Como câmeras de vigilância e reconhecimento facial viraram tema da disputa eleitoral nos EUA

A dois meses das eleições legislativas nos Estados Unidos, a expansão de tecnologias de vigilância baseadas em inteligência artificial entrou no centro do debate político. Denúncias sobre o uso de câmeras capazes de rastrear veículos em tempo real e de sistemas de reconhecimento facial empregados pela polícia migratória provocaram investigações, ações judiciais e reações de eleitores preocupados com privacidade, poder estatal e direitos civis.

4 set 2026 - 14h22
Resumo
O avanço das câmeras de leitura de placas da Flock Safety e do reconhecimento facial da polícia migratória virou tema central da disputa eleitoral nos EUA. Denúncias de vigilância em massa, espionagem política e abusos sem ordem judicial motivaram o cancelamento de contratos públicos, investigações no Congresso e projetos de lei para barrar abusos biométricos. Sob forte pressão de eleitores e entidades civis, candidatos agora enfrentam desgastes pelo apoio à expansão desse aparato de segurança.

Com informações de Vincent Souriau e Lucile Gimberg, correspondentes da RFI nos EUA

Uma câmera de reconhecimento facial da empresa Flock em Waltham, no estado de Massachusetts, em 24 de agosto de 2026.
Uma câmera de reconhecimento facial da empresa Flock em Waltham, no estado de Massachusetts, em 24 de agosto de 2026.
Foto: REUTERS - Brian Snyder / RFI

A popularização das câmeras Flock, capazes de identificar automaticamente placas de veículos, e o uso crescente de tecnologias de reconhecimento facial pela polícia migratória norte-americana provocaram uma reação de organizações civis, parlamentares e eleitores preocupados com a privacidade. O debate se transformou em um problema político para candidatos que apoiaram ou financiaram esses sistemas, justamente em um momento em que o controle do Congresso está em jogo.

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A mudança de tom ocorreu após uma série de denúncias envolvendo o uso considerado abusivo dessas ferramentas. O que começou como uma discussão técnica sobre combate ao crime passou a alimentar questionamentos sobre vigilância em massa, monitoramento político e limites do poder do Estado.

No centro da controvérsia está a empresa Flock Safety, líder do mercado de leitores automáticos de placas veiculares nos Estados Unidos. Desde 2020, a companhia instalou mais de 120 mil câmeras pelo país e se tornou uma das empresas mais bem-sucedidas do setor de tecnologia voltada à segurança pública, alcançando uma avaliação superior a US$ 8 bilhões.

O avanço foi meteórico. Em apenas seis anos, a Flock passou a fornecer equipamentos para cerca de 40% das forças policiais norte-americanas. Entre os clientes estão departamentos municipais, escritórios de xerifes, polícias estaduais e órgãos de segurança do Texas e de dezenas de outros estados.

A rede também se expandiu para o setor privado. Condomínios, centros comerciais, redes varejistas e empresas passaram a instalar os equipamentos em larga escala. Segundo a própria companhia, o sistema registra mensalmente mais de 20 bilhões de leituras de placas de veículos.

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O alcance da tecnologia criou uma malha de monitoramento sem precedentes no país, permitindo reconstruir deslocamentos e mapear trajetos a partir dos registros armazenados pelas câmeras.

Monitoramento político?

Embora os leitores automáticos estejam presentes em diversas cidades desde 2020, a polêmica ganhou força apenas nos últimos meses, impulsionada por investigações publicadas pelo Washington Post e por relatórios produzidos por organizações de defesa das liberdades civis.

Originalmente, os equipamentos foram apresentados como uma ferramenta para localizar veículos roubados, identificar suspeitos e auxiliar investigações criminais. Mas denúncias recentes revelaram usos muito além dessas finalidades.

Em mais de 50 casos documentados, policiais teriam utilizado os dados da plataforma para monitorar companheiras ou ex-companheiras. Os episódios reforçaram críticas sobre a falta de mecanismos eficazes de controle e fiscalização.

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Também surgiram acusações de monitoramento político. Segundo organizações civis, agentes consultaram o sistema para identificar participantes de manifestações públicas por meio das placas dos veículos estacionados próximos aos eventos.

Um dos casos mais citados ocorreu no Texas. De acordo com denúncias divulgadas por entidades de defesa da privacidade, um policial teria utilizado a plataforma para verificar se uma mulher havia visitado uma clínica onde são realizados procedimentos de interrupção da gravidez.

