Óscar Castañeda, preso em 2024. Nas imagens divulgadas recentemente, o opositor aparece com graves sequelas, incluindo dificuldade para caminhar e incapacidade de reconhecer a própria filha — um exemplo que tem alimentado protestos e apelos pela libertação de detidos e por transparência no processo de anistia.
"Princesinha do chavismo"
Mesmo defendendo a libertação e o retorno de Nicolás Maduro à Venezuela, Delcy Rodríguez fez mudanças significativas em pastas centrais do governo. Ela também colocou em segundo plano pessoas próximas a Maduro. É o caso de Alex Saab, designado por Maduro para o Ministério da Indústria e Produção Nacional. Delcy o destituiu e integrou a pasta ao Ministério do Comércio.
A presidente interina preferiu manter por perto, como ministro de Despacho da Presidência, Juan Escalona, então aliado do agora ex-presidente. Já Calixto Ortega, que era presidente do Banco Central da Venezuela, passou à presidência do Centro Internacional de Investimento Produtivo, sendo responsável por atrair novos investimentos ao país.
Na tarde da segunda-feira, Delcy nomeou a "princesinha do chavismo" para o cargo de ministra do Turismo. Sancionada pelos EUA em 2024, Daniella Cabello é filha de Diosdado Cabello, ministro do Interior e da Justiça. Há anos o governo tenta promover o turismo internacional no país, mas a falta de infraestrutura e a reputação negativa da Venezuela não têm ajudado.
Melhora econômica
Enfraquecida após anos de sucateamento da infraestrutura e de sanções internacionais, a indústria petrolífera continua sendo a base da economia venezuelana. A reforma da Lei de Hidrocarbonetos, somada aos acordos com os Estados Unidos, sinaliza uma possível expansão na extração e exportação de petróleo, apesar dos desafios históricos enfrentados pelo setor.
Para o economista José Guerra, duas mudanças recentes ilustram esse movimento. Primeiro, explicou ele, empresas petrolíferas agora podem exportar barris de petróleo que anteriormente eram vendidos com desconto à China, recebendo cerca de 50 dólares por barril no mercado — um valor mais próximo do preço de mercado e que gera recursos para o país. O problema, segundo Guerra, é que "o dinheiro é administrado pelos Estados Unidos e depois enviado à Venezuela de forma algo discricionária, sem continuidade nas entregas de dólares ao país".
A segunda mudança, disse o economista, foi a aprovação da nova Lei de Hidrocarbonetos, que desmontou a estrutura jurídica, legal e operacional da indústria petrolífera venezuelana concebida sob Hugo Chávez a partir de 2001. Essa reforma representa uma quebra com décadas de controle estatal e busca atrair investimentos, flexibilizando regras e abrindo espaço para maior participação privada e estrangeira.
Cidadãos venezuelanos ouvidos pela RFI relatam que, apesar das dificuldades persistentes, há uma pequena melhora e, sobretudo, esperança de que a situação econômica avance. Uma funcionária pública de 40 anos destacou a expectativa por investimentos na infraestrutura: "Pretendem investir na área de eletricidade, o que seria maravilhoso. Aqui na Venezuela, de sete dias da semana, em três dias, em Caracas ficamos com algumas áreas sem luz, e no interior do país são muitos mais dias."
O psicólogo Rodolfo Romero observou que "um mês depois, a situação está mais calma e tranquila. Há uma certa sensação de esperança em relação a uma melhoria na situação do país".