Pauline Le Troquier, correspondente da RFI em Dakar, com AFP
No momento da prisão, o médico tentava deixar Dakar pelo Aeroporto Internacional Blaise Diagne, segundo uma fonte que acompanha o caso no tribunal de Pikine Guédiawaye. O homem de 38 anos, cujo nome não foi divulgado, é suspeito de ter tido relações sexuais com o apresentador de televisão Pape Cheikh Diallo, uma celebridade que também enfrenta acusações de sodomia e transmissão intencional do HIV.
Após a prisão do médico, funcionário do principal centro de coleta de sangue do país, uma onda de rumores se espalhou nas redes sociais. "É urgente verificar se as bolsas de sangue não foram contaminadas e não transmitiram o HIV", disse um usuário.
As autoridades responsáveis pelo caso não especificaram se o suspeito está de fato contaminado com o vírus, mas, na sexta-feira (3), a instituição reagiu à repercussão das especulações nas redes sociais.
"Cada unidade de sangue coletada é sistematicamente submetida a testes rigorosos, principalmente para HIV [...]. Doar sangue continua sendo um ato seguro", insistiu o Centro Nacional de Transfusão de Sangue (CNTS), em um comunicado também divulgado pelo governo.
Cinco a dez anos de prisão
O caso deste médico está longe de ser isolado. A crescente hostilidade contra os homossexuais levou à promulgação, na terça-feira (31), de uma nova lei que endurece as penas aplicadas aos homens que mantêm relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. Agora, os gays estão sujeitos a penas de entre cinco a dez anos de prisão.
"Fugir não é uma alegria, mas pelo menos ainda estou vivo", diz Assane [seu nome foi trocado a pedido da fonte], que chegou à França há sete meses. No Senegal, seu pai o flagrou com um parceiro e ameaçou matá-lo. Sua mãe afirmou que ele "não era mais seu filho" e disse que sentia "vergonha".
Ele conta que, fora do círculo familiar, "era alguém de quem todos gostavam na vizinhança, mas agora virou a pessoa que todos odeiam". No Senegal, um país predominantemente muçulmano e profundamente religioso, a homossexualidade é considerada uma perversão. Além disso, é denunciada como uma ferramenta do Ocidente para impor outros valores à cultura local.
Mas Assane responde que, para ele, ser homossexual "não é uma escolha". "Eu nunca quis ser, lutei com unhas e dentes para mudar minha vida, mas era mais forte do que eu", disse ele à AFP.
Mais da metade dos países africanos proíbem e reprimem a homossexualidade. A pena de morte é imposta em Uganda, Mauritânia e Somália.
Escalada homofóbica no Senegal
A situação no Senegal representa "uma das escaladas mais alarmantes que estamos monitorando", disse à AFP Arlana Shikongo, assessora de comunicação da ILGA-África, o braço africano da Associação Internacional LGBT+. Ela descreveu um "clima crescente de medo", com figuras da comunidade "se escondendo" e associações sendo "forçadas a repensar sua forma de operar", já que, até pouco tempo atrás, atuavam com "certo grau de visibilidade".
Quando alguém é preso por suposta homossexualidade, "seu telefone é revistado" para verificar seus contatos e, assim, prender outras pessoas, afirmou Assane. O resultado é que pessoas LGBT+ não se atrevem mais a se comunicar por meio de aplicativos de mensagens ou redes sociais.
Essa situação levou a associação francesa Stop Homophobie a abrir uma linha de ajuda internacional, que desde então recebeu dezenas de ligações. "A maioria das pessoas que ligam quer fugir do país", disse Inès Sanoussi, coordenadora da linha de ajuda, à AFP. A linha oferece apoio psicológico e encaminha as pessoas para organizações locais.
"Há uma caça às bruxas contra os gays, então as pessoas estão limitando suas saídas. Algumas não se atrevem mais a ir trabalhar ou adquirir seus medicamentos para HIV", lamentou ela.
Refúgio no exterior
Um amigo próximo de Assane, assediado pelas pessoas de seu entorno, também quer ir embora, mas não tem recursos para viabilizar o plano. "As pessoas jogam coisas, gritam seu nome, o insultam. É difícil para ele", conta Assane.
"A única coisa que podemos fazer é deixar o país porque não estamos mais seguros lá", conclui.
Desde 2021, o Senegal deixou de ser considerado um país seguro pelo Escritório Francês para a Proteção de Refugiados e Apátridas (OFPRA) devido aos riscos relacionados à orientação sexual. Ao ser contatada pela AFP, a agência, que não publica estatísticas sobre os motivos dos pedidos de asilo, afirmou que está "levando em consideração" esse recente endurecimento da legislação no país africano.