A repercussão levou à criação de grupos dedicados a localizar, catalogar e mapear as câmeras espalhadas pelo país. Essas organizações passaram a pressionar administrações locais para encerrar contratos com a empresa.

Recuo de autoridades e investigações no Congresso

Desde o início de agosto, dezenas de municípios suspenderam ou encerraram acordos com a Flock. No Texas, o governador decidiu congelar recursos destinados à expansão desses sistemas. Na Flórida, as autoridades proibiram o uso dos leitores automáticos de placas nas rodovias estaduais.

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A reação chegou também ao Congresso norte-americano. Parlamentares abriram investigações para examinar a coleta, o armazenamento e o compartilhamento de dados realizados pela empresa, especialmente em situações que não envolvem autorização judicial.

Sob pressão crescente, a Flock anunciou mudanças em seus protocolos. A principal delas foi a redução do período de retenção das informações coletadas, que caiu de 30 para sete dias.

A medida, porém, não encerrou a controvérsia. Em vários estados, candidatos que apoiaram a expansão do sistema passaram a ser cobrados por adversários e eleitores. Com a proximidade do pleito de novembro, o tema ameaça se tornar um fator de desgaste eleitoral.

Polícia migratória amplia arsenal tecnológico

O debate sobre as câmeras Flock ocorre paralelamente a uma controvérsia ainda mais ampla envolvendo as tecnologias utilizadas pela polícia de imigração dos Estados Unidos, a ICE.

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Nos últimos anos, a agência ampliou significativamente seus investimentos em ferramentas de vigilância digital, reconhecimento facial e análise automatizada de dados, beneficiada por um orçamento que hoje alcança US$ 28 bilhões.

As críticas ganharam visibilidade após relatos de cidadãos norte-americanos que afirmam ter sido identificados ou monitorados por agentes sem qualquer procedimento judicial.

Emily Bells, moradora de Minneapolis, relata em uma ação judicial que uma agente da imigração mencionou seu endereço residencial durante uma abordagem. Segundo ela, os ocupantes de um veículo chegaram a afirmar que a levariam de volta para casa, enquanto repetiam seu nome.

Uma situação semelhante foi relatada ao jornal The New York Times por Nicole Cleland, voluntária de um grupo que monitora atividades da polícia migratória em Minnesota. Segundo seu relato, um agente se aproximou e a chamou pelo nome mesmo sem nunca tê-la encontrado antes. Posteriormente, ela afirmou ter sido informada de que a identificação havia sido feita por meio de tecnologias de reconhecimento facial.

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As denúncias fortaleceram preocupações envolvendo o aplicativo Mobile Fortify, utilizado pela agência. Com o sistema, agentes conseguem escanear rostos e acessar dados como identidade, endereço e situação administrativa de uma pessoa.

Reconhecimento facial e inteligência artificial sob escrutínio

Inicialmente desenvolvido para agentes que atuam próximos à fronteira com o México, o Mobile Fortify passou a ser utilizado em outras regiões do país, despertando preocupação entre especialistas em direitos civis.

Segundo uma ação judicial movida em Illinois, o Departamento de Segurança Interna utilizou a tecnologia mais de 100 mil vezes para analisar rostos e impressões digitais no estado. A acusação sustenta que cidadãos norte-americanos foram fotografados ou submetidos a verificações biométricas sem consentimento.

A reação chegou ao Congresso, onde parlamentares apresentaram o projeto conhecido como "ICE Out of Our Faces Act". A proposta busca limitar o uso de sistemas biométricos e criar mecanismos de supervisão considerados inexistentes ou insuficientes pelos defensores da medida.

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O Departamento de Segurança Interna rejeita as acusações. Em comunicado, afirmou que o Mobile Fortify opera com parâmetros rigorosos de identificação, acessa apenas bases de dados restritas da imigração e não utiliza redes sociais nem informações disponíveis publicamente.

Para críticos da expansão dessas ferramentas, contudo, o problema envolve não apenas uma tecnologia específica, mas a rápida formação de uma infraestrutura de vigilância cada vez mais abrangente. Além do reconhecimento facial, a ICE utiliza programas capazes de coletar dados de localização de milhões de celulares e sistemas que analisam redes sociais com auxílio de inteligência artificial.

Especialistas em direitos digitais afirmam que a combinação de orçamento crescente, avanço tecnológico e redução dos mecanismos de supervisão criou um ambiente propício a abusos. Em um ano eleitoral marcado pela disputa pelo Congresso, o tema deixou de ser uma questão técnica e se transformou em mais um teste para candidatos obrigados a responder até onde o Estado deve ir em nome da segurança.

